{"id":12068,"date":"2025-07-12T08:14:29","date_gmt":"2025-07-12T11:14:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=12068"},"modified":"2025-07-11T15:17:51","modified_gmt":"2025-07-11T18:17:51","slug":"hidreletricas-reduziram-biodiversidade-do-rio-madeira-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2025\/07\/12\/hidreletricas-reduziram-biodiversidade-do-rio-madeira-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Hidrel\u00e9tricas reduziram biodiversidade do Rio Madeira, na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia das usinas hidrel\u00e9tricas ultrapassa o fornecimento de energia ao sistema nacional. Essa forma de gerar eletricidade em escala comp\u00f5e 75% da matriz nacional, mas sua capacidade instalada oferece baixa mitiga\u00e7\u00e3o dos seus efeitos no ambiente, especialmente na Amaz\u00f4nia. As barragens fragmentam o ecossistema ao impedirem a migra\u00e7\u00e3o de peixes, alterando as reservas pesqueiras que as comunidades ribeirinhas consomem para subsist\u00eancia e renda, dentre outros efeitos ambientais. Um estudo mostrou o impacto das usinas de Jirau e Santo Ant\u00f4nio nas popula\u00e7\u00f5es de peixes no rio Madeira, compreendendo uma \u00e1rea entre os estados do Amazonas e de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>O artigo <em><strong><a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1002\/rra.4451\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1002\/rra.4451&amp;source=gmail&amp;ust=1752342347802000&amp;usg=AOvVaw2ZHWf406B3pDsR949h34Iy\">Impacts of Hydroelectric Dams on Amazonian Fisheries: Assessing Functional Attributes in the Madeira River<\/a><\/strong><\/em>\u00a0foi publicado na revista cient\u00edfica\u00a0<em><strong><a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/journal\/15351467\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/journal\/15351467&amp;source=gmail&amp;ust=1752342347802000&amp;usg=AOvVaw17IIF7xo1h5U-5jgMWvAJ4\">River Research and Applications<\/a><\/strong><\/em>\u00a0e \u00e9 assinado\u00a0por Ana Laura Monteiro de Souza (UFMS), Rog\u00e9rio Fonseca (UFAM), Rangel Eduardo Santos (UFSB), Raniere Garcez Costa Sousa (UNIR), Felipe Micali Nuvoloni (CFCAM\/UFSB), Isys Nathyally de Lima Silva (UFAM), Karen Sayuri Takano (UFAM), Fabricio Berton Zanchi (CFCAM\/UFSB). O estudo contou com fomento da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM). Os autores integram o\u00a0N\u00facleo de Pesquisas em Ecossistemas Tropicais (NuPEcoTropic), liderado pelo professor Fabr\u00edcio Berton Zanchi e com a pesquisadora Ana Laura Monteiro de Souza e colaboradores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" title=\"Pescado no mercado de Humait\u00e1 (Foto: Rangel Santos)\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NYNg50BhFhFXHv46QH4DVVu8B--PkOIq5slEolDwThJ194kWn-E3wWLBAnvyf9DQLoCB_rJraVIYyvAYver4PpJP-eCVrMt6QIzs8ZdYUXXfwlebBncGiVMjoF8d76sYV0eJz2G9X_mHj6IDXQ8RMW2WAqmLhaHGjk_kBtjuRjUl70h49qIISk7QF8TT45YGUIB5HIkSDEBJQpepvxa5Wn8qH94pQbfkf-WemwP6hBIcHc7znmv7dIFTfqNu51cYV1t86LZvcdQNhHZ=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2025\/Julho\/ufsb_ciencia_fabricio_zanchi_UHEs_e_biodiversidade_Rio_Madeira\/Pescado_no_merdcado_de_Humaita._Foto_Rangel_Santos_-_Copia.png\" alt=\"Pescado no mercado de Humaita. Foto Rangel Santos\" width=\"350\" height=\"233\" data-bit=\"iit\" \/>O Rio Madeira \u00e9 o maior afluente do Amazonas e sua alta biodiversidade de cerca de 1.300 esp\u00e9cies de peixes \u00e9 vital para as comunidades ribeirinhas.\u00a0Os dados coletados indicam uma imensa redu\u00e7\u00e3o de cardumes de grande valor alimentar e econ\u00f4mico para a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 margem daquele rio, ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o das usinas. Essas perdas n\u00e3o s\u00e3o apenas n\u00fameros t\u00e9cnicos, como comenta o professor Fabr\u00edcio Zanchi,\u00a0do\u00a0<a href=\"https:\/\/ufsb.edu.br\/cfcam\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/ufsb.edu.br\/cfcam&amp;source=gmail&amp;ust=1752342347802000&amp;usg=AOvVaw01fdc8w4Ozc4qzMrxZJWAf\"><strong>Centro de Forma\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Ambientais (CFCAM\/UFSB)<\/strong><\/a>: &#8220;Elas comprometem a seguran\u00e7a alimentar de milhares de pessoas. Na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, o consumo m\u00e9dio de peixe ultrapassa 30 kg por habitante por ano, sendo mais do que o dobro da m\u00e9dia nacional, que \u00e9 de 12 kg\/hab.\/ano. No caso de Humait\u00e1, com uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 57 mil pessoas, a redu\u00e7\u00e3o de mais de 9 mil toneladas anuais de pescado representa uma perda estimada de aproximadamente 166 gramas de peixe por pessoa, por semana&#8221;.<\/p>\n<p>O cientista aponta que, nesse c\u00e1lculo de base semanal de consumo a partir de dado anual, \u00e9 preciso considerar que h\u00e1 \u00e9pocas de defeso (quando a pesca de certas esp\u00e9cies \u00e9 proibida) e per\u00edodos de baixa captura provocado por varia\u00e7\u00f5es sazonais, causando uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica nas capturas efetuadas pelos ribeirinhos e povos origin\u00e1rios da bacia. &#8220;Essa \u00e9 uma perda n\u00e3o somente de prote\u00edna acess\u00edvel para fam\u00edlias durante meses e que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam outra fonte alimentar equivalente, mas tamb\u00e9m de subsist\u00eancia e com\u00e9rcio para aquisi\u00e7\u00e3o de outras fontes alimentares&#8221;, detalha o cientista, que indica os dados\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s13280-020-01316-w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/doi.org\/10.1007\/s13280-020-01316-w&amp;source=gmail&amp;ust=1752342347802000&amp;usg=AOvVaw2vVknvFkqBdvid0V8y4Spm\">de outro trabalho do grupo (Santos et al, 2018)<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>20 anos de informa\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" title=\"Vista a\u00e9rea da UHE Jirau, em Rond\u00f4nia, em mar\u00e7o de 2014: medidas de transposi\u00e7\u00e3o de peixes foram ineficazes (cr\u00e9dito: PAC\/ Minist\u00e9rio do Planejamento)\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NYG6tSBjaGBLWChHMd5HGWzMqOo_fciUI9aFIRkJhe7ve5BMNwy-3etQbhcKNnfhwXO2nUcCgy2JLfZsjWPNfbwubBaCop8N5qhvIdI0JWHWPm2VxObE9z54YQNsqkFTuin-TWXxGypKvlUJ-2QKWphEGG2b3D7UhcSvKcIVETqa2SZehK68GmHABe5PEVqvOdP32Oyf5ZcoUTFtS-hm0oxLFNon14M=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2025\/Julho\/ufsb_ciencia_fabricio_zanchi_UHEs_e_biodiversidade_Rio_Madeira\/14815352018_4b34dd5173.jpg\" alt=\"14815352018 4b34dd5173\" width=\"400\" height=\"266\" data-bit=\"iit\" \/>Para entender como as barragens modificaram a composi\u00e7\u00e3o das reservas pesqueiras no rio Madeira, a equipe de cientistas comparou dados dos per\u00edodo pr\u00e9- e p\u00f3s-constru\u00e7\u00e3o das usinas hidrel\u00e9tricas (UHEs), inauguradas em 2011. O foco recaiu nas informa\u00e7\u00f5es de desembarque pesqueiro de 2000 a 2019 de duas col\u00f4nias pesqueiras, um a montante (antes) (Z-2, em Guajar\u00e1-Mirim) e outro a jusante (depois)\u00a0(Z-31, em Humait\u00e1) das usinas, identificando os atributos funcionais das esp\u00e9cies quanto aos padr\u00f5es migrat\u00f3rios e de habitat e a produ\u00e7\u00e3o registrada nos desembarques di\u00e1rios em cada porto.<\/p>\n<p>Centrar a an\u00e1lise nos atributos funcionais das esp\u00e9cies \u2014 como tipo de migra\u00e7\u00e3o (local, regional e de longa dist\u00e2ncia) e habitat preferencial (bentopel\u00e1gico, pel\u00e1gico e demersal) foi uma escolha decisiva para identificar os grupos mais vulner\u00e1veis ao impacto das barragens. E de forma temporal, a compara\u00e7\u00e3o entre os per\u00edodos anterior e posterior \u00e0 constru\u00e7\u00e3o revelou quedas expressivas nos desembarques pesqueiros.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as na pesca considerou as quantidades capturadas de esp\u00e9cies, classificadas de acordo com padr\u00f5es de migra\u00e7\u00e3o de\u00a0 habitats e a profundidade na qual vivem, ao longo de 20 anos. Assim, foi poss\u00edvel mapear as diferen\u00e7as nas popula\u00e7\u00f5es a partir das quantidades registradas de pescado. Para isso, os dados de desembarque pesqueiro foram avaliados considerando a classifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies por atributos funcionais. Quanto \u00e0 migra\u00e7\u00e3o, as esp\u00e9cies foram organizadas entre local, regional, longa dist\u00e2ncia e sedent\u00e1ria. Em rela\u00e7\u00e3o ao habitat, no caso, as profundidades nas quais as esp\u00e9cies vivem, os peixes foram organizados nos grupos pel\u00e1gico (que vivem na coluna de \u00e1gua at\u00e9 200 metros de profundidade), bentopel\u00e1gico (vivem na zona de transi\u00e7\u00e3o entre a coluna de \u00e1gua e o fundo) e demersal (mais profundos), conforme dados do FishBase e literatura cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Para essas classifica\u00e7\u00f5es e com esses dados, a equipe aplicou testes estat\u00edsticos (Mann-Whitney) e an\u00e1lise NMDS (<em>non-metric multidimensional scaling<\/em>), combinados com o uso do \u00edndice de dissimilaridade de Bray-Curtis e empregando an\u00e1lise computacional no software R Studio. Enquanto o teste Mann-Whitney favorece a an\u00e1lise dos dados de captura entre os per\u00edodos anteriores e posteriores \u00e0 instala\u00e7\u00e3o das usinas, o uso da an\u00e1lise NMDS serviu para avaliar as mudan\u00e7as nas composi\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es das esp\u00e9cies de peixes no recorte temporal pesquisado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A crise n\u00e3o \u00e9 apenas ambiental<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" title=\"Uma das esp\u00e9cies mais afetadas \u00e9 a dourada (Brachyplastytoma rousseauxii), com grande redu\u00e7\u00e3o nos desembarques, sinalizando queda na popula\u00e7\u00e3o (cr\u00e9dito: Enrico Richter [My Aquarium.com.br])\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NbMN2K_iMm6qdgg-FRqIcPcWJlBvj6mg80Ju4uuGk9DICa2NEmVcrFDFXoaiZKK2FNS2EaEw1JLfafzkAxvgUnCOc9TEySWms3Ds1v1LtW67BtsQxID8SFlUYDz3NvuJ0g5BpPymV-MiXK1ctvhTNokTDB9Hx1fyOYs8stIyoe1JazKchaN_3ZR40UWTPZZ6jPHzkeXrkfrAkNiufUSBVKHm9b3SLpK44Qh6wS4T2xPFcS_LwaXH3pDwsrMuUfpZ3lQpdVac4mKmrIlgbaNbEkuiG8=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2025\/Julho\/ufsb_ciencia_fabricio_zanchi_UHEs_e_biodiversidade_Rio_Madeira\/dourada-brachyplatystoma-rousseauxii-guia-e-cuidados-ficha-tecnica.jpg\" alt=\"dourada brachyplatystoma rousseauxii guia e cuidados ficha tecnica\" width=\"400\" height=\"253\" data-bit=\"iit\" \/>Os dados mostram que houve queda no n\u00famero de popula\u00e7\u00f5es migrat\u00f3rias no per\u00edodo de 20 anos de dados analisados, com os danos sendo piores a montante das usinas. A queda m\u00e9dia foi de 60% na col\u00f4nia Guajar\u00e1-Mirim, antes das usinas, um impacto de menos 51.63% de esp\u00e9cies de migra\u00e7\u00e3o regional e de menos 8.67% das esp\u00e9cies de migra\u00e7\u00e3o de longa dist\u00e2ncia. O artigo destaca a redu\u00e7\u00e3o de 91% de quantidade da dourada (<em>Brachyplatystoma rousseauxii<\/em>) e de 92,78% do pia\u00fa (<em>Schizodon fasciatus<\/em>,\u00a0<em>Leporinus spp.<\/em>), ambas esp\u00e9cies de alto valor comercial.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as usinas, na col\u00f4nia Z-31, a redu\u00e7\u00e3o total foi de 41,49% de esp\u00e9cies, destacando a queda de 85.50% da presen\u00e7a de esp\u00e9cies migrat\u00f3rias regionais e de 81.45% das esp\u00e9cies de migra\u00e7\u00e3o de longa dist\u00e2ncia. Um resultado importante \u00e9 que as \u00fanicas esp\u00e9cies que apresentaram aumento na representa\u00e7\u00e3o foram as sedent\u00e1rias a jusante das usinas. Esse dado aponta para mudan\u00e7a ecol\u00f3gica, em que os peixes migradores n\u00e3o conseguiram transpor as barragens para concluir seu ciclo reprodutivo. Isso, portanto, indica que os peixes que t\u00eam seus ciclos reprodutivos na mesma \u00e1rea foram menos impactados. Outra informa\u00e7\u00e3o resultante do estudo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de peixes com escamas e migrat\u00f3rios e o aumento de esp\u00e9cies de peixes carn\u00edvoros.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o geral de pescado tem peso na renda regional, pois esp\u00e9cies de grande import\u00e2ncia comercial na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, como o curimat\u00e3 (<em>Prochilodus scrofa<\/em>), jatuarana\/matrinx\u00e3 (<em>Brycon amazonicus<\/em>,\u00a0<em>B. melanopterus<\/em>\u00a0e\u00a0<em>B. falcatus<\/em>) e o tucunar\u00e9 (<em>Cichla spp<\/em>.), todos bentopel\u00e1gicos, tiveram o maior decl\u00ednio nos desembarques pesqueiros. Dentre os peixes pel\u00e1gicos, a piranha (<em>Serrasalmus sp.<\/em>) e a pirapitinga (<em>Piaractus brachypomus<\/em>) tiveram a maior redu\u00e7\u00e3o na pesca.<\/p>\n<p>Com isso, apontam os autores do estudo, as barragens transformaram o rio Madeira de um ambiente l\u00f3tico, ou seja, de correnteza, para um ambiente l\u00eantico, de \u00e1gua represada. Essa mudan\u00e7a prejudicou os peixes migrat\u00f3rios e favoreceu os sedent\u00e1rios. Os sistemas que permitiriam a passagem de peixes foram ineficientes, afetando esp\u00e9cies como os bagres, migrantes de longa dist\u00e2ncia, causando\u00a0a redu\u00e7\u00e3o da quantidade de pescado de esp\u00e9cies de alto valor comercial, indicando que esses peixes tiveram queda nas popula\u00e7\u00f5es. Em consequ\u00eancia, os pescadores passaram a capturar maiores quantidade de peixes de menor valor comercial. Isso \u00e9 mais uma press\u00e3o sobre o ecossistema, piorando os resultados em todos os \u00e2mbitos de sustentabilidade.<\/p>\n<p>&#8220;A crise, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas ambiental. \u00c9 uma crise que trata-se de uma viola\u00e7\u00e3o indireta do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o dos povos ribeirinhos e povos tradicionais, que dependem dos peixes migrat\u00f3rios durante o ano todo para manter suas pr\u00e1ticas culturais e garantir o m\u00ednimo nutricional&#8221;, afirma o professor Fabr\u00edcio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>O que fazer diante do problema<\/strong><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" title=\"O pia\u00fa \u00e9 um dos peixes de alto valor comercial que teve popula\u00e7\u00e3o reduzida desde a instala\u00e7\u00e3o das UHEs no Rio Madeira (cr\u00e9dito: Tomaz Nascimento de Melo [Marine Life Identification])\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NbUHE6XRoBH8FhUEZH61t1fO6fMnqKMa5YGUBtCt6gwE2MEAf3WX057a7O53GLjedvla-SIQGpKmT4RH8PL7JyK93dMnd_Lvdb_pB9RUB5zbEUsDebtcKDunWxbdl43_GcGpqTu1A8NXqqjvxStkf_FZe2-dxajMXxkiBuArn7ittPbM4Cp9jiEHMT7wQlteBSNNThu7Wt-ghx2MIFL4fsKyLcD2rAR64bRkoku7aXQ=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2025\/Julho\/ufsb_ciencia_fabricio_zanchi_UHEs_e_biodiversidade_Rio_Madeira\/piau_schizodon_fasciatus_large.jpeg\" alt=\"piau schizodon fasciatus large\" width=\"400\" height=\"300\" data-bit=\"iit\" \/>Os dados obtidos s\u00e3o evid\u00eancias cient\u00edficas \u00fateis para aprimorar as pol\u00edticas p\u00fablicas e os projetos de usinas hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia, incluindo a sugest\u00e3o de incluir os atributos funcionais das esp\u00e9cies de peixes da regi\u00e3o no desenho dos sistemas de passagem. Outras propostas s\u00e3o o desenvolvimento de estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o mais eficazes para esp\u00e9cies migrat\u00f3rias, contemplando e protegendo os ciclos reprodutivos, como\u00a0a restaura\u00e7\u00e3o da conectividade dos rios, o manejo adaptativo com participa\u00e7\u00e3o das comunidades, subs\u00eddios e compensa\u00e7\u00f5es as comunidades afetadas, bem como a revaloriza\u00e7\u00e3o do conhecimento local para entender os efeitos desta modifica\u00e7\u00e3o na bacia.<\/p>\n<p>O professor Fabr\u00edcio Zanchi argumenta que, diante do atual cen\u00e1rio da biodiversidade do Rio Madeira, a principal medida seria a implementa\u00e7\u00e3o de um sistema de transposi\u00e7\u00e3o de peixes que seja realmente eficiente e adaptado \u00e0s caracter\u00edsticas do rio. &#8220;O Madeira possui um alto fluxo de sedimentos e nutrientes, al\u00e9m de uma vaz\u00e3o elevada (31.704 m\u00b3\/s). Um sistema capaz de lidar com essas condi\u00e7\u00f5es, e que permita a transposi\u00e7\u00e3o das diversas esp\u00e9cies, possibilitaria a estabiliza\u00e7\u00e3o \u2014 e, gradualmente, a recupera\u00e7\u00e3o \u2014 da biodiversidade aqu\u00e1tica.\u00a0Outro fator importante \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do regime do rio de l\u00f3tico para l\u00eantico ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o das barragens, o que afeta os processos ecol\u00f3gicos. Ajustar a vaz\u00e3o do rio, promovendo uma maior mobiliza\u00e7\u00e3o de sedimentos e nutrientes e melhorando o substrato, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que poderia contribuir positivamente para a recupera\u00e7\u00e3o dos cardumes. Combinado isso e um sistema de transposi\u00e7\u00e3o eficaz permitiria que os peixes migrassem da jusante para a montante, completando seu ciclo reprodutivo, que \u00e9 fortemente dependente dessa conectividade longitudinal, e que foi fortemente afetado e alterado pelas usinas&#8221;.<\/p>\n<p>Outro aspecto do problema \u00e9 como essa mudan\u00e7a ambiental afetou a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha, muito dependente da pesca. Com essa atividade econ\u00f4mica e de subsist\u00eancia prejudicada, outros preju\u00edzos podem ocorrer. Para Fabr\u00edcio, \u00e9 imprescind\u00edvel uma\u00a0reeduca\u00e7\u00e3o da atividade pesqueira local. Trataria-se de uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 nova realidade at\u00e9 que a fauna aqu\u00e1tica se estabilize, de modo a permitir que os peixes completem seu ciclo reprodutivo. &#8220;Nosso estudo mostrou uma concentra\u00e7\u00e3o da pesca de determinadas esp\u00e9cies a jusante, provavelmente devido \u00e0 sua dificuldade em transpor a montante, o que aumenta sua vulnerabilidade e levou a uma sobrepesca das esp\u00e9cies na \u00e1rea, n\u00e3o permitindo sua coleta rio acima e nem que posteriormente elas retornassem ap\u00f3s completar o seu ciclo reprodutivo. Por isso, criar novas m\u00e9tricas de pesca que permitam uma boa coleta de pescado, mas que ainda proteja os mais vulner\u00e1veis \u00e9 indispens\u00e1vel no momento&#8221;, explica o cientista.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de reorganizar a pesca, ser\u00e1 preciso dar apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que teve grande redu\u00e7\u00e3o na fonte de prote\u00ednas e de receita: &#8220;Incentivar alternativas sustent\u00e1veis de gera\u00e7\u00e3o de renda, diversificar as atividades econ\u00f4micas e fomentar programas de seguran\u00e7a alimentar e capacita\u00e7\u00e3o s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que podem reduzir a press\u00e3o sobre os recursos pesqueiros e promover a recupera\u00e7\u00e3o dos estoques&#8221;, finaliza Fabr\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia das usinas hidrel\u00e9tricas ultrapassa o fornecimento de energia ao sistema nacional. Essa forma de gerar eletricidade em escala comp\u00f5e 75% da matriz nacional, mas sua capacidade instalada oferece baixa mitiga\u00e7\u00e3o dos seus efeitos no ambiente, especialmente na Amaz\u00f4nia. 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