{"id":14959,"date":"2026-01-06T09:13:31","date_gmt":"2026-01-06T12:13:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=14959"},"modified":"2026-01-06T08:17:53","modified_gmt":"2026-01-06T11:17:53","slug":"o-cacau-a-ameaca-e-o-parentesco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/01\/06\/o-cacau-a-ameaca-e-o-parentesco\/","title":{"rendered":"O Cacau, a amea\u00e7a e o parentesco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Paulo Peixinho, cacauicultor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>paulo@cacaupeixinho.com<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_13523\" aria-describedby=\"caption-attachment-13523\" style=\"width: 221px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13523\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43-221x300.jpg\" alt=\"\" width=\"221\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43.jpg 737w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13523\" class=\"wp-caption-text\">\u00b4Paulo Peixinho<\/figcaption><\/figure>\n<p>Rec\u00e9m-chegado de Salvador, voltei a morar em Itabuna. Aos vinte e cinco anos, j\u00e1 diretor de uma exportadora de cacau, o retorno n\u00e3o foi escolha \u2014 foi destino. Tudo era novo, embora cheirasse a velho conhecido.<\/p>\n<p>Certo dia, entrou na filial de compras um sujeito de rosto duro e presen\u00e7a pesada, desses que lembram seguran\u00e7a ou pistoleiro \u00e0 moda antiga. Falou alto, sem rodeios:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pago juros.<\/p>\n<p>O gerente, meu compadre, homem de bom trato, tentou contemporizar. Havia outros cacauicultores no escrit\u00f3rio \u2014 gente acostumada a negociar, n\u00e3o a ouvir bravatas.<\/p>\n<p>Aproximei-me e perguntei o ocorrido. A explica\u00e7\u00e3o veio direta: Bibi vendera cacau dez meses antes, assinara a nota promiss\u00f3ria, mas nunca o contrato. Nem entregara a mercadoria.<\/p>\n<p>Ele confirmou tudo. Apenas refor\u00e7ou a tese:<\/p>\n<p>\u2014 Juros, n\u00e3o pago. \u00c9 minha lei.<\/p>\n<p>Concordei com a cabe\u00e7a e o convidei para conversarmos em outro ambiente. Subimos a escada de vinh\u00e1tico, sem corrim\u00e3o, ladeada por esculturas de madeira representando a colheita do cacau \u2014 obra de um artista nativo.<\/p>\n<p>No andar de cima, Bibi pousou uma capanga sobre a mesa de granito. O som seco do couro na pedra sugeria a\u00e7o. Imaginei uma arma. Mantive a calma.<\/p>\n<p>Expliquei: n\u00e3o haveria juros. Consultei o pre\u00e7o do cacau \u00e0 \u00e9poca do adiantamento, refiz as contas. O valor correspondia a cerca de cem arrobas. Sem juros. Apenas mercadoria.<\/p>\n<p>Ele concordou. N\u00famero n\u00e3o admite amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Tentou ent\u00e3o outro caminho:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe de onde eu sou?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Santa Rosa.<\/p>\n<p>\u2014 Sou de Jussari.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-14961\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/PHOTO-2025-09-25-16-59-14-1.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/PHOTO-2025-09-25-16-59-14-1.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/PHOTO-2025-09-25-16-59-14-1-244x300.jpg 244w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/p>\n<p>Insistiu. Disse que Santa Rosa era terra de gente braba, que l\u00e1 se expulsavam \u00edndios e se resolviam pend\u00eancias \u00e0 bala. Citou nomes. Um deles, famoso por enriquecer com o sofrimento alheio.<\/p>\n<p>Quando terminou, perguntei com naturalidade:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor conheceu Pedro Santa Rosa?<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo. Meu protetor \u2014 respondeu, confiante. \u2014 Para uns, portas abertas. Para outros, valas.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que disse, baixo e tranquilo:<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio se imp\u00f4s. Ainda protegido pela mem\u00f3ria do pr\u00f3prio S\u00e3o Pedro, Bibi perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Como fa\u00e7o para te pagar?<\/p>\n<p>\u2014 Com dinheiro ou cacau.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nenhum dos dois.<\/p>\n<p>Notei o tal\u00e3o de cheques vermelhos no bolso do palet\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o metade em quinze dias, metade em trinta.<\/p>\n<p>Aceitou. Prometi devolver a nota promiss\u00f3ria ap\u00f3s o cumprimento do acordo. Descemos a escada como velhos conhecidos. No escrit\u00f3rio, ningu\u00e9m entendeu nada.<\/p>\n<p>Os cheques foram lan\u00e7ados. Pagos.<\/p>\n<p>O gerente quis explica\u00e7\u00f5es. Disse apenas que tinha um caboclo protetor, que me ajudava a enxergar a verdade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria correu. Virei esp\u00edrita. O caboclo me protegia dos trambiqueiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o protegeu de tudo. Anos depois, um empregado clonou cheques, sacava FGTS dos funcion\u00e1rios, valendo-se da permissividade do gerente do banco \u2014 que nutria desejos pelo empregado e pastor.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias do tempo em que cr\u00e9dito era farto e controle, raro.<\/p>\n<p>Hoje sei: Bibi cumpriu o contrato por causa da pr\u00f3pria l\u00edngua.<br \/>\nNaquele tempo, cham\u00e1vamos isso de hist\u00f3ria do cacau.<br \/>\nAgora entendo melhor: era s\u00f3 cr\u00e9dito demais.<\/p>\n<p>A vassoura-de-bruxa varreu muita coisa.<br \/>\nEntre elas, o cr\u00e9dito f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Hoje, cacau s\u00f3 se vende \u00e0 vista.<br \/>\nPelo menos, ainda h\u00e1 liquidez imediata.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Peixinho, cacauicultor paulo@cacaupeixinho.com &nbsp; Rec\u00e9m-chegado de Salvador, voltei a morar em Itabuna. 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