{"id":15837,"date":"2026-03-01T09:30:26","date_gmt":"2026-03-01T12:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=15837"},"modified":"2026-03-01T09:40:08","modified_gmt":"2026-03-01T12:40:08","slug":"o-procacau-e-o-bioterrorismo-licoes-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/03\/01\/o-procacau-e-o-bioterrorismo-licoes-da-historia\/","title":{"rendered":"O PR\u00d3CACAU e o Bioterrorismo: li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por Ant\u00f4nio Carlos Magnavita Maia, m\u00e9dico e cacauicultor<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-15791\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-25-09-24-00-1-279x300.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"259\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-25-09-24-00-1-279x300.jpg 279w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-25-09-24-00-1.jpg 352w\" sizes=\"(max-width: 241px) 100vw, 241px\" \/>N\u00e3o tenho qualquer hesita\u00e7\u00e3o em afirmar: o que ocorreu com a lavoura cacaueira do sul da Bahia foi um crime de bioterrorismo. Um crime cujas marcas permanecem abertas mesmo ap\u00f3s mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. Munic\u00edpios empobrecidos, propriedades arruinadas, fam\u00edlias desestruturadas \u2014 essa \u00e9 a heran\u00e7a concreta de uma trag\u00e9dia que jamais foi devidamente esclarecida.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso coragem para dizer algo ainda mais inc\u00f4modo: esse desastre n\u00e3o nasceu do nada. Ele foi precedido por um erro estrat\u00e9gico monumental \u2014 o PROCACAU.<\/p>\n<p>O programa foi concebido durante o regime militar, sob forte influ\u00eancia do General Golbery do Couto e Silva, formulador da geopol\u00edtica nacional. A ideia era ocupar a Amaz\u00f4nia, considerada ber\u00e7o natural do cacaueiro, dentro da l\u00f3gica de integra\u00e7\u00e3o territorial- terra sem homens, para homens sem terra.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, a Comiss\u00e3o Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) era respeitada internacionalmente e sustentada majoritariamente pelos produtores do sul da Bahia, que financiavam a institui\u00e7\u00e3o por meio da reten\u00e7\u00e3o cambial. Era o dinheiro do produtor que mantinha a pesquisa, a tecnologia e a estrutura t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>E o que foi feito com esse patrim\u00f4nio?<\/p>\n<p>Utilizou-se a for\u00e7a t\u00e9cnica e financeira constru\u00edda pelos produtores baianos para fomentar uma expans\u00e3o na Amaz\u00f4nia, ignorando riscos sanit\u00e1rios evidentes. Promoveu-se uma verdadeira migra\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos, trabalhadores e produtores, criando um fluxo cont\u00ednuo entre regi\u00f5es.<\/p>\n<p>O erro prim\u00e1rio<\/p>\n<p>Como m\u00e9dico, aprendi que diante de uma doen\u00e7a infecciosa o primeiro procedimento \u00e9 o isolamento. No entanto, no caso do cacau, fez-se exatamente o contr\u00e1rio. J\u00e1 se sabia que a vassoura-de-bruxa era altamente infecciosa e end\u00eamica na Amaz\u00f4nia, e que n\u00e3o existia tecnologia capaz de control\u00e1-la com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda assim, o \u00f3rg\u00e3o t\u00e9cnico anu\u00edu. N\u00e3o houve resist\u00eancia firme. N\u00e3o houve enfrentamento t\u00e9cnico \u00e0 decis\u00e3o pol\u00edtica. Houve submiss\u00e3o- \u201cmedalh\u00f5es da ci\u00eancia-lamberam botas dos generais\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 inadmiss\u00edvel que uma institui\u00e7\u00e3o que detinha o maior conhecimento mundial sobre cacau tenha silenciado diante de um risco dessa magnitude. \u00c9 imperdo\u00e1vel que dirigentes e t\u00e9cnicos n\u00e3o tenham imposto limites t\u00e9cnicos a decis\u00f5es essencialmente pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O segundo erro: mercado e poder<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco n\u00e3o foi apenas sanit\u00e1rio \u2014 foi tamb\u00e9m econ\u00f4mico e estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Expandiu-se a produ\u00e7\u00e3o sem estruturar um projeto nacional robusto de industrializa\u00e7\u00e3o cooperativa. Ignorou-se que o cacau \u00e9 uma commodity sujeita \u00e0 volatilidade das bolsas internacionais. Aumentou-se a oferta sem garantir autonomia na transforma\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>Enquanto isso, multinacionais como a Cargill avan\u00e7avam silenciosamente, consolidando posi\u00e7\u00f5es e ampliando influ\u00eancia.<\/p>\n<p>O resultado foi devastador: exportadores nacionais enfraquecidos, ind\u00fastrias absorvidas, produtores estrangulados entre o cartel internacional e pol\u00edticas p\u00fablicas inconsistentes. Perdemos a oportunidade hist\u00f3rica de construir independ\u00eancia econ\u00f4mica no setor.<\/p>\n<p>A responsabilidade hist\u00f3rica<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de apontar culpados, mas de reconhecer responsabilidades. Houve erro pol\u00edtico. Houve omiss\u00e3o t\u00e9cnica. Houve falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os de classe.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra que, quando o produtor n\u00e3o ocupa o espa\u00e7o pol\u00edtico que lhe cabe, outros ocupam \u2014 e decidem por ele.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o aprendermos com esse passado, continuaremos sendo espremidos por interesses maiores, ora travestidos de planejamento estrat\u00e9gico, ora de ideologia, enquanto o produtor paga a conta.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o escrevo movido por ressentimento. Escrevo movido pela convic\u00e7\u00e3o de que o setor cacaueiro precisa agir com unidade, pragmatismo e firmeza. Precisamos influenciar pol\u00edticas p\u00fablicas de estado, fortalecer nossa organiza\u00e7\u00e3o corporativa e defender nossos interesses com clareza e coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f4nio Carlos Magnavita Maia, m\u00e9dico e cacauicultor &nbsp; N\u00e3o tenho qualquer hesita\u00e7\u00e3o em afirmar: o que ocorreu com a lavoura cacaueira do sul da Bahia foi um crime de bioterrorismo. Um crime cujas marcas permanecem abertas mesmo ap\u00f3s mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. 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