{"id":16355,"date":"2026-03-24T08:41:57","date_gmt":"2026-03-24T11:41:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=16355"},"modified":"2026-03-24T08:41:57","modified_gmt":"2026-03-24T11:41:57","slug":"a-escrita-que-ainda-pinga-cacau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/03\/24\/a-escrita-que-ainda-pinga-cacau\/","title":{"rendered":"A escrita que ainda pinga cacau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Durval Lib\u00e2nio Netto Mello<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Produtor e pesquisador na \u00e1rea de cacau e chocolate<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-16356\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-09-35-1-290x300.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-09-35-1-290x300.jpg 290w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-09-35-1.jpg 472w\" sizes=\"(max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/>Em certas p\u00e1ginas de nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, o cacau n\u00e3o \u00e9 produto: \u00e9 pulso. O sul da Bahia surge como um corpo escuro, lento, atravessado de ra\u00edzes, rios fundos, troncos que respiram. A palavra anda devagar nesse barro: cada frase parece sujar o p\u00e9, cada imagem traz na borda o brilho da lama, do sangue seco e da autoridade \u00e1spera dos donos da terra, que mandam tanto quanto chove. \u00c9 um mundo em que a mata n\u00e3o decora a hist\u00f3ria: \u00e9 a pr\u00f3pria hist\u00f3ria tentando se dizer, densa demais para caber em mapa tur\u00edstico. O leitor sai dessas linhas com a sensa\u00e7\u00e3o de ter tocado um ch\u00e3o vivo, um ch\u00e3o de cacau que n\u00e3o cabe em fotografia a\u00e9rea nem em relat\u00f3rio bem diagramado de ESG, onde coron\u00e9is viram \u201cagentes econ\u00f4micos\u201d e a desigualdade se esconde atr\u00e1s de gr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Quando essa escrita se enfia na selva, o espa\u00e7o se fecha como um pensamento ruim. A floresta \u00e9 mais que sombra: \u00e9 um locus horribilis em que galhos, ra\u00edzes e rios participam do destino dos homens. Nada \u00e9 neutro. Um tronco ca\u00eddo pode ser amea\u00e7a, ref\u00fagio ou senten\u00e7a; um cacaual pesado de umidade pode ser abrigo e armadilha ao mesmo tempo. A viol\u00eancia n\u00e3o vem \u201cde fora\u201d; ela brota da pr\u00f3pria terra, misturada ao desejo, \u00e0 culpa, \u00e0 febre \u2014 e \u00e0 m\u00e3o pesada dos coron\u00e9is, para quem a pobreza \u00e9 apenas mais um instrumento de mando, hoje disputado, em outro idioma, por uma ind\u00fastria distante que tamb\u00e9m administra car\u00eancias e expropria\u00e7\u00e3o como parte do neg\u00f3cio. A prosa lateja, cheia de sil\u00eancios densos, como se a l\u00edngua tivesse de abrir caminho na mata a fac\u00e3o, rasgando ao mesmo tempo o velho mando do senhor de terra e a nova l\u00f3gica do senhor de marca, que domina n\u00e3o mais pelo barrac\u00e3o, mas por uma linguagem distante que vende ilus\u00e3o, disfar\u00e7ada de modernidade. As mesmas empresas que celebram metas ambientais e sociais l\u00e1 de cima s\u00e3o as que, c\u00e1 embaixo, sustentam um sistema em que a floresta precisa ser mais barata que o marketing. Ainda assim, por entre o horror, alguma coisa resiste: o corpo colado ao ch\u00e3o, a teimosia da raiz, a fidelidade da \u00e1rvore que n\u00e3o abandona a beira do rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-16361\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/choc-ado.jpg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/choc-ado.jpg 647w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/choc-ado-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><\/p>\n<p>Quando a narrativa desce para a linha do mar, essa mesma voz muda de luz, mas n\u00e3o de nervo. A ba\u00eda de Ilh\u00e9us aparece como um espelho quebrado entre Luanda, Beira e Bahia; o porto \u00e9 uma fronteira inquieta, onde navios rabiscam, com seus trajetos, um mapa de afetos e perdas que atravessa o Atl\u00e2ntico. \u00c0 sombra de uma gindiba \u00e0 beira\u2011mar, vidas inteiras se encostam: inf\u00e2ncia, conversa, fadiga, desejo de partir e medo de n\u00e3o voltar. A \u00e1rvore vira centro de gravidade de um pequeno mundo salgado. Quando, um dia, ela cai para ser madeira de caix\u00e3o \u2014 e, quem sabe, de canoa \u2014, \u00e9 como se o romance mostrasse, em um s\u00f3 gesto, a passagem da raiz ao fluxo: o que antes segurava o povoado no ch\u00e3o se oferece, agora, \u00e0 linguagem inquieta do mar, enquanto a pobreza, que antes se curvava aos coron\u00e9is, passa a negociar com um novo senhor distante, que chega na forma de carga e des\u00e1gio de pre\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a escrita de ontem toca o presente de forma mais aguda. O gesto que derruba a \u00e1rvore \u00e0 beira\u2011mar se espelha, hoje, no raleamento da cabruca para dar lugar a novos discursos malthusianos, nos navios que atravessam o Atl\u00e2ntico levando e trazendo cacau, nas f\u00f3rmulas que prometem \u201csabor chocolate\u201d com cada vez menos fruto e cada vez mais abstra\u00e7\u00e3o. A paisagem continua sendo o lugar onde a hist\u00f3ria se escreve: o cacau sombreado, a mata fragmentada, o porto iluminado, o mar indiferente. O estilo que um dia nomeou esse mundo como ch\u00e3o de cacau permanece atual n\u00e3o por nostalgia, mas porque ainda oferece a espessura necess\u00e1ria para ler um tempo em que a viol\u00eancia deixou de ter apenas o rosto do coronel e passou a falar a linguagem de \u00edndices, siglas e r\u00f3tulos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-16362\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-07-38-1.jpg\" alt=\"\" width=\"269\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-07-38-1.jpg 500w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-23-17-07-38-1-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<p>Nessa dobra entre mata e mar, entre gindiba e porto, a escrita de Adonias continua a pingar cacau sobre o nosso presente. Ela nos lembra que o espa\u00e7o nunca foi cen\u00e1rio: sempre foi personagem, ferida e testemunha. Ao reler hoje a lama espessa de um romance, o ensaio que nomeia o sul da Bahia como ch\u00e3o de cacau, o livro em que a cidade portu\u00e1ria espia um Atl\u00e2ntico dividido, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o reconhecer ali a anatomia do agora: a tens\u00e3o entre raiz e travessia, entre floresta e ind\u00fastria, entre sombra e vitrine; a pobreza de antes, dobrada entre jagun\u00e7os e coron\u00e9is, e a pobreza de hoje, comprimida entre planilhas e marcas globais. O mundo mudou de roupas, de siglas, de embalagens; a prosa, n\u00e3o. Ela segue insistindo em um gesto simples e radical: fincar a palavra na terra, at\u00e9 que dela volte a subir o cheiro forte de cacau, chocolate e mem\u00f3ria \u2014 lembrando que, por tr\u00e1s de cada do\u00e7ura, ainda h\u00e1 um ch\u00e3o e um povo que continua a esperar por justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Revis\u00e3o: Tha\u00eds Velloso Rudin &#8211; Mestre em Literatura ( ex-nora de Adonias Filho, que revisou a maioria\u00a0 das suas obras).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Durval Lib\u00e2nio Netto Mello Produtor e pesquisador na \u00e1rea de cacau e chocolate . Em certas p\u00e1ginas de nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, o cacau n\u00e3o \u00e9 produto: \u00e9 pulso. O sul da Bahia surge como um corpo escuro, lento, atravessado de ra\u00edzes, rios fundos, troncos que respiram. 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