{"id":16486,"date":"2026-03-31T14:30:30","date_gmt":"2026-03-31T17:30:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=16486"},"modified":"2026-03-31T10:42:32","modified_gmt":"2026-03-31T13:42:32","slug":"analise-critica-sobre-a-crise-do-cacau-na-bahia-atribuida-exclusivamente-a-vassoura-de-bruxa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/03\/31\/analise-critica-sobre-a-crise-do-cacau-na-bahia-atribuida-exclusivamente-a-vassoura-de-bruxa\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise cr\u00edtica sobre a crise do cacau na Bahia atribu\u00edda  exclusivamente \u00e0 vassoura-de-bruxa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Givaldo Ferreira Couto<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15969\" aria-describedby=\"caption-attachment-15969\" style=\"width: 268px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-15969\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-03-12-34-37-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"268\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-03-12-34-37-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-03-12-34-37-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-03-12-34-37.jpg 675w\" sizes=\"(max-width: 268px) 100vw, 268px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15969\" class=\"wp-caption-text\">Givaldo Ferreira Couto<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1986, a Bahia alcan\u00e7ou o maior volume de produ\u00e7\u00e3o de cacau de sua hist\u00f3ria, com 395.486 toneladas (IPEAData), mantendo o Brasil na segunda posi\u00e7\u00e3o entre os principais produtores mundiais. No entanto, j\u00e1 no ano seguinte, 1987, um per\u00edodo de estiagem registrado no litoral sul da Bahia coincidiu com uma queda acentuada da produ\u00e7\u00e3o, que recuou para 269.890 toneladas, correspondendo a uma redu\u00e7\u00e3o aproximada de 32%.<\/p>\n<p>Em 1989, a vassoura-de-bruxa foi identificada no Litoral Sul da Bahia em meio a um cen\u00e1rio econ\u00f4mico desolador e ca\u00f3tico, marcado pela hiperinfla\u00e7\u00e3o que culminaria na deflagra\u00e7\u00e3o do Plano Collor. Considerado um dos mais dr\u00e1sticos planos econ\u00f4micos da hist\u00f3ria do pa\u00eds, que estabeleceu o confisco das poupan\u00e7as e o congelamento de pre\u00e7os, entre outras medidas destinadas a conter a escalada inflacion\u00e1ria. Naquele contexto, a infla\u00e7\u00e3o medida pelo \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu <strong>82,39% no m\u00eas de mar\u00e7o de 1990<\/strong><strong>,<\/strong> com \u00edndice <strong>acumulado de 6.390,52% nos doze meses anteriores<\/strong> (IBGE).<\/p>\n<p>Quando a doen\u00e7a causada pelo fungo <em>Moniliophthora perniciosa<\/em> se instalou no territ\u00f3rio baiano, a produ\u00e7\u00e3o de am\u00eandoas de cacau alcan\u00e7ava cerca de 330.751 toneladas (Tabela 1), segundo dados do IPEAData. Ainda assim, durante os nove primeiros anos ap\u00f3s sua ocorr\u00eancia a cacauicultura manteve uma produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual pr\u00f3xima de 241.000 toneladas.<\/p>\n<p>Tabela 1: Produ\u00e7\u00e3o de cacau na Bahia ap\u00f3s a safra recorde de 1986<\/p>\n<table width=\"604\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"66\">Ano<\/td>\n<td width=\"331\">Evento<\/td>\n<td width=\"208\">Produ\u00e7\u00e3o (tonelada)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">1986<\/td>\n<td width=\"331\">Pico produtivo<\/td>\n<td width=\"208\">395.486<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">1987<\/td>\n<td width=\"331\">Per\u00edodo de estiagem<\/td>\n<td width=\"208\">269.890<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">1989<\/td>\n<td width=\"331\">Primeiros registros da vassoura-de-bruxa<\/td>\n<td width=\"208\">330.751<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">1994<\/td>\n<td width=\"331\">Implanta\u00e7\u00e3o do plano real<\/td>\n<td width=\"208\">271.889<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">2017<\/td>\n<td width=\"331\">Menor produ\u00e7\u00e3o registrada<\/td>\n<td width=\"208\">106.246<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"66\">2024<\/td>\n<td width=\"331\">Produ\u00e7\u00e3o recente<\/td>\n<td width=\"208\">137.028<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em dados do IPEAData<\/p>\n<p>Ao longo da d\u00e9cada de 1990, o Brasil conviveu com quatro diferentes moedas, culminando com a implanta\u00e7\u00e3o do real em 1994, ap\u00f3s um per\u00edodo em que a infla\u00e7\u00e3o anual ultrapassou 2.500%. Paralelamente, o cacau atingiu a mais baixa cota\u00e7\u00e3o internacional dos \u00faltimos cinquenta anos, chegando a US$ 1.339 por tonelada como valor m\u00e9dio na d\u00e9cada de 1990, segundo dados da International Cocoa Organization (apud FIESP, s.d.). A cota\u00e7\u00e3o internacional de cacau em d\u00f3lares por tonelada era equivalente a cerca de R$ 1.339,00 (mil trezentos e trinta e nove reais) conforme o c\u00e2mbio, ent\u00e3o, vigente naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Diante desse conjunto de fatores econ\u00f4micos produtivos e simult\u00e2neos, torna-se necess\u00e1rio reavaliar a interpreta\u00e7\u00e3o que atribui exclusivamente \u00e0 vassoura-de-bruxa a crise da cacauicultura baiana. M\u00faltiplos fatores favoreceram a dissemina\u00e7\u00e3o da vassoura-de-bruxa nos cacauais do sul da Bahia em um per\u00edodo no qual a arroba do cacau era comercializada em torno de R$ 20,00 (vinte reais), refletindo a baixa cota\u00e7\u00e3o internacional na Bolsa de Valores de Nova York e a paridade cambial observada nos anos 1990, quando o d\u00f3lar chegou a valer pouco menos que um real (IPEAData).<\/p>\n<p>A conjuga\u00e7\u00e3o de fatores negativos gerou desest\u00edmulo \u00e0 atividade produtiva e, possivelmente, desencadeou impactos psicossociais, como desesperan\u00e7a, depress\u00e3o e ansiedade, que podem ter influenciado o comportamento de parte dos produtores, levando-os ao abandono parcial das lavouras e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas necess\u00e1rias para o aumento ou a estabilidade da produ\u00e7\u00e3o. A hiperinfla\u00e7\u00e3o, por sua vez, n\u00e3o assegurava ao setor prim\u00e1rio a manuten\u00e7\u00e3o do poder de compra, pois os custos de produ\u00e7\u00e3o se alteravam diariamente, enquanto o pre\u00e7o do cacau era definido no mercado internacional, por meio das bolsas de mercadorias, sem acompanhar a din\u00e2mica inflacion\u00e1ria interna.<\/p>\n<p>M\u00faltiplos fatores impactaram a crise da cacauicultura, n\u00e3o apenas a vassoura-de-bruxa, detectada muitas vezes em est\u00e1gio avan\u00e7ado de esporula\u00e7\u00e3o, quando deviam ser removidas ainda verdes, na fase inicial, em algumas ro\u00e7as em processo de abandono. A crise do cacau na \u00a0Bahia n\u00e3o foi causada exclusivamente pela doen\u00e7a vassoura-de-bruxa; quando o pat\u00f3geno chegou, a atividade j\u00e1 apresentava sinais claros de colapso produtivo, econ\u00f4mico e estrutural.<\/p>\n<p>No entanto, consolidou-se ao longo do tempo uma narrativa recorrente que atribui \u00e0 vassoura-de-bruxa a condi\u00e7\u00e3o de causa \u00fanica da crise da cacauicultura baiana. Essa interpreta\u00e7\u00e3o tende a desconsiderar fatores clim\u00e1ticos e econ\u00f4micos que atuaram em fases distintas do processo produtivo: a estiagem, antecedendo a redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, e as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas adversas, prolongando e aprofundando a crise ao longo dos anos seguintes.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de cacau na Bahia, em 2017, foi a menor registrada nos \u00faltimos 75 anos. Essa frustra\u00e7\u00e3o de safra dificilmente pode ser atribu\u00edda exclusivamente a uma doen\u00e7a f\u00fangica ap\u00f3s 28 anos de sua ocorr\u00eancia, per\u00edodo no qual produtores e trabalhadores da cadeia produtiva do cacau j\u00e1 haviam incorporado conhecimentos relacionados ao manejo integrado da doen\u00e7a, incluindo medidas profil\u00e1ticas, culturais e qu\u00edmicas, al\u00e9m da ado\u00e7\u00e3o de clones de alta produtividade e maior resist\u00eancia ao pat\u00f3geno.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-16488\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/fotos-cacau-3.jpg\" alt=\"\" width=\"308\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/fotos-cacau-3.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/fotos-cacau-3-300x274.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 308px) 100vw, 308px\" \/><\/p>\n<p>Enquanto, na Bahia, produtores e autoridades lamentavam e apontavam, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, a vassoura-de-bruxa como a \u00fanica respons\u00e1vel pela decad\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o de cacau, o Estado do Par\u00e1 passou a liderar o ranking nacional como maior produtor de cacau, alcan\u00e7ando rendimento m\u00e9dio de 841 kg por hectare, resultado da implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e do planejamento de a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas com metas e objetivos bem definidos.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria recente da cacauicultura brasileira evidencia din\u00e2micas regionais contrastantes. O estado do Par\u00e1, atualmente com maior produ\u00e7\u00e3o brasileira \u00a0de cacau e produtividade m\u00e9dia de 841 kg\/ha, (IBGE, 2025) ampliou sua produ\u00e7\u00e3o em mais de 300% nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O volume produzido evoluiu de 28.669 toneladas em 1989 para 116.358 toneladas em 2017, segundo dados do IPEAData. Em sentido oposto, a Bahia registrou expressiva retra\u00e7\u00e3o no mesmo per\u00edodo: a produ\u00e7\u00e3o, que alcan\u00e7ava 330.751 toneladas em 1989, foi reduzida para 106.246 (IPEAData) toneladas em 2017, correspondendo a uma queda aproximada de 70%.<\/p>\n<p>A eficiente evolu\u00e7\u00e3o do volume de produ\u00e7\u00e3o de am\u00eandoas de cacau deve-se a um esfor\u00e7o conjunto de agentes pol\u00edticos e sociais que juntos \u00a0elaboraram o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau no Par\u00e1\u00a0 (PRODECACAU) publicado em 2011 pela Secretaria de Agricultura do Estado (SAGRI\/PA) \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturadas, desenvolvidas em parceria com institui\u00e7\u00f5es de ensino, pesquisa e desenvolvimento \u2014 CEPLAC, EMATER, SENAR, OCB, UFRA, UFPA, FAEPA, FETAGRI, FETRAF, TNC e SOLIDARIEDADE \u2014 contribuiu decisivamente para a consolida\u00e7\u00e3o da cacauicultura paraense. A articula\u00e7\u00e3o institucional promoveu assist\u00eancia t\u00e9cnica cont\u00ednua, difus\u00e3o de tecnologias produtivas e fortalecimento organizacional dos produtores, fatores que favoreceram a expans\u00e3o da atividade e elevaram o rendimento m\u00e9dio estadual para 841 kg\/ha, valor 163,6% superior \u00e0 produtividade m\u00e9dia de 319 kg\/ha registrada na Bahia (IBGE, 2025).<\/p>\n<p>Esse conjunto de a\u00e7\u00f5es evidencia o papel das pol\u00edticas p\u00fablicas e do suporte institucional na constru\u00e7\u00e3o da atual relev\u00e2ncia socioecon\u00f4mica da cacauicultura no Par\u00e1, indicando que o desempenho produtivo regional resulta n\u00e3o apenas de condi\u00e7\u00f5es naturais, mas tamb\u00e9m de estrat\u00e9gias coordenadas de desenvolvimento agr\u00edcola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>IPEA \u2013 Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada. <strong>IPEADATA: produ\u00e7\u00e3o de cacau \u2013 Brasil<\/strong>. Dados provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Bras\u00edlia, [base de dados online]. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ipeadata.gov.br\/Default.aspx\">https:\/\/www.ipeadata.gov.br\/Default.aspx<\/a>. Acesso em: 26 mar. 2026.<\/p>\n<p>IPEA \u2013 Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada. <strong>IPEADATA: taxa de c\u00e2mbio d\u00f3lar comercial para compra \u2013 m\u00e9dia (GM366_ERC366) \u2013 Brasil<\/strong>. Dados provenientes do Banco Central do Brasil (Bacen\/SGS). Bras\u00edlia, [base de dados online]. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ipeadata.gov.br\/ExibeSerie.aspx?serid=38590&amp;module=M\">https:\/\/www.ipeadata.gov.br\/ExibeSerie.aspx?serid=38590&amp;module=M<\/a>. Acesso em: 26 mar. 2026.<\/p>\n<p>IBGE \u2013 Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. <strong>Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola Municipal \u2013 PAM 2024<\/strong>. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/ba\/pesquisa\/15\/11863\">https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/ba\/pesquisa\/15\/11863<\/a>. Acesso em: 27 mar. 2026.<\/p>\n<p>IBGE<strong> \u2013 <\/strong>Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. <strong>\u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA): s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/strong> Rio de Janeiro: IBGE, [base de dados online]. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\">https:\/\/www.ibge.gov.br<\/a>. Acesso em: 28 mar. 2026.<\/p>\n<p><strong>FEDERA\u00c7\u00c3O DAS IND\u00daSTRIAS DO ESTADO DE S\u00c3O PAULO (FIESP).<\/strong><br \/>\n<em><strong>Agroneg\u00f3cio do cacau no Brasil: produ\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o, oportunidades.<\/strong><\/em> S\u00e3o Paulo: FIESP, [s.d.].<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Givaldo Ferreira Couto &nbsp; Em 1986, a Bahia alcan\u00e7ou o maior volume de produ\u00e7\u00e3o de cacau de sua hist\u00f3ria, com 395.486 toneladas (IPEAData), mantendo o Brasil na segunda posi\u00e7\u00e3o entre os principais produtores mundiais. 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