{"id":17132,"date":"2026-05-08T16:26:30","date_gmt":"2026-05-08T19:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=17132"},"modified":"2026-05-08T16:31:22","modified_gmt":"2026-05-08T19:31:22","slug":"kaa-oca-ou-cacau-cabruca-a-cadeia-cacau-chocolate-floresta-e-nossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/05\/08\/kaa-oca-ou-cacau-cabruca-a-cadeia-cacau-chocolate-floresta-e-nossa\/","title":{"rendered":"Ka\u00e1 oca ou Cacau Cabruca: a cadeia cacau, chocolate floresta \u00e9 nossa"},"content":{"rendered":"<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Durval Lib\u00e2nio Netto Mello, Produtor e estudioso da cadeia cacau-chocolate-floresta<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_15905\" aria-describedby=\"caption-attachment-15905\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-15905\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-02-10-04-24-300x198.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-02-10-04-24-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/PHOTO-2026-03-02-10-04-24.jpg 583w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15905\" class=\"wp-caption-text\">Durval Lab\u00e2nio<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ka\u00e1-oca: a casa na floresta que sustenta cacau, chocolate e turismo no Sul da Bahia<\/em><\/p>\n<p><em>Express\u00e3o ind\u00edgena inspira retomada da cabruca como s\u00edmbolo de produ\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica e experi\u00eancia tur\u00edstica no territ\u00f3rio do cacau.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Antes de ser \u201ccabruca\u201d para agr\u00f4nomos, ge\u00f3grafos e agricultores, o modo de produzir cacau sob a mata j\u00e1 tinha nome dado pelos povos origin\u00e1rios que habitavam a Mata Atl\u00e2ntica do Sul da Bahia. Em tupi, ka\u00e1 \u00e9 mata, floresta; oca \u00e9 casa, abrigo: ka\u00e1-oca, a casa na floresta, o jeito de viver e produzir sem destruir a mata. \u00c9 dessa raiz que nasce a l\u00f3gica da cabruca: cultivar com a floresta, e n\u00e3o contra ela (Setenta, s.d. informa\u00e7\u00e3o pessoal).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Sul da Bahia, existe uma paisagem onde o cacau parece brotar naturalmente entre as \u00e1rvores da Mata Atl\u00e2ntica. Sob a sombra de grandes troncos e em meio a uma umidade constante, os cacaueiros se integram ao ambiente de forma quase invis\u00edvel. Em 1945, o ge\u00f3grafo franc\u00eas Pierre Monbeig descreveu a lavoura cacaueira como for\u00e7a organizadora do territ\u00f3rio, das rela\u00e7\u00f5es sociais e da paisagem regional no artigo \u201cOs problemas geogr\u00e1ficos do cacau no sul do Estado da Bahia\u201d, publicado no Boletim Geogr\u00e1fico e a diferencia por isso da zona cafeeira em S\u00e3o Paulo e da Canavieira no Litoral do NE (Monbeig, 1945). Poucos anos depois, Milton Santos, em Zona do Cacau, refor\u00e7ou essa vis\u00e3o ao afirmar que as rela\u00e7\u00f5es do cacaueiro com a floresta s\u00e3o \u201c\u00edntimas\u201d e ao definir o \u201ccabrocar\u201d como plantar sem destruir o \u201cmanto verde\u201d (Santos, 1957).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-17134\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-07-04.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-07-04.jpg 640w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-07-04-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/p>\n<p>Ao longo de mais de um s\u00e9culo, esse arranjo garantiu o microclima ideal para o cacau, protegeu nascentes e encostas e projetou a regi\u00e3o no com\u00e9rcio internacional. Sob a sombra das \u00e1rvores, ergueram-se fazendas, vilas e cidades, acompanhadas de hist\u00f3rias de riqueza, conflitos, trabalho duro e um cen\u00e1rio recorrente: \u00e1rvores altas, cacau no sub-bosque e um tapete de folhas cobrindo o ch\u00e3o. A partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, a moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola come\u00e7ou a alterar esse equil\u00edbrio. Variedades \u201cmais produtivas\u201d, fertilizantes, agrot\u00f3xicos e cr\u00e9dito passaram a ser apresentados como caminho inevit\u00e1vel para aumentar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em muitas \u00e1reas, a cabruca foi simplificada: reduziram-se \u00e1rvores de sombra, aumentou-se a depend\u00eancia de insumos externos e estreitou-se a base ecol\u00f3gica dos sistemas produtivos. As fragilidades desse modelo ficaram mais evidentes com a chegada da vassoura-de-bruxa, no fim dos anos 1980, quando a doen\u00e7a derrubou a produ\u00e7\u00e3o, levou propriedades \u00e0 fal\u00eancia e provocou o esvaziamento de ro\u00e7as e cidades em toda a regi\u00e3o cacaueira. Onde o cacau parecia eterno, surgiram pastos abandonados, \u00e1reas degradadas e migra\u00e7\u00e3o em massa de fam\u00edlias rurais. Na busca por respostas, a cabruca voltou ao centro do debate, agora vista como aliada na reconstru\u00e7\u00e3o produtiva e ambiental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir dos anos 2000, pesquisadores, agricultores, organiza\u00e7\u00f5es e gestores p\u00fablicos passaram a revisitar a hist\u00f3ria do cacau no Sul da Bahia sob outra perspectiva. A cadeia do cacau deixou de ser compreendida apenas como sequ\u00eancia de etapas t\u00e9cnicas \u2014 plantio, colheita, fermenta\u00e7\u00e3o, secagem, beneficiamento, chocolate \u2014 e passou a ser reconhecida como trama de territ\u00f3rios, mem\u00f3rias, conhecimentos tradicionais e modos de vida que d\u00e3o sentido a cada am\u00eandoa. Nesse contexto, o turismo rural e de base comunit\u00e1ria ganhou for\u00e7a como nova frente de renda e valoriza\u00e7\u00e3o territorial.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-17135\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-15-56-46.jpg\" alt=\"\" width=\"367\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-15-56-46.jpg 640w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-15-56-46-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 367px) 100vw, 367px\" \/><\/p>\n<p>Cada vez mais, visitantes chegam ao Sul da Bahia em busca de experi\u00eancias que n\u00e3o cabem em prateleiras de supermercado: caminhar dentro de uma cabruca, ouvir hist\u00f3rias de trabalhadores e trabalhadoras do cacau, sentir o cheiro da terra \u00famida, abrir um fruto maduro, provar a polpa fresca e, depois, degustar chocolates de origem produzidos ali mesmo. Fazendas e comunidades v\u00eam criando roteiros de visita\u00e7\u00e3o, trilhas em fragmentos de Mata Atl\u00e2ntica, viv\u00eancias com agricultores, oficinas de colheita e beneficiamento artesanal e experi\u00eancias de educa\u00e7\u00e3o ambiental. A paisagem se transforma em sala de aula viva: o turista aprende a relacionar floresta, cacau, \u00e1gua, fauna, gente e chocolate na mesma hist\u00f3ria. Ao final do percurso, entende que manter a mata em p\u00e9 \u00e9 tamb\u00e9m garantir o futuro da produ\u00e7\u00e3o, da renda e da hospitalidade no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a cabruca se tornou s\u00edmbolo de uma disputa em curso. De um lado, avan\u00e7am monocultivos clonais a pleno sol, que prometem ganhos r\u00e1pidos e uniformidade produtiva, mas reduzem a biodiversidade e a multifuncionalidade da paisagem. De outro, se fortalecem experi\u00eancias que apostam na recupera\u00e7\u00e3o da cabruca, na diversifica\u00e7\u00e3o de culturas, em sistemas agroflorestais, no turismo rural e na educa\u00e7\u00e3o ambiental como estrat\u00e9gias integradas de desenvolvimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-17136\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-04-09.jpg\" alt=\"\" width=\"314\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-04-09.jpg 480w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PHOTO-2026-05-08-16-04-09-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 314px) 100vw, 314px\" \/><\/p>\n<p>Para quem vive e trabalha no cacau, uma formula\u00e7\u00e3o difundida na regi\u00e3o, resume esse sentimento: a cadeia cacau\u2013chocolate\u2013floresta \u00e9 \u201cnossa\u201d (Peixinho, 2026). \u201cNossa\u201d n\u00e3o no sentido de propriedade de um grupo espec\u00edfico, mas como bem comum de quem planta, colhe, pesquisa, transforma, visita, conta hist\u00f3rias e projeta futuros para o Sul da Bahia. Cada fruto que sai de uma cabruca carrega a mem\u00f3ria da ka\u00e1-oca dos povos origin\u00e1rios, as descri\u00e7\u00f5es de Pierre Monbeig sobre a expans\u00e3o da lavoura cacaueira no Sul da Bahia e a s\u00edntese geogr\u00e1fica elaborada por Milton Santos em Zona do Cacau. Carrega, tamb\u00e9m, as decis\u00f5es di\u00e1rias de agricultores que escolhem manter a floresta em p\u00e9 enquanto produzem alimento, renda e hospitalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio nacional marcado pela expans\u00e3o constante de fronteiras agr\u00edcolas sobre diferentes biomas, defender a cabruca \u00e9 mais do que preservar um sistema produtivo tradicional. \u00c9 afirmar que o futuro do cacau de qualidade, do chocolate de origem e do turismo rural no Sul da Bahia passa, necessariamente, pela floresta. E que, na casa na mata \u2014 a ka\u00e1-oca \u2014, ainda h\u00e1 espa\u00e7o para construir outros caminhos de desenvolvimento para a regi\u00e3o, unindo produ\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e acolhimento.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MONBEIG, Pierre. \u201cOs problemas geogr\u00e1ficos do cacau no sul do Estado da Bahia\u201d. Boletim Geogr\u00e1fico, v. 2, n. 24, 1945, p. 1878\u20131883.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SANTOS, Milton. Zona do Cacau: introdu\u00e7\u00e3o ao estudo geogr\u00e1fico. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SETENTA, Wallace. ka\u00e1-oca como origem do termo e do sistema cabruca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PEIXINHO, Paulo. \u201cNassim Taleb e o Sistema Agroalimentar do Cacau\u2013Chocolate\u2013Floresta\u201d. Portal Cacau &amp; Chocolate, 20 fev. 2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durval Lib\u00e2nio Netto Mello, Produtor e estudioso da cadeia cacau-chocolate-floresta \u00a0 Ka\u00e1-oca: a casa na floresta que sustenta cacau, chocolate e turismo no Sul da Bahia Express\u00e3o ind\u00edgena inspira retomada da cabruca como s\u00edmbolo de produ\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica e experi\u00eancia tur\u00edstica no territ\u00f3rio do cacau. \u00a0 Antes de ser \u201ccabruca\u201d para agr\u00f4nomos, ge\u00f3grafos &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17133,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3,1],"tags":[3962,605,3961,6],"class_list":["post-17132","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-geral","tag-chocolate-floresta-e-nossa","tag-durval-libanio","tag-kaa-oca-ou-cacau-cabruca-a-cadeia-cacau","tag-sul-da-bahia"],"views":154,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17132"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17132"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17132\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17138,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17132\/revisions\/17138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17132"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17132"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17132"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}