{"id":17839,"date":"2026-06-15T08:40:43","date_gmt":"2026-06-15T11:40:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=17839"},"modified":"2026-06-15T08:40:55","modified_gmt":"2026-06-15T11:40:55","slug":"os-olhos-azuis-de-curacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/06\/15\/os-olhos-azuis-de-curacao\/","title":{"rendered":"Os olhos azuis de  Cura\u00e7ao"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Cleber Isaac Filho<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-6731\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/cleber-300x266.jpg\" alt=\"\" width=\"232\" height=\"206\" \/>Aos 78 anos, ele j\u00e1 tinha visto quase tudo que o futebol poderia mostrar.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia comandado sele\u00e7\u00f5es gigantes. J\u00e1 havia enfrentado o Brasil em uma Copa do Mundo. J\u00e1 havia sentado nos bancos mais nobres do futebol europeu. J\u00e1 havia sido treinador da sele\u00e7\u00e3o holandesa e da sele\u00e7\u00e3o russa. Seu nome j\u00e1 estava escrito na hist\u00f3ria muito antes daquela noite.<\/p>\n<p>Mas nada daquilo o preparou para Cura\u00e7ao.<\/p>\n<p>A pequena ilha caribenha chegava \u00e0 sua primeira Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds de pouco mais de 150 mil habitantes.<\/p>\n<p>Praias de \u00e1gua azul-turquesa.<\/p>\n<p>Povo mesti\u00e7o.<\/p>\n<p>Ra\u00edzes africanas profundas.<\/p>\n<p>Religiosidade popular.<\/p>\n<p>M\u00fasica.<\/p>\n<p>Alegria.<\/p>\n<p>Um lugar que, em muitos aspectos, lembra a Bahia.<\/p>\n<p>Talvez por isso a identifica\u00e7\u00e3o seja t\u00e3o f\u00e1cil. Quem conhece Cura\u00e7ao reconhece algo familiar. O sorriso do povo. A for\u00e7a da ancestralidade africana. O mar que parece pintura. A capacidade de transformar dificuldades em celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o veio a estreia.<\/p>\n<p>Logo contra a Alemanha.<\/p>\n<p>Um gigante.<\/p>\n<p>Um tetracampe\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acreditava.<\/p>\n<p>Mas o futebol n\u00e3o pede licen\u00e7a para os roteiros dos poderosos.<\/p>\n<p>E, por alguns minutos eternos, o placar mostrou:<\/p>\n<p>Alemanha 1 x 1 Cura\u00e7ao.<\/p>\n<p>Naquele instante, o mundo parou.<\/p>\n<p>A torcida de Cura\u00e7ao explodiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um t\u00edtulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era apenas um empate.<\/p>\n<p>Mas para eles valia como uma Copa do Mundo inteira.<\/p>\n<p>E ali, sentado no banco, o velho treinador chorou.<\/p>\n<p>Chorou antes do jogo.<\/p>\n<p>Chorou durante o jogo.<\/p>\n<p>Chorou como uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez porque naquele momento n\u00e3o estivesse vendo apenas uma partida.<\/p>\n<p>Talvez estivesse vendo sua pr\u00f3pria vida passar diante dos olhos.<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>As derrotas.<\/p>\n<p>Os amigos que ficaram pelo caminho.<\/p>\n<p>Os jogadores que treinou.<\/p>\n<p>As Copas disputadas.<\/p>\n<p>A filha doente que quase o fez desistir da viagem.<\/p>\n<p>O peso dos anos.<\/p>\n<p>A fragilidade do tempo.<\/p>\n<p>E a certeza de que algumas emo\u00e7\u00f5es simplesmente n\u00e3o podem ser compradas.<\/p>\n<p>O que passava pela cabe\u00e7a dele?<\/p>\n<p>Talvez algo simples:<\/p>\n<p>&#8220;Valeu a pena.&#8221;<\/p>\n<p>Valeu cada treino.<\/p>\n<p>Cada cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Cada derrota.<\/p>\n<p>Cada noite sem dormir.<\/p>\n<p>Porque, naquele instante, um pequeno pa\u00eds sonhava diante do mundo.<\/p>\n<p>E ele era parte daquele sonho.<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas desciam pelo rosto.<\/p>\n<p>Os olhos azuis do velho treinador ficaram da mesma cor do mar de Cura\u00e7ao.<\/p>\n<p>Azuis como o Caribe.<\/p>\n<p>Azuis como a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Azuis como a inf\u00e2ncia que o futebol devolve por alguns segundos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o futebol continua sendo o maior espet\u00e1culo da Terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelos contratos bilion\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelas correntes de ouro.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelos patrocinadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelas redes sociais.<\/p>\n<p>Mas porque ainda consegue arrancar l\u00e1grimas verdadeiras de um homem de 78 anos.<\/p>\n<p>Enquanto alguns vestem a camisa amarela apenas como uniforme, aquele velho treinador mostrou ao mundo o que significa vestir uma camisa como quem carrega uma na\u00e7\u00e3o inteira no peito.<\/p>\n<p>Cura\u00e7ao talvez n\u00e3o ganhe a Copa.<\/p>\n<p>Talvez nem passe de fase.<\/p>\n<p>Mas naquela noite j\u00e1 conquistou algo muito maior:<\/p>\n<p>O respeito de quem ainda acredita que futebol \u00e9 emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Que essa cena sirva de lembran\u00e7a para todos os que transformaram a paix\u00e3o popular em mera mercadoria.<\/p>\n<p>Porque, no fim das contas, o futebol pertence aos que choram.<\/p>\n<p>N\u00e3o aos que faturam.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: Pe\u00e7o desculpas se fui emocional demais. Ao ver aquele treinador de 78 anos chorando, foi imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do meu pai, que tem idade parecida e ainda se emociona com a vida, e da minha m\u00e3e, que segue em recupera\u00e7\u00e3o. Talvez por isso essa hist\u00f3ria tenha me tocado tanto. \u00c0s vezes o futebol deixa de ser apenas um jogo e passa a falar de fam\u00edlia, amor e esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleber Isaac Filho &nbsp; Aos 78 anos, ele j\u00e1 tinha visto quase tudo que o futebol poderia mostrar. J\u00e1 havia comandado sele\u00e7\u00f5es gigantes. J\u00e1 havia enfrentado o Brasil em uma Copa do Mundo. J\u00e1 havia sentado nos bancos mais nobres do futebol europeu. J\u00e1 havia sido treinador da sele\u00e7\u00e3o holandesa e da sele\u00e7\u00e3o russa. 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