{"id":19230,"date":"2026-08-24T17:30:14","date_gmt":"2026-08-24T20:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19230"},"modified":"2026-08-24T15:03:28","modified_gmt":"2026-08-24T18:03:28","slug":"o-que-sera-de-portugal-sem-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/08\/24\/o-que-sera-de-portugal-sem-o-brasil\/","title":{"rendered":"O que ser\u00e1 de Portugal sem o Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Marco Lessa<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-15098\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Marco-Lessa-300x198.jpg\" alt=\"\" width=\"261\" height=\"172\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Marco-Lessa-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Marco-Lessa.jpg 765w\" sizes=\"(max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/>Moro h\u00e1 sete anos em Portugal. Hoje acordei para trabalhar e pedi um Uber. O motorista era brasileiro. Antes de chegar ao escrit\u00f3rio para encontrar os demais brasileiros da equipa, fui a um caf\u00e9: gar\u00e7om brasileiro, caixa brasileiro e a cozinha com pelo menos dois brasileiros.<\/p>\n<p>Durante a manh\u00e3 recebi um consolidado grupo de investidores brasileiros que est\u00e3o construindo aqui. Fui almo\u00e7ar numa t\u00edpica tasca portuguesa e fui atendido por um simp\u00e1tico brasileiro. Voltei ao trabalho ouvindo, numa r\u00e1dio portuguesa, um programa com um comentarista brasileiro. Sa\u00ed mais cedo para uma consulta m\u00e9dica e fui recebido por uma brasileira; o m\u00e9dico, de sotaque portugu\u00eas, nasceu no Brasil, veio com 4 anos de idade, hoje vive c\u00e1 e \u00e9 casado com uma cearense. Voltei para casa sentindo-me em casa: num Portugal inclusivo, diverso, constituindo-se como um pa\u00eds plural, que tem o seu futuro passando pelo Brasil sem precisar atravessar o Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 anedota. \u00c9 estat\u00edstica &#8211; e \u00e9 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Comecemos pelo come\u00e7o. Durante tr\u00eas s\u00e9culos, o Brasil foi o que sustentou financeiramente o reino. O pau-brasil, o a\u00e7\u00facar, o tabaco, o algod\u00e3o, os diamantes. E o ouro: as estimativas historiogr\u00e1ficas mais consistentes apontam entre 800 e 1.000 toneladas extra\u00eddas do solo brasileiro no s\u00e9culo XVIII, talvez um quinto de todo o ouro que entrou na Europa naquele per\u00edodo. Foi esse metal que ergueu o Convento de Mafra, que reconstruiu Lisboa depois do terramoto de 1755 e que, pelo Tratado de Methuen, escoou para Inglaterra e ajudou a financiar a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial de outra gente. Quando Napole\u00e3o avan\u00e7ou sobre a pen\u00ednsula, em 1807, foi para o Brasil que a Corte fugiu &#8211; e o Rio de Janeiro tornou-se, caso \u00fanico na hist\u00f3ria do colonialismo, a capital de um imp\u00e9rio europeu. Portugal n\u00e3o apenas explorou o Brasil: durante treze anos, Portugal foi governado a partir do Brasil.<\/p>\n<p>Duzentos anos depois, a rela\u00e7\u00e3o inverteu-se sem deixar de ser essencial. E os n\u00fameros s\u00e3o de fontes que ningu\u00e9m acusar\u00e1 de propaganda.<\/p>\n<p>Segundo o INE, Portugal fechou 2025 com 11,42 milh\u00f5es de residentes, dos quais 1,6 milh\u00e3o de nacionalidade estrangeira &#8211; 14% da popula\u00e7\u00e3o. A comunidade brasileira \u00e9, de longe, a maior: 574.195 pessoas, 35,9% de todos os estrangeiros, n\u00famero que mais do que duplicou desde 2021. A estes h\u00e1 que somar as dezenas de milhares que j\u00e1 adquiriram nacionalidade portuguesa &#8211; cerca de um quarto de todas as aquisi\u00e7\u00f5es de cidadania &#8211; e os filhos nascidos c\u00e1, que as estat\u00edsticas de estrangeiros deixaram de contar. Dados do Minist\u00e9rio do Trabalho apontam que os brasileiros representam j\u00e1 perto de 10% dos trabalhadores formais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>E onde est\u00e3o? Em toda a parte. Na agricultura, onde os estrangeiros j\u00e1 passam de metade da m\u00e3o de obra &#8211; 53,3% em 2025, segundo os dados mais recentes da Seguran\u00e7a Social, um peso que quadruplicou numa d\u00e9cada. No alojamento e restaura\u00e7\u00e3o, o setor que mais emprega imigrantes &#8211; a Associa\u00e7\u00e3o da Hotelaria de Portugal estima 50 mil brasileiros num universo de 500 mil trabalhadores do turismo. Na constru\u00e7\u00e3o civil, nos cuidados a idosos, nos hospitais, nas universidades, nas reda\u00e7\u00f5es, nos palcos, nos escrit\u00f3rios de advocacia e de arquitetura.<br \/>\nAgora, o que interessa a quem faz contas.<\/p>\n<p>Em 2025, os trabalhadores estrangeiros descontaram 4.149 milh\u00f5es de euros para a Seguran\u00e7a Social &#8211; 14% de tudo o que o sistema arrecadou, contra 3,4% h\u00e1 dez anos. Receberam em presta\u00e7\u00f5es 822 milh\u00f5es. O saldo l\u00edquido positivo foi de 3.327 milh\u00f5es de euros num \u00fanico ano, segundo o Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Conselho de Finan\u00e7as P\u00fablicas foi mais longe: os estrangeiros s\u00e3o hoje 19,7% dos contribuintes do sistema, contra 5,1% em 2015, e o saldo acumulado entre 2015 e 2025 chega a 16,3 mil milh\u00f5es de euros. No ano passado, a Seguran\u00e7a Social portuguesa fechou com o maior excedente da sua hist\u00f3ria \u2014 6.657 milh\u00f5es de euros &#8211; e o CFP \u00e9 expl\u00edcito ao dizer que mais de metade do crescimento de contribuintes se deve a popula\u00e7\u00e3o estrangeira. Um estudo acad\u00e9mico calculou o cen\u00e1rio contr\u00e1rio: sem os imigrantes, a receita da Seguran\u00e7a Social cairia 12,4%.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o dado demogr\u00e1fico, que \u00e9 o mais silencioso e o mais decisivo. Segundo o retrato mais recente do Banco de Portugal, a idade mediana do trabalhador imigrante no pa\u00eds \u00e9 de 33 anos; a do trabalhador portugu\u00eas, 42. Portugal registou em 2025 um saldo natural de menos 34 mil pessoas &#8211; morre-se muito mais do que se nasce. E, no entanto, os nascimentos subiram 3,7%, para perto de 88 mil, o melhor n\u00famero da d\u00e9cada: 28,8% dos partos foram de m\u00e3es estrangeiras, com o Brasil no topo da lista. Traduzindo: as creches, as escolas e a folha de descontos de 2045 est\u00e3o a ser preenchidas, agora, por gente que chegou de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem tudo \u00e9 trabalho por conta de outrem. Em 2025, os brasileiros lideraram as compras de casa por estrangeiros, com 9.808 aquisi\u00e7\u00f5es &#8211; mais 27,5% do que no ano anterior &#8211; e j\u00e1 representam quase metade dos cr\u00e9ditos \u00e0 habita\u00e7\u00e3o concedidos a estrangeiros: 44%, segundo o Banco de Portugal, contra 35% em 2021. Segundo o Banco Central do Brasil, o patrim\u00f3nio imobili\u00e1rio brasileiro em Portugal j\u00e1 vale 18,7% de tudo o que os brasileiros det\u00eam em im\u00f3veis no exterior, \u00e0 frente dos 15,7% aplicados nos Estados Unidos, onde a comunidade brasileira \u00e9 v\u00e1rias vezes maior. Somam-se a isso as empresas, as ind\u00fastrias, os restaurantes, as marcas e os eventos que aqui se criaram e que d\u00e3o emprego a portugueses.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o respondo \u00e0 pergunta do t\u00edtulo. Sem o Brasil, Portugal teria menos 4 mil milh\u00f5es de euros por ano na Seguran\u00e7a Social, menos um quinto dos seus contribuintes, menos um ter\u00e7o dos seus beb\u00e9s, campos por colher, hot\u00e9is por abrir, hospitais com menos m\u00e3os e uma pir\u00e2mide et\u00e1ria ainda mais invertida. Teria, sobretudo, menos futuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevo isto em tom de cobran\u00e7a. Escrevo em tom de perten\u00e7a. O que a minha rotina de uma ter\u00e7a-feira comum mostra \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 duas hist\u00f3rias &#8211; h\u00e1 uma s\u00f3, contada em dois sotaques. Portugal deu ao Brasil a l\u00edngua; o Brasil devolveu-lhe o mundo. E devolve-lhe, agora, aquilo de que um pa\u00eds envelhecido mais precisa: gente jovem, que trabalha, desconta, consome, investe, tem filhos e fica.<\/p>\n<p>O futuro de Portugal passa pelo Brasil. E, felizmente, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 preciso atravessar o Atl\u00e2ntico para constru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><em>Marco Lessa \u00e9 empres\u00e1rio brasileiro, CEO do Grupo M21, criador do Chocolat Festival e do Brasil Origem Week, e vive em Portugal.<\/em><\/p>\n<p>Texto publicado em <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\">www.publico.pt\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Marco Lessa &nbsp; Moro h\u00e1 sete anos em Portugal. Hoje acordei para trabalhar e pedi um Uber. O motorista era brasileiro. Antes de chegar ao escrit\u00f3rio para encontrar os demais brasileiros da equipa, fui a um caf\u00e9: gar\u00e7om brasileiro, caixa brasileiro e a cozinha com pelo menos dois brasileiros. 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