{"id":19522,"date":"2026-09-06T08:30:40","date_gmt":"2026-09-06T11:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19522"},"modified":"2026-09-05T19:02:26","modified_gmt":"2026-09-05T22:02:26","slug":"a-nova-lei-do-chocolate-e-a-falta-de-visao-estrategica-da-cadeia-de-cacau-e-chocolate-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/09\/06\/a-nova-lei-do-chocolate-e-a-falta-de-visao-estrategica-da-cadeia-de-cacau-e-chocolate-no-brasil\/","title":{"rendered":"A nova lei do chocolate e a falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica da cadeia de cacau e chocolate no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Durval Lib\u00e2nio Netto Mello, produtor, professor e<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong> pesquisador da cadeia cacau\u2013chocolate\u2013floresta<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-19523\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/durval-l-300x253.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/durval-l-300x253.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/durval-l.jpg 508w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Durante anos, bastava colocar 25% de cacau numa barra \u2014 sem qualquer exig\u00eancia de percentual m\u00ednimo de manteiga de cacau \u2014 para que o produto pudesse ser chamado de \u201cchocolate\u201d no Brasil. Era um piso abaixo do padr\u00e3o j\u00e1 praticado pela Europa e pelo Codex Alimentarius desde o in\u00edcio dos anos 2000. Na pr\u00e1tica, muita coisa vendida como chocolate trazia gorduras vegetais baratas no lugar da manteiga de cacau genu\u00edna, \u00e0s vezes sem nenhum tra\u00e7o dela, e a grande maioria dos consumidores n\u00e3o tinha como perceber isso olhando o r\u00f3tulo.<\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 15.404, sancionada em maio de 2026, mudou esse jogo. Ela eleva o piso de s\u00f3lidos totais de cacau no chocolate comum de 25% para 35%, dos quais pelo menos 18 pontos percentuais devem ser manteiga de cacau e 14 pontos percentuais cacau isento de gordura (o famoso \u201cp\u00f3 de cacau\u201d), al\u00e9m de limitar a 5% o total de outras gorduras vegetais autorizadas. Chocolate em p\u00f3, achocolatados e coberturas \u2014 que viviam no limbo regulat\u00f3rio \u2014 passam a ter pisos espec\u00edficos, entre 15% e 32%. N\u00e3o \u00e9 detalhe burocr\u00e1tico. \u00c9 o fechamento de uma brecha que, por duas d\u00e9cadas, manteve o mercado interno brasileiro acomodado em padr\u00f5es de qualidade mais baixos do que aqueles exigidos internacionalmente, o que permitiu a grande ind\u00fastria operar fora da autorregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado, defendida pela pr\u00f3pria economia liberal, consolidando-se como a cadeia reconhecida como um oligops\u00f4nio por v\u00e1rios economistas.<\/p>\n<p><strong>Quando \u201cflexibilidade\u201d vira miopia estrat\u00e9gica<\/strong><\/p>\n<p>O argumento mais repetido contra a nova lei \u00e9 simples: mais cacau encarece o produto, encarece o pre\u00e7o e, no fim, reduz vendas. Se levado ao p\u00e9 da letra, qualquer pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do cacau acabaria voltando-se contra o pr\u00f3prio produtor.<\/p>\n<p>Esse racioc\u00ednio, por\u00e9m, diz menos sobre o cacau e mais sobre a falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica da ind\u00fastria, de alguns produtores e \u201cpasmem\u201d de parte do segmento Bean to Bar no Brasil. Manter uma legisla\u00e7\u00e3o frouxa no mercado interno \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, limitar o Brasil ao papel de fornecedor de chocolate e derivados de baixa qualidade, em vez de explorar o que nenhum outro pa\u00eds combina t\u00e3o bem: ser grande produtor e grande consumidor, com a maior diversidade gen\u00e9tica de cacau do mundo e um mercado dom\u00e9stico que consome cerca de 750 mil toneladas de chocolate ao ano, ao meu ver \u00e9 miopia estrat\u00e9gica de quem enxerga a cadeia da forma como est\u00e1 posta.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente essa combina\u00e7\u00e3o \u2014 diversidade gen\u00e9tica, produ\u00e7\u00e3o em sistemas agroflorestais e consumo interno robusto \u2014 que d\u00e1 ao Brasil uma vantagem estrutural para disputar nichos de alto valor agregado: chocolates de origem, IGs, selos de sustentabilidade, narrativas de bioeconomia e at\u00e9 o mercado de chocolate ao leite em termos internos e mundiais, o maior segmento de consumo. Ao preferir regras \u201cflex\u00edveis\u201d para baratear a f\u00f3rmula, parte da cadeia escolheu competir pelo pre\u00e7o mais baixo, n\u00e3o pela diferencia\u00e7\u00e3o, ou pior escolheu o ganho imediato no mercado interno pela continuidade da desinforma\u00e7\u00e3o e da baixa qualidade sem uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica de futuro em um mercado cada vez mais globalizado.<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o versus desinforma\u00e7\u00e3o: o cacau j\u00e1 tinha discurso de venda. Agora tem n\u00famero para provar<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-19525\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-53.jpg\" alt=\"\" width=\"329\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-53.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-53-293x300.jpg 293w\" sizes=\"(max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>Como dito anteriormente, h\u00e1 quem diga que exigir mais cacau encarece o produto e mata a venda. O que esse discurso esquece \u00e9 a arma que a lei acaba de colocar nas m\u00e3os do setor: agora \u00e9 obrigat\u00f3rio estampar o percentual de cacau, de forma clara, na frente da embalagem, em \u00e1rea n\u00e3o inferior a 15% da face frontal.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 qualquer n\u00famero. Antes, o percentual podia ser calculado s\u00f3 sobre a fra\u00e7\u00e3o \u201cchocolate\u201d do produto, em mat\u00e9ria seca, descontando inclus\u00f5es como castanhas, frutas desidratadas, recheios e cereais \u2014 o que permite anunciar um teor de cacau que n\u00e3o correspondia ao que havia, de fato, na barra inteira. Agora, a base de c\u00e1lculo passa a considerar o produto acabado como um todo, o que torna a informa\u00e7\u00e3o muito mais fiel ao que o consumidor realmente leva para casa.<\/p>\n<p>Esse ajuste vem na hora certa, e \u00e9 extremamente educativo, porque o discurso dos benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade associados ao consumo de cacau j\u00e1 est\u00e3o bem estabelecidos: flavonoides como epicatequina e procianidinas t\u00eam efeito ben\u00e9fico comprovado sobre press\u00e3o arterial, inflama\u00e7\u00e3o e sa\u00fade cardiovascular. No estudo COSMOS, conduzido pela Universidade de Harvard com mais de 21 mil idosos, o uso regular de flavonoides de cacau esteve associado a uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de 27% nas mortes por doen\u00e7a cardiovascular, isso \u00e9 real e tem um poder enorme para o marketing associado ao consumo de cacau.<\/p>\n<p>O que faltava era um n\u00famero confi\u00e1vel na embalagem para dar sustenta\u00e7\u00e3o a esse discurso. Agora existe. Uma barra com \u201c70% cacau\u201d estampado no r\u00f3tulo, calculado sobre o produto inteiro, diz ao consumidor, de forma direta, que ele est\u00e1 levando exatamente, a propor\u00e7\u00e3o do ingrediente ao qual a ci\u00eancia atribui esses efeitos ben\u00e9ficos. E \u00e9 justamente esse tipo de apelo que vem impulsionando a migra\u00e7\u00e3o para chocolates premium em mercados como o dos Estados Unidos, onde consumidores de medicamentos GLP\u20111 \u2014 que passaram a comer menos em volume \u2014 aumentaram suas compras de chocolate premium em 16,6%, mais que o dobro do crescimento entre quem n\u00e3o usa esses rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Quanto mais confi\u00e1vel for essa informa\u00e7\u00e3o de teor, mais forte se torna o argumento de venda. A nova lei, ao padronizar a forma de declarar o percentual de cacau, coloca o Brasil na mesma p\u00e1gina dos principais mercados regulados e ajuda a separar informa\u00e7\u00e3o de marketing de desinforma\u00e7\u00e3o de r\u00f3tulo.<\/p>\n<p><strong>Manteiga de cacau: o que o \u201cchocolate fake\u201d n\u00e3o consegue imitar<\/strong><\/p>\n<p>Outro ponto ignorado por quem reclama do \u201cencarecimento\u201d \u00e9 o papel da manteiga de cacau. \u00c9 ela, e n\u00e3o o a\u00e7\u00facar ou o p\u00f3, que d\u00e1 ao chocolate brilho, \u201csnap\u201d na quebra e o derretimento suave na boca, na faixa de 34\u00b0C a 37\u00b0C \u2014 um comportamento f\u00edsico que nenhum substituto vegetal reproduz com a mesma precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da sa\u00fade, a manteiga de cacau tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a vil\u00e3 que muitos imaginam. Cerca de 63% dos seus \u00e1cidos graxos s\u00e3o saturados, mas o principal deles \u00e9 o \u00e1cido este\u00e1rico, que \u00e9 convertido pelo f\u00edgado em \u00e1cido oleico \u2014 a mesma gordura monoinsaturada ben\u00e9fica que encontramos no azeite \u2014, com efeito neutro sobre o colesterol. Isso contrasta com gorduras equivalentes (CBS\/CBE) ricas em \u00e1cido l\u00e1urico e mir\u00edstico, mais associadas ao aumento de colesterol LDL.<\/p>\n<p>Em chocolates ao leite, essa gordura \u00e9 insumo nobre e caro, o que explica por que sua substitui\u00e7\u00e3o por gorduras mais baratas compromete tanto a textura quanto o discurso de benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade associados ao cacau como ingrediente premium. \u00c9 aqui que a lei acerta em cheio: a antiga RDC n\u00ba 723\/2022 exigia apenas 25% de s\u00f3lidos totais de cacau para o chocolate comum, sem piso espec\u00edfico de manteiga de cacau \u2014 reservando a exig\u00eancia de 20% de manteiga apenas para o chocolate branco. A nova lei corrige essa omiss\u00e3o ao fixar 18% de manteiga de cacau e limitar a 5% as demais gorduras, alinhando o Brasil aos padr\u00f5es internacionais e protegendo o que torna o chocolate de cacau genu\u00edno t\u00e3o distinto dos \u201csabores chocolate\u201d.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-19526\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-52.jpg\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"248\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-52.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-05-12-21-52-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/p>\n<p><strong>O problema n\u00e3o \u00e9 ter mais cacau na f\u00f3rmula \u2014 \u00e9 n\u00e3o ter: perde consumidor e produtor, perde a auto-regula\u00e7\u00e3o do mercado<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto isso, o pa\u00eds vive uma epidemia de excesso de a\u00e7\u00facar: a obesidade em adultos passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, um aumento de 118% em 18 anos, e mais de 62% da popula\u00e7\u00e3o das capitais est\u00e1 hoje acima do peso. O consumo m\u00e9dio de a\u00e7\u00facar no Brasil supera em cerca de 50% o limite recomendado pela OMS, e alimentos e bebidas a\u00e7ucaradas respondem por milh\u00f5es de casos de obesidade e diabetes tipo 2.<\/p>\n<p>Discutir a composi\u00e7\u00e3o do chocolate, portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 defender uma cadeia agr\u00edcola. \u00c9 falar de sa\u00fade p\u00fablica. Produtos com maior teor de cacau e proporcionalmente menos a\u00e7\u00facar e gorduras de baixa qualidade podem e devem disputar espa\u00e7o com formula\u00e7\u00f5es que, at\u00e9 aqui, eram desenhadas para maximizar a palatabilidade ao menor custo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma segunda dimens\u00e3o: a renda de quem planta. Estudos internacionais mostram que, ao longo da cadeia, 70% do valor e cerca de 90% das margens do chocolate ficam nas m\u00e3os de marcas e varejo, enquanto pa\u00edses produtores ret\u00eam menos de 18,6% do valor at\u00e9 a exporta\u00e7\u00e3o das am\u00eandoas. No Brasil, o produtor chega a capturar 10% a 14% do valor final em cen\u00e1rios favor\u00e1veis; em condi\u00e7\u00f5es normais, essa fatia cai para a faixa de 5% a 7%. Nos mercados globais, a participa\u00e7\u00e3o do cacauicultor gira entre 3% e 6,6% do pre\u00e7o da barra, contra cerca de 23% nas d\u00e9cadas de 1960\u201370, num contexto em que poucas empresas concentram a moagem e o processamento.<\/p>\n<p>Exigir mais cacau genu\u00edno na f\u00f3rmula n\u00e3o resolve essa desigualdade sozinho, mas \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o sem a qual ela nem come\u00e7a a ser enfrentada. Sem piso claro, a ind\u00fastria pode substituir a am\u00eandoa por gordura alternativa mais barata quando quiser, ou praticando inclus\u00f5es de outros ingredientes n\u00e3o computados na f\u00f3rmula, distorcendo as leis de oferta e demanda ao seu \u201cbel\u2011prazer\u201d e diluindo a press\u00e3o por pre\u00e7o m\u00ednimo, cooperativismo ou indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Ao fechar essa brecha, a lei devolve \u00e0 cadeia um piso t\u00e9cnico que faltava \u2014 n\u00e3o como ponto final da desigualdade, mas como o degrau necess\u00e1rio para sentar \u00e0 mesa e negociar regras mais justas e uma estrat\u00e9gia compartilhada entre os segmentos, sem isso permanece a ditadura da ind\u00fastria e o oligops\u00f4nio.<\/p>\n<p><strong>Da cabruca para o mundo: a vantagem competitiva que o Brasil insiste em subestimar<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 produtor de cacau; \u00e9 produtor de cacau em sistemas agroflorestais que mant\u00eam \u00e1rvores de sombra, biodiversidade e estoques de carbono, como as cabrucas da Mata Atl\u00e2ntica e os SAFs amaz\u00f4nicos. Essa forma de produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 rendeu indica\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas (IG\u00b4s) para am\u00eandoas de cacau em regi\u00f5es como Linhares (ES), Sul da Bahia (BA) , Rond\u00f4nia e Tom\u00e9-A\u00e7u (PA), associadas a atributos sensoriais e ambientais reconhecidos.<\/p>\n<p>No campo industrial, o avan\u00e7o dos modelos tree to bar e bean to bar \u2014 chocolate feito diretamente da am\u00eandoa e\/ou na fazenda, com controle do processo do fruto \u00e0 barra \u2014 criou um tecido de pequenas e m\u00e9dias marcas que carregam, na pr\u00f3pria embalagem, territ\u00f3rio, hist\u00f3ria e sistema produtivo. Ainda representam fra\u00e7\u00e3o pequena do mercado, mas crescem a 20% ao ano, quase o dobro dos 11,6% dos chocolates tradicionais medidos em estudo do Sebrae. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia: esses produtos t\u00eam alto teor de cacau, s\u00e3o associados a benef\u00edcios de sa\u00fade e se posicionam em nichos como fair trade, origem \u00fanica, IG\u00b4s e cacau fino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o mercado externo, isso significa uma oportunidade concreta de disputar consumidores que j\u00e1 buscam chocolates com hist\u00f3ria, rastreabilidade e atributos ambientais \u2014 algo que pa\u00edses que apenas importam am\u00eandoas e processam chocolate n\u00e3o conseguem replicar com a mesma autenticidade. A nova lei, ao elevar o padr\u00e3o m\u00ednimo de cacau e tornar transparente sua declara\u00e7\u00e3o, ajuda a alinhar o chocolate brasileiro \u00e0s expectativas desses mercados, em vez de mant\u00ea\u2011lo preso \u00e0 l\u00f3gica do \u201cmais barato poss\u00edvel\u201d em um mercado interno onde o marketing das grandes chocolateiras se d\u00e1 em torno do famigerado \u201cchocolate belga\u201d. E a estrat\u00e9gia est\u00e1 em competir cada vez mais, com produtos \u201cbarateados\u201d pela substitui\u00e7\u00e3o do cacau como mat\u00e9ria prima, e n\u00e3o no investimento na imagem e no marketing de um \u201cChocolate Brasil\u201d, evidenciado pelo nosso diferencial competitivo em uma cadeia global.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-19051\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fotos-ChocoSol-12-1.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fotos-ChocoSol-12-1.jpg 713w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fotos-ChocoSol-12-1-243x300.jpg 243w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/p>\n<p><strong>A nova lei como teste de vis\u00e3o estrat\u00e9gica da cadeia<\/strong><\/p>\n<p>No fim, a Lei n\u00ba 15.404 funciona como um teste de vis\u00e3o estrat\u00e9gica para a cadeia de cacau e chocolate no Brasil.<\/p>\n<p>Quem continua vendo o pa\u00eds apenas como fornecedor de insumo barato tende a enxergar a lei como amea\u00e7a: mais custo, mais dificuldade. Quem enxerga o potencial brasileiro de inova\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica e tecnol\u00f3gica \u2014 pela combina\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, consumo interno, diversidade gen\u00e9tica e sistemas agroflorestais \u2014 v\u00ea na lei uma base regulat\u00f3ria para disputar, com chocolate genu\u00edno e informa\u00e7\u00e3o correta no r\u00f3tulo, mercados que pagam mais por origem, qualidade e sa\u00fade, al\u00e9m do que uma maior qualidade do nosso chocolate ao leite, pode representar na maior fatia do mercado internacional de chocolates.<\/p>\n<p>A escolha, agora, n\u00e3o \u00e9 mais entre \u201cmais cacau\u201d ou \u201cmenos cacau\u201d. \u00c9 entre continuar desvalorizando o que o Brasil tem de \u00fanico ou usar a nova lei como ponto de partida para reposicionar o pa\u00eds na cadeia global de chocolate \u2014 n\u00e3o s\u00f3 como quem planta, mas como quem pensa, processa e vende um cacau e um chocolate \u00e0 altura do nosso potencial, do nosso povo, das nossas florestas e dos nossos biomas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durval Lib\u00e2nio Netto Mello, produtor, professor e pesquisador da cadeia cacau\u2013chocolate\u2013floresta &nbsp; Durante anos, bastava colocar 25% de cacau numa barra \u2014 sem qualquer exig\u00eancia de percentual m\u00ednimo de manteiga de cacau \u2014 para que o produto pudesse ser chamado de \u201cchocolate\u201d no Brasil. 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