{"id":19634,"date":"2026-09-12T15:00:35","date_gmt":"2026-09-12T18:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19634"},"modified":"2026-09-12T10:50:31","modified_gmt":"2026-09-12T13:50:31","slug":"alvinho-e-a-moeda-de-jussari","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/09\/12\/alvinho-e-a-moeda-de-jussari\/","title":{"rendered":"Alvinho e a moeda de Jussari"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Por Paulo Peixinho<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-19540\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01-294x300.jpg\" alt=\"\" width=\"229\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01-294x300.jpg 294w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01.jpg 601w\" sizes=\"(max-width: 229px) 100vw, 229px\" \/>Alvinho era um menino sergipano que veio para o Sul da Bahia. Com o tempo, tornou-se comerciante, cacauicultor e comprador de cacau em Jussari.<\/p>\n<p>Muito antes de as grandes corpora\u00e7\u00f5es chamarem certas opera\u00e7\u00f5es de barter, Alvinho j\u00e1 fazia algo semelhante. Antecipava produtos e insumos agr\u00edcolas aos produtores, que depois lhe pagavam em cacau.<\/p>\n<p>Seu neg\u00f3cio era movimento. Inquieto, j\u00e1 casado, deixava Morena, sua mulher, no caixa e na ger\u00eancia da loja e partia para o campo. Ia a Itabuna e, uma vez por m\u00eas, a Salvador. J\u00e1 comprava diretamente dos distribuidores e possu\u00eda seu pr\u00f3prio meio de transporte: o Avante, um caminh\u00e3o Ford.<\/p>\n<p><strong>Era 24 de agosto de 1954.<\/strong><\/p>\n<p>Alvinho talvez n\u00e3o soubesse o que era hedge, mas, na pr\u00e1tica, j\u00e1 fazia.<\/p>\n<p>Surgiu uma oportunidade e ele comprou, a prazo, uma grande fazenda pelas bandas de Camacan. Casado, pai de fam\u00edlia e agora mais prudente, decidiu fixar o pre\u00e7o de parte de sua produ\u00e7\u00e3o com o Instituto de Cacau da Bahia \u2014 ICB.<\/p>\n<p>Fixou 20.000 arrobas, ao equivalente a aproximadamente US$ 1.500 por tonelada. Recebeu antecipadamente o valor correspondente a 4.000 arrobas, ficando o restante para pagamento contra as entregas, que se estenderiam at\u00e9 1956.<\/p>\n<p>Alvinho andava feliz com o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 nova propriedade, ainda precisava ir de burro, atravessando a Serra da Alian\u00e7a. Seu irm\u00e3o empreendia em Gravat\u00e1 \u2014 hoje Palmira \u2014 e o convidou a participar da abertura da rodagem Palmira\u2013Jacareci. Era um sonho que s\u00f3 seria realizado cerca de tr\u00eas anos depois.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Jussari prosperava.<\/p>\n<p>Havia ali uma esta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura dedicada ao desenvolvimento de novos tipos de cacau, dirigida pelo Dr. Walter Magalh\u00e3es. A CEPLAC ainda n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Mas, como tantas vezes aconteceu na hist\u00f3ria da cacauicultura, decis\u00f5es e crises pol\u00edticas vindas da capital federal, ent\u00e3o no Rio de Janeiro, atingiram a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O contrato de Alvinho havia sido fechado justamente no dia da morte de Get\u00falio Vargas. Entre aquele 24 de agosto de 1954 e a posse de Juscelino Kubitschek, o Brasil atravessaria uma sucess\u00e3o turbulenta de governos.<\/p>\n<p><strong>E o dinheiro deixou de chegar.<\/strong><\/p>\n<p>A esta\u00e7\u00e3o de Jussari ficou sem recursos para pagar cerca de 300 funcion\u00e1rios, entre trabalhadores de campo e pessoal da administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dr. Walter, amigo de Alvinho, procurou-o:<\/p>\n<p><em>\u2014 Meu amigo, voc\u00ea poderia me ajudar? N\u00e3o tenho verba para pagar o povo. Talvez possa fornecer mantimentos e algum dinheiro vivo.<\/em><\/p>\n<p>Alvinho pensou. Pensou mais um pouco. E respondeu:<\/p>\n<p><em>\u2014 Meu doutor, tenho uma ideia. O senhor emite uma nota promiss\u00f3ria para cada funcion\u00e1rio. Eles v\u00eam aqui, compram o que precisarem, entregam a nota e eu devolvo o saldo por meio de outro documento. Quem quiser dinheiro, pode vir aqui que eu pago. Assim eu n\u00e3o me descapitalizo de uma vez, o povo compra na minha loja e o senhor me paga quando as verbas chegarem. Mas uma vez por m\u00eas o senhor vem conferir o balan\u00e7o com Morena.<\/em><\/p>\n<p>Tudo acertado.<\/p>\n<p><strong>Naquele tempo, palavra dada valia contrato.<\/strong><\/p>\n<p>No primeiro dia de feira ap\u00f3s o pagamento, formou-se uma fila.<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios faziam suas compras, entregavam as promiss\u00f3rias e recebiam a diferen\u00e7a. Morena, mulher de Alvinho, emitia ent\u00e3o uma nota de cr\u00e9dito correspondente ao saldo.<\/p>\n<p>O sistema funcionou.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio voltou a se movimentar.<\/p>\n<p>E, por algum tempo, a verdadeira moeda corrente de Jussari passou a ser as notas de cr\u00e9dito de Alvinho.<\/p>\n<p>Tempos depois, Dr. Walter contava a hist\u00f3ria sorrindo. Dizia que os pap\u00e9is de Alvinho circulavam por toda a cidade \u2014 e que at\u00e9 no prost\u00edbulo se pagava com eles.<\/p>\n<p><strong>Veio 1956.<\/strong><\/p>\n<p>Juscelino Kubitschek tomou posse. Um representante do Minist\u00e9rio da Agricultura chegou \u00e0 regi\u00e3o, e Dr. Walter contou-lhe toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como reconhecimento pelo cr\u00e9dito que havia sustentado a esta\u00e7\u00e3o e seus trabalhadores nos meses dif\u00edceis, Alvinho passou a ser fornecedor oficial do governo para a Esta\u00e7\u00e3o de Jussari.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o mercado internacional de cacau ca\u00eda. A leitura do gr\u00e1fico hist\u00f3rico abaixo ajuda a entender a dimens\u00e3o do acerto de Alvinho: o ponto 2 marca a regi\u00e3o do pico de pre\u00e7os em 1954, em torno de US$ 1.500 por tonelada, enquanto o ponto 3 mostra a forte queda em 1956, quando o mercado recuou para perto de US$ 440 por tonelada.<\/p>\n<p>A cada m\u00eas, quando Alvinho entregava mais uma parcela daquele contrato de pre\u00e7o fixado, ficava ainda mais satisfeito com a decis\u00e3o que tomara.<\/p>\n<p>Na \u00faltima entrega contratada ao equivalente a US$ 1.500 por tonelada, o pre\u00e7o do cacau na Bolsa de Nova York estava pr\u00f3ximo de US$ 440 por tonelada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_19635\" aria-describedby=\"caption-attachment-19635\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19635\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-12-09-23-19.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-12-09-23-19.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-09-12-09-23-19-300x226.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-19635\" class=\"wp-caption-text\">Evolu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do cacau na Bolsa de Nova York entre 1948 e 1959. O ponto 2 destaca o patamar aproximado de US$ 1.500\/t em 1954, refer\u00eancia do contrato fixado por Alvinho. O ponto 3 assinala a queda para a faixa de US$ 440\/t em 1956, evidenciando o acerto da opera\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>A diferen\u00e7a era enorme.<\/strong><\/p>\n<p>Mas havia algo talvez ainda mais importante do que o ganho financeiro.<\/p>\n<p>A fama de Alvinho como homem que cumpria seus contratos correu pela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O gerente do Instituto de Cacau da Bahia, satisfeito com sua atua\u00e7\u00e3o, fez-lhe ent\u00e3o uma nova proposta:<\/p>\n<p>Alvinho passaria a representar o Instituto como agente em Jussari.<\/p>\n<p>Assim, entre cacau, cr\u00e9dito, confian\u00e7a e palavra empenhada, um comerciante do interior criou, sem banco central, sem decreto e sem economistas, uma pequena moeda local.<\/p>\n<p><strong>A moeda de Jussari.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Peixinho &nbsp; Alvinho era um menino sergipano que veio para o Sul da Bahia. 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