{"id":19638,"date":"2026-09-15T08:51:43","date_gmt":"2026-09-15T11:51:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19638"},"modified":"2026-09-14T09:01:23","modified_gmt":"2026-09-14T12:01:23","slug":"alvinho-e-o-menino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/09\/15\/alvinho-e-o-menino\/","title":{"rendered":"Alvinho e o Menino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Paulo Peixinho, produtor de cacau<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-19540\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01-294x300.jpg\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01-294x300.jpg 294w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/PHOTO-2026-08-19-22-54-01.jpg 601w\" sizes=\"(max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/>Menino era como Alvinho chamava o irm\u00e3o mais novo.<\/p>\n<p>Com a experi\u00eancia que a vida lhe dera, enxergou naquele garoto um futuro promissor.<\/p>\n<p>Os pais j\u00e1 moravam em Jussari, mas o ca\u00e7ula passava a maior parte do tempo na loja, envolvido com o com\u00e9rcio de cacau, exceto quando estava estudando, pois o irm\u00e3o mais velho, como n\u00e3o havia estudado, exigia que ele estudasse. Da vida rural, interessava-se apenas pela cria\u00e7\u00e3o de gado.<\/p>\n<p>Observava atentamente o fechamento do caixa que a cunhada fazia no fim de cada dia. Assim, aprendeu tudo. Chegou at\u00e9 a inventar c\u00f3digos para substituir os n\u00fameros, evitando que os curiosos descobrissem quanto dinheiro havia entrado.<\/p>\n<p>Aos 14 anos, j\u00e1 se considerava um homem feito. Copiou at\u00e9 a maneira de vestir do irm\u00e3o: roupa de linho branco, como mandava o padr\u00e3o da \u00e9poca. Mais tarde, nunca mais usaria outras cores, para n\u00e3o perder tempo escolhendo o que vestir.<\/p>\n<p>Muito branco e de olhos cinzentos, aparentava ser mais velho. Namorador, sentia-se especialmente atra\u00eddo por mulheres mais maduras e de pele morena.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a trabalhar um turno na loja e aprendeu de tudo: medir tecidos, organizar caixas de pregos, comprar e vender cacau. Era esperto como poucos.<\/p>\n<p>Certo dia, observando as caixas de querosene, fez as contas e percebeu que cada uma comportava aproximadamente duas arrobas de cacau mole. O irm\u00e3o costumava doar aquelas caixas de madeira aos cacauicultores de menor condi\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o negociou para receber parte de seu pagamento em caixas. O mais velho n\u00e3o compreendeu exatamente o motivo, mas aceitou. O rapaz as guardava para revend\u00ea-las durante a safra, quando alcan\u00e7avam pre\u00e7os melhores.<\/p>\n<p>Parecia predestinado a se tornar um grande empreendedor.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, enquanto os outros sa\u00edam para beber e conversar, ia \u00e0 casa do irm\u00e3o ouvir jazz, salsa e m\u00fasicas rom\u00e2nticas caribenhas.<\/p>\n<p>Naquele tempo, Alvinho j\u00e1 desfrutava de uma situa\u00e7\u00e3o financeira melhor. Era propriet\u00e1rio do maior estabelecimento comercial de Jussari, que o coronel Amado lhe havia passado para substituir o barrac\u00e3o das duas fazendas. Como era advogado, o coronel n\u00e3o queria levar a fama de que se aproveitava dos empregados.<\/p>\n<p>Dizem que havia prometido o estabelecimento a outra pessoa, mas sua mulher, empoderada, exigiu que fosse entregue a ele, por sua fama de n\u00e3o cobrar juros dos empregados. Dizia que aquele a quem o coronel havia feito a promessa era pregui\u00e7oso e mandado pela mulher, uma r\u00edgida professora.<\/p>\n<p>Assim, observando o comportamento do ca\u00e7ula, fez-lhe uma proposta: ele ficaria com o armaz\u00e9m e o pagaria em cinco anos.<\/p>\n<p>Nos primeiros tr\u00eas meses, o rapaz comprou uma pequena fazenda de cacau. Muitos diziam que sempre havia sido atencioso com a propriet\u00e1ria idosa. Logo, antecipou as parcelas.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho ficou feliz e viu no ca\u00e7ula um poss\u00edvel sucessor. Mas, como um era controlador e o outro, livre, nunca daria certo.<\/p>\n<p>Passados uns dois anos, com o neg\u00f3cio de cacau indo bem, estava feliz com sua filha \u00fanica e com o irm\u00e3o, a quem considerava um filho. Ent\u00e3o teve sua primeira decep\u00e7\u00e3o. Aos 17 anos, o rapaz avisou que se casaria com uma mulher mais velha.<\/p>\n<p>O mais velho n\u00e3o concordava, talvez por n\u00e3o saber que a esposa que tanto amava tinha dez anos a mais do que ele e havia trocado os documentos l\u00e1 no sert\u00e3o. Afinal, d\u00e9cadas atr\u00e1s, era complicado para mulheres mais velhas se casarem com homens mais novos.<\/p>\n<p>O casamento aconteceu. Acabou aceitando \u2014 e n\u00e3o tinha como n\u00e3o aceitar. O ca\u00e7ula j\u00e1 fazia carreira solo e estava enriquecendo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o aprovou quando o irm\u00e3o tomou emprestado um dinheir\u00e3o para plantar seringueiras. Dizia:<\/p>\n<p><em>\u2014 Cacau e gado s\u00e3o bons. Seringa n\u00e3o presta. J\u00e1 se viu tirar leite de pau e isso ser bom?<\/em><\/p>\n<p>Com a fazenda de seringueiras toda plantada e o leite correndo, eis que o governo anunciou um pacote para a borracha.<\/p>\n<p>Ao se lembrar do conselho, pensou:<\/p>\n<p><em>\u2014 \u00c9 hora de cair fora.<\/em><\/p>\n<p>Foi o seu maior golpe de sorte. L\u00e1 pelas bandas de Coquinhos, depois de Palestina, hoje Ibicara\u00ed, uma dupla de herdeiros \u2014 um intelectual e o outro ex-vendedor de rem\u00e9dios, cujo sogro havia rifado a nota promiss\u00f3ria da filha, que dava a todo mundo \u2014 interessou-se pelo seringal.<\/p>\n<p>Em troca, daria uma fazenda de gado, com porteira fechada e luz pr\u00f3pria, algo raro na d\u00e9cada de 1950. O neg\u00f3cio foi fechado, tudo foi acertado e os documentos, passados.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho pulou de alegria: o ca\u00e7ula estava seguindo o caminho que ele imaginara. Por\u00e9m, os dois estavam brigados.<\/p>\n<p>O rapaz havia comprado um Jeep novo. Quando o vendedor perguntou quem seria o avalista, respondeu prontamente:<\/p>\n<p><em>\u2014 Alvinho.<\/em><\/p>\n<p>Ao falar com ele, ouviu, em tom de brincadeira:<\/p>\n<p><em>\u2014 E voc\u00ea j\u00e1 pode comprar carro?<\/em><\/p>\n<p>Saiu chateado e n\u00e3o falou mais com o irm\u00e3o, a quem admirava. Para ele, deixar de cumprir um pagamento era uma ofensa pessoal \u2014 princ\u00edpio que levou para a vida. Decidiu, ent\u00e3o, afastar-se e dizia:<\/p>\n<p><em>\u2014 Vou ser mais pr\u00f3spero do que ele.<\/em><\/p>\n<p>E foi.<\/p>\n<p>Quando os herdeiros perceberam a dist\u00e2ncia entre o an\u00fancio do governo e a realidade, viram o mau neg\u00f3cio que haviam feito. Amea\u00e7aram desfaz\u00ea-lo, alegando que a vacada de leite n\u00e3o constava na escritura.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho e os demais irm\u00e3os intervieram. Foram at\u00e9 a dupla e comunicaram com frieza:<\/p>\n<p><em>\u2014 N\u00e3o ameacem nem mexam com ele. Voc\u00eas o procuraram, fizeram o neg\u00f3cio em cart\u00f3rio e agora querem desistir. Isso n\u00e3o \u00e9 coisa de homem de bem.<\/em><\/p>\n<p>Um dos herdeiros era seu vizinho. Continuou falando com ele por medo, mas nunca esqueceu o preju\u00edzo. Chegou at\u00e9 a oferecer emprego ao Pintado, homem de sua confian\u00e7a, durante um per\u00edodo de baixa do cacau, quando se apertou financeiramente ap\u00f3s comprar a fazenda mais produtiva da regi\u00e3o, depois das Terras de Maria, do doutor Amado, l\u00e1 na Serra do Teimoso.<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os se afastaram, mas o cora\u00e7\u00e3o do ca\u00e7ula esteve sempre com o mais velho.<\/p>\n<p>Como este costumava dizer, ele tinha estrela.<\/p>\n<p>Quando as terras nada valiam l\u00e1 pelas bandas de Itapebi, comprou uma sesmaria.<\/p>\n<p>Suas terras eram a perfei\u00e7\u00e3o, e seu gado tamb\u00e9m. Foi homenageado muitas vezes pelos laborat\u00f3rios veterin\u00e1rios. Seu exagero aprendera com o irm\u00e3o: rem\u00e9dios e adubos, s\u00f3 comprava em grandes quantidades.<\/p>\n<p>Muito sagaz, s\u00f3 tomou dinheiro emprestado at\u00e9 os 42 anos. A partir da\u00ed, abriu seu banco particular: tornou-se emprestador de dinheiro. Antigamente, chamavam-no de \u201cagiota\u201d, mas, diante das altas taxas de juros dos bancos, emprestava a juros mais baixos, dependendo de quem fosse o interessado.<\/p>\n<p>Lia a alma do sujeito. Se n\u00e3o gostasse, dizia que o dinheiro estava aplicado. Se gostasse, o amigo-cliente teria aquilo de que necessitasse. Mas, a cada vencimento, tinha que pagar, ainda que, no dia seguinte, tomasse o dinheiro novamente.<\/p>\n<p>Para ele, dever n\u00e3o era pecado; n\u00e3o pagar era uma ofensa pessoal. Tomava at\u00e9 as cal\u00e7as do sujeito.<\/p>\n<p>Era mal falado pelos maus pagadores e homenageado pelos bons.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o gostava de emprestar dinheiro a cacauicultores.<\/p>\n<p>Se o sujeito fosse \u201cdevagar\u201d \u2014 express\u00e3o de seu vocabul\u00e1rio pessoal para definir um pregui\u00e7oso \u2014, comprava o gado e o entregava em sociedade. Depois, ia pessoalmente verificar o rebanho. Com o tempo, muitos acabavam vendendo-lhe as fazendas. Outros ganharam muito dinheiro, especialmente durante a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim cresceu sua sesmaria no extremo sul.<\/p>\n<p><em>\u2014 Menino tem estrela \u2014 dizia Alvinho.<\/em><\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho faleceu, mas, enquanto viveu, vibrava a cada sucesso do ca\u00e7ula.<\/p>\n<p>E o vatic\u00ednio se materializou. O eucalipto deu certo no sul da Bahia, e ofereceram uma f\u00e1bula de dinheiro pelas terras. Ele recusou.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, certo dia, recebeu uma oferta sem precedentes. J\u00e1 decidido, ainda assim chamou Beto, filho de Alvinho, a quem havia conhecido somente depois do falecimento do pai, e perguntou:<\/p>\n<p><em>\u2014 Est\u00e3o querendo me pagar em d\u00f3lares e em a\u00e7\u00f5es. N\u00e3o gosto de d\u00f3lares. Tenho alguns aqui no cofre, que a gerente do banco me vendeu. E n\u00e3o entendo de a\u00e7\u00f5es. O que voc\u00ea acha?<\/em><\/p>\n<p>Beto pediu alguns dias para estudar.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o tio partiu para as fazendas do sul a fim de procurar compradores para seu gado. Decidiu que venderia a fazenda, mas permaneceria em sua posse durante cinco anos, pois n\u00e3o encontrara quem comprasse o rebanho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m receberia, durante dez anos, o aluguel das torres das quatro operadoras de telefonia instaladas na propriedade.<\/p>\n<p>Quanto ao pagamento, exigiria que 70% fossem pagos \u00e0 vista, em reais, e aceitaria os outros 30% em a\u00e7\u00f5es, com o aval do presidente da WOOD EMO, na Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o ouviu a proposta e ficou de estud\u00e1-la.<\/p>\n<p>De volta a Itabuna, comunicou a proposta ao sobrinho. Beto lhe disse que, ap\u00f3s seus estudos, conclu\u00edra que as a\u00e7\u00f5es eram boas, mas que os resultados poderiam melhorar em sete anos, quando as primeiras \u00e1rvores seriam colhidas.<\/p>\n<p>Ouviu atentamente e fez apenas um pedido: que Beto fosse tomar caf\u00e9 com leite com ele uma vez por m\u00eas, \u00e0s 17 horas, para inform\u00e1-lo sobre os balan\u00e7os. Pediu tamb\u00e9m que investigasse se a empresa brasileira pertencia ao mesmo dono da empresa finlandesa.<\/p>\n<p>Passados alguns dias, durante um caf\u00e9 \u00e0s 17 horas, Beto confirmou que a empresa de eucalipto era mesmo finlandesa.<\/p>\n<p>O tio disse:<\/p>\n<p><em>\u2014 Fechei o neg\u00f3cio. Eles aceitaram, mas terei que ficar com as a\u00e7\u00f5es. Fa\u00e7a-me um favor: todo m\u00eas, informe-me sobre elas.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Combinado \u2014 respondeu Beto.<\/em><\/p>\n<p>E, durante tr\u00eas anos, na primeira segunda-feira de cada m\u00eas, Beto o atualizava. Pegava um caderno e, usando os c\u00f3digos criados pelo tio muitos anos antes, atualizava o valor de seus ativos.<\/p>\n<p>Certo dia, ligou para Beto de seu celular secreto, cujo n\u00famero era reservado apenas aos VIPs, e pediu sua presen\u00e7a, se poss\u00edvel, \u00e0s 17 horas. Um caf\u00e9 com leite e um creme de requeij\u00e3o o esperavam.<\/p>\n<p>\u00c0s 17h10, Beto chegou. Discretamente, o tio olhou para o rel\u00f3gio, calculando o tempo, pois todos os dias, \u00e0s 17h30, falava com todas as fazendas. Ent\u00e3o, disse:<\/p>\n<p><em>\u2014 Beto, essas a\u00e7\u00f5es j\u00e1 me deram um resultado melhor do que o gado e os meus empr\u00e9stimos.<\/em><\/p>\n<p>Beto respondeu:<\/p>\n<p><em>\u2014 Meu tio, a tend\u00eancia \u00e9 que subam ainda mais.<\/em><\/p>\n<p>Ele ponderou:<\/p>\n<p><em>\u2014 H\u00e1 algo que me diz que j\u00e1 est\u00e1 bom. Al\u00e9m disso, fiz uma oferta por uma fazenda l\u00e1 para as bandas de Itarantim, pertencente a um pessoal de Salvador. Se eles aceitarem, n\u00e3o quero retirar o dinheiro que tenho aplicado, e os juros est\u00e3o caindo. Como fa\u00e7o para vender as a\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Expliquei.<\/p>\n<p>O homem tinha estrela mesmo.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio de 2007. Vendeu tudo. Logo depois, veio a crise. Al\u00e9m de ganhar, o homem n\u00e3o perdia<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-19639\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papap.jpg\" alt=\"\" width=\"394\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papap.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papap-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/><\/p>\n<p>Um credor contou que tinha um encontro marcado com ele e estava tenso quando recebeu a not\u00edcia de que sua irm\u00e3 havia falecido. Ficou tranquilo, pois imaginou que o encontro seria remarcado. Para agrad\u00e1-lo, foi ao vel\u00f3rio e ao enterro.<\/p>\n<p>Terminado o enterro, dirigiu-se ao credor e, elegantemente, disse:<\/p>\n<p><em>\u2014 Estou esperando voc\u00ea no escrit\u00f3rio em 30 minutos.<\/em><\/p>\n<p>O homem n\u00e3o acreditou que algu\u00e9m que acabara de enterrar a querida irm\u00e3 trataria de neg\u00f3cios naquele mesmo dia. Mas teve que ir.<\/p>\n<p>Durante a conversa, depois de renovar o cheque, ouviu:<\/p>\n<p><em>\u2014 Minha querida irm\u00e3 descansou. Estava sofrendo muito.<\/em><\/p>\n<p>Em seguida, colocou uma m\u00fasica cl\u00e1ssica: a \u201cAve Maria\u201d, de Gounod.<\/p>\n<p>O ex-magn\u00edfico, semicomunista, ficou chocado ao ver como um tabar\u00e9u apreciava m\u00fasica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantas as hist\u00f3rias daquele homem que n\u00e3o caberiam em um \u00fanico livro.<\/p>\n<p>Com muito dinheiro na conta, agora restava esperar o resultado da proposta feita \u00e0 fam\u00edlia tradicional da capital baiana. Infelizmente, para sua moment\u00e2nea tristeza, a matriarca chegou a fechar o neg\u00f3cio, mas desistiu.<\/p>\n<p>Passado um ano, ele me ligou e disse:<\/p>\n<p><em>\u2014 O pessoal esnobe da capital me procurou novamente. Agora irei sem expectativa. S\u00f3 com o dinheiro.<\/em><\/p>\n<p>Quando chegou l\u00e1, a velha e os filhos herdeiros estavam esperando por ele.<\/p>\n<p>Como havia passado um ano, sua nova proposta era 30% menor e inclu\u00eda a propriedade de porteira fechada. A casa-sede tinha obras de arte, m\u00f3veis antigos e muita hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fechou a compra dos 140 alqueires por um pre\u00e7o melhor do que o anterior.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 apenas uma das hist\u00f3rias daquele irm\u00e3o mais novo que Alvinho chamava de Menino.<\/p>\n<p>Na verdade, seu nome significa \u201cpr\u00f3spero\u201d, \u201caquele que floresce\u201d, \u201cflorido\u201d.<\/p>\n<p>O garoto que aprendeu e aperfei\u00e7oou tantas coisas com o irm\u00e3o tamb\u00e9m deixou seus pr\u00f3prios ensinamentos:<\/p>\n<p><em>\u2014 O acertado n\u00e3o \u00e9 caro. Quem deve tem que pagar. E ser correto \u00e9 um dever.<\/em><\/p>\n<p>Acreditava que, agindo assim, o fluxo do universo devolveria tudo o que lhe haviam tirado.<\/p>\n<p>Alvinho n\u00e3o viveu o bastante para acompanhar toda a trajet\u00f3ria do irm\u00e3o ca\u00e7ula. Mas seu vatic\u00ednio se cumpriu:<\/p>\n<p><em>\u2014 Menino tem estrela.<\/em><\/p>\n<p>Aquele garoto de olhos cinzentos, que observava o caixa da loja, negociava caixas de querosene e sonhava ser mais pr\u00f3spero do que o irm\u00e3o, floresceu.<\/p>\n<p>E, mesmo seguindo caminhos diferentes, o irm\u00e3o mais velho esteve sempre presente em cada conquista, em cada princ\u00edpio e em cada decis\u00e3o do ca\u00e7ula.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 irm\u00e3os que se afastam na vida, mas nunca deixam de caminhar juntos dentro do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Peixinho, produtor de cacau &nbsp; Menino era como Alvinho chamava o irm\u00e3o mais novo. Com a experi\u00eancia que a vida lhe dera, enxergou naquele garoto um futuro promissor. 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