{"id":19738,"date":"2026-09-20T15:15:05","date_gmt":"2026-09-20T18:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19738"},"modified":"2026-09-20T15:17:27","modified_gmt":"2026-09-20T18:17:27","slug":"o-chao-do-cacau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/09\/20\/o-chao-do-cacau\/","title":{"rendered":"O ch\u00e3o do cacau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cTodo propriet\u00e1rio, possuidor ou parceiro de um p\u00e9 de cacau \u00e9 cacauicultor.<br \/>\nDistinguir \u00e9 dividir, precisamos de uni\u00e3o.<br \/>\nSomos todos do mesmo ch\u00e3o.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Paulo Peixinho, produtor de cacau<\/em><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13343\" aria-describedby=\"caption-attachment-13343\" style=\"width: 221px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13343\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/PHOTO-2025-09-25-16-28-55-221x300.jpg\" alt=\"\" width=\"221\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/PHOTO-2025-09-25-16-28-55-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/PHOTO-2025-09-25-16-28-55.jpg 737w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13343\" class=\"wp-caption-text\">Paulo Peixinho<\/figcaption><\/figure>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o do cacau no Sul da Bahia foi constru\u00edda por homens e mulheres que chegaram a um territ\u00f3rio de floresta, grandes dist\u00e2ncias, comunica\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e limitada presen\u00e7a do Estado.<\/p>\n<p>Antes da riqueza, do coronel, do comerciante, do exportador e da ind\u00fastria, existiu o homem que entrou na mata. Muitos eram migrantes em busca de trabalho, terra e ascens\u00e3o social. O cacau representava a possibilidade de transformar trabalho em propriedade e produ\u00e7\u00e3o em dignidade.<\/p>\n<p>Era uma sociedade de fronteira. A autonomia n\u00e3o era apenas virtude: era condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Estradas, sa\u00fade, cr\u00e9dito e seguran\u00e7a eram escassos. Fam\u00edlia, vizinhos e rela\u00e7\u00f5es pessoais substitu\u00edam muitas vezes as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez esteja a\u00ed uma das explica\u00e7\u00f5es para as dificuldades posteriores de organiza\u00e7\u00e3o coletiva. N\u00e3o porque o homem grapi\u00fana fosse incapaz de cooperar, mas porque sua forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica privilegiava solu\u00e7\u00f5es individuais e familiares.<\/p>\n<p><strong>A floresta e a monocultura<\/strong><\/p>\n<p>A floresta n\u00e3o foi apenas cen\u00e1rio. Forneceu madeira, \u00e1gua, alimento, sombra, caminhos e prote\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m isolou propriedades e comunidades. Favorecia simultaneamente autonomia e dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Com o tempo, o cacau organizou terra, trabalho, com\u00e9rcio e infraestrutura. Surgia, entretanto, um paradoxo: embora alimento, o cacau era principalmente mercadoria de exporta\u00e7\u00e3o. O produtor podia viver cercado de cacaueiros e ainda precisar vender sua produ\u00e7\u00e3o para comprar o que comer.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-19743\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-1.jpg\" alt=\"\" width=\"296\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-1.jpg 589w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 296px) 100vw, 296px\" \/><\/p>\n<p><strong>A monocultura criou riqueza, mas tamb\u00e9m depend\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>O cacau tornou-se um dos grandes sustent\u00e1culos econ\u00f4micos da Bahia. Gerou impostos, com\u00e9rcio, exporta\u00e7\u00f5es e divisas para o Brasil. A am\u00eandoa sa\u00eda da fazenda, atravessava armaz\u00e9ns e portos e retornava ao pa\u00eds como moeda capaz de financiar m\u00e1quinas, petr\u00f3leo e tecnologia.<\/p>\n<p>Mas permanecia uma pergunta: quanto dessa riqueza retornava ao territ\u00f3rio onde era produzida?<\/p>\n<p>Produzir tamb\u00e9m n\u00e3o significava controlar. O pre\u00e7o era determinado principalmente fora da regi\u00e3o; cr\u00e9dito, exporta\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o e acesso ao consumidor permaneciam concentrados em outros elos da cadeia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Produzir riqueza n\u00e3o significava necessariamente controlar a riqueza.<\/strong><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-19742\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-3.jpg\" alt=\"\" width=\"325\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-3.jpg 589w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-3-300x297.jpg 300w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 325px) 100vw, 325px\" \/><\/p>\n<p><strong>Poder, conhecimento e literatura<\/strong><\/p>\n<p>Onde as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas eram fr\u00e1geis, rela\u00e7\u00f5es privadas ocupavam espa\u00e7o. O grande propriet\u00e1rio podia ser simultaneamente empregador, credor, intermedi\u00e1rio pol\u00edtico e fonte de prote\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse ambiente que o coronelismo deve ser compreendido: como uma rede de depend\u00eancias econ\u00f4micas, pol\u00edticas e pessoais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso abandonar a ideia de que o homem iletrado era ignorante. Ele podia conhecer profundamente chuva, solo, \u00e1rvores, fermenta\u00e7\u00e3o, rios e animais. O que frequentemente lhe faltava era dom\u00ednio dos instrumentos formais de poder: contratos, escrituras, cr\u00e9dito, leis e burocracia.<\/p>\n<p><strong>Um homem podia dominar a floresta e ser vulner\u00e1vel diante de um documento.<\/strong><\/p>\n<p>A literatura registrou essas dimens\u00f5es. Jorge Amado iluminou a estrutura social: terra, trabalhadores, coron\u00e9is, viol\u00eancia, riqueza e desigualdade. Adonias Filho mergulhou no indiv\u00edduo moldado por esse ambiente: solid\u00e3o, culpa, fam\u00edlia, vingan\u00e7a e destino.<\/p>\n<p><strong>Jorge Amado ajuda a compreender a estrutura. Adonias Filho, a alma.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1989 e a ruptura<\/strong><\/p>\n<p>Em 1989, a Vassoura-de-Bruxa come\u00e7ou a destruir a capacidade produtiva da lavoura baiana. No mesmo ano caiu o Muro de Berlim. Os fatos n\u00e3o tinham rela\u00e7\u00e3o causal, mas simbolizavam uma mudan\u00e7a de \u00e9poca.<\/p>\n<p>Enquanto a Bahia entrava numa grave crise agr\u00edcola, o mundo avan\u00e7ava para maior integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Costa do Marfim expandia sua produ\u00e7\u00e3o, Gana se recuperava e a Indon\u00e9sia surgia como grande origem.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A Bahia produzia menos justamente <\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>quando o mundo aprendia a produzir mais.<\/strong><\/h3>\n<p>O Plano Real, a partir de 1994, trouxe estabilidade monet\u00e1ria, mas modificou tamb\u00e9m a economia dos setores exportadores. O c\u00e2mbio valorizado reduziu, em determinados momentos, a quantidade de reais recebida pelo produto cotado em d\u00f3lar, enquanto os custos permaneciam dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>O Plano Real n\u00e3o criou a crise do cacau, mas alterou o ambiente no qual ela precisava ser enfrentada.<\/p>\n<p>Programas de recupera\u00e7\u00e3o financiados por cr\u00e9dito tamb\u00e9m apresentaram dificuldades t\u00e9cnicas e de execu\u00e7\u00e3o. Muitos produtores se endividaram tentando recuperar propriedades cuja produtividade n\u00e3o retornava no ritmo esperado.<\/p>\n<p>A Vassoura atingiu a planta. O mercado atingiu o pre\u00e7o. O c\u00e2mbio atingiu a receita. Os juros atingiram a d\u00edvida.<\/p>\n<p>O que ruiu n\u00e3o foi o cacau nem a cultura grapi\u00fana, mas a ordem econ\u00f4mica e social constru\u00edda sobre a hegemonia da monocultura.<\/p>\n<p>A cultura permaneceu. O conhecimento permaneceu. A floresta permaneceu em muitas \u00e1reas. E o cacau permaneceu.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-19744\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-2.jpg\" alt=\"\" width=\"452\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-2.jpg 589w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/chao-do-cacau-2-300x291.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><\/p>\n<p><strong>Reinven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O homem do cacau precisou se adaptar.<\/p>\n<p>A parceria ganhou import\u00e2ncia. Produtores come\u00e7aram tamb\u00e9m a perceber que permanecer apenas na venda da am\u00eandoa significava ocupar o elo mais vulner\u00e1vel da cadeia.<\/p>\n<p>Fermenta\u00e7\u00e3o, secagem, torra, moagem, chocolate, embalagem, marca e venda passaram a fazer parte de uma nova vis\u00e3o. Surgiram cacau fino, chocolate de origem, Bean-to-Bar, turismo, rastreabilidade, agrofloresta e valoriza\u00e7\u00e3o da Cabruca.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Talvez esteja surgindo uma segunda civiliza\u00e7\u00e3o do cacau.<\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A primeira crescia ampliando terra e volume.<\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong> A segunda ter\u00e1 de crescer ampliando valor.<\/strong><\/h3>\n<p>A li\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os<\/p>\n<p>Entre 2023 e 2025, problemas clim\u00e1ticos e doen\u00e7as na \u00c1frica Ocidental reduziram a produ\u00e7\u00e3o e os estoques mundiais. Os pre\u00e7os chegaram perto de US$ 13 mil por tonelada.<\/p>\n<p>Vieram euforia, investimentos e valoriza\u00e7\u00e3o das terras. Parecia que pre\u00e7os elevados resolveriam problemas acumulados durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Mas pre\u00e7os excepcionais provocaram sua pr\u00f3pria rea\u00e7\u00e3o: redu\u00e7\u00e3o da moagem, destrui\u00e7\u00e3o de demanda e busca por alternativas pela ind\u00fastria. Quando a oferta melhorou, as cota\u00e7\u00f5es recuaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: pre\u00e7o alto n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica de desenvolvimento.<\/strong><\/p>\n<p>Renda extraordin\u00e1ria n\u00e3o substitui produtividade, organiza\u00e7\u00e3o, cr\u00e9dito, transforma\u00e7\u00e3o, mercado e gest\u00e3o de risco.<\/p>\n<h3>O Brasil e o desafio de criar mercado<\/h3>\n<p>O Brasil possui uma condi\u00e7\u00e3o especial: \u00e9 produtor de cacau, processador, fabricante de chocolate e grande mercado consumidor.<\/p>\n<p>Depois de d\u00e9cadas em que o principal desafio era recuperar a produ\u00e7\u00e3o, surge uma quest\u00e3o diferente: se a oferta crescer mais rapidamente que moagem, consumo e exporta\u00e7\u00f5es, os pre\u00e7os ao produtor poder\u00e3o sofrer press\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o desafio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas produzir.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 criar mercado.<\/strong><\/p>\n<p>Criar consumidores, produtos, marcas, derivados, chocolate, exporta\u00e7\u00f5es e novos usos para o cacau.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Produzir mais n\u00e3o significa necessariamente ganhar mais.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Aprender a cooperar<\/strong><\/p>\n<p>Talvez este seja o ponto central desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O homem do cacau aprendeu a sobreviver sozinho. Agora precisa aprender a prosperar coletivamente.<\/p>\n<p>Associa\u00e7\u00e3o. Cooperativismo. Confian\u00e7a. Institui\u00e7\u00f5es. Intelig\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o para eliminar o empreendedor individual, mas para aumentar sua capacidade. Um produtor isolado tem pouco poder diante de grandes compradores. Organizados, produtores podem compartilhar armazenagem, laborat\u00f3rios, exporta\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia de mercado.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima fronteira da cacauicultura talvez esteja menos dentro das fazendas e mais entre elas.<\/p>\n<p>O Sul da Bahia j\u00e1 possui quase todos os ativos necess\u00e1rios: produ\u00e7\u00e3o, processamento, chocolateiros, universidades, escolas t\u00e9cnicas, centros de pesquisa, conhecimento cient\u00edfico, t\u00e9cnicos, tradi\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria, literatura, indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, Cabruca, biodiversidade e potencial de servi\u00e7os ambientais.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>O problema n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de ativos.<\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>\u00c9 faz\u00ea-los funcionar como sistema.<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1926\u20132026: um novo vestibular<\/strong><\/p>\n<p>Em 1926, cem anos atr\u00e1s, o cacau baiano atravessava um per\u00edodo de grande expans\u00e3o, pouco antes de a crise de 1929 transformar a economia mundial.<\/p>\n<p>Em 2026, a cacauicultura brasileira enfrenta outra transi\u00e7\u00e3o. Este pode ser chamado simbolicamente de o ano do vestibular da cacauicultura.<\/p>\n<p>Em um s\u00e9culo aprendemos o que acontece quando dependemos excessivamente de uma monocultura, quando doen\u00e7as encontram economias fr\u00e1geis, quando falta cr\u00e9dito adequado, quando produtores ficam fora das etapas de maior valor e quando pre\u00e7os extraordin\u00e1rios produzem euforia.<\/p>\n<p>O vestibular n\u00e3o pergunta apenas se conhecemos o passado.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Pergunta se aprendemos com ele.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Hist\u00f3ria, floresta e renda<\/strong><\/p>\n<p>Hist\u00f3ria, documentos, literatura e mem\u00f3ria devem orientar o presente, n\u00e3o servir como instrumentos de revanche ou conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Direitos devem ser respeitados e injusti\u00e7as demonstradas precisam ser reconhecidas. Mas conflitos fundi\u00e1rios exigem rigor documental, institucionalidade, direito, antropologia, negocia\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n<p>O Sul da Bahia n\u00e3o precisa retornar ao mundo em que disputas eram resolvidas pela for\u00e7a privada.<\/p>\n<p><strong>O futuro exige lei, di\u00e1logo e institui\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o existe sustentabilidade ambiental sem sustentabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A Cabruca continuar\u00e1 existindo enquanto fizer sentido para quem vive dela. A fam\u00edlia precisa viver, o trabalhador precisa receber e a propriedade precisa gerar renda.<\/p>\n<p>Se o cacau n\u00e3o remunerar adequadamente e a conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o produzir valor, outras atividades disputar\u00e3o a terra.<\/p>\n<p>A floresta precisa valer em p\u00e9. O cacau precisa valer no p\u00e9. E o produtor precisa conseguir viver dos dois.<\/p>\n<p>Carbono, biodiversidade, \u00e1gua, paisagem, indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, turismo e chocolate de origem podem gerar novas fontes de renda, mas precisam chegar ao produtor.<\/p>\n<p><strong>Desenvolvimento territorial<\/strong><\/p>\n<p>O futuro exige mais que uma pol\u00edtica para o cacau.<\/p>\n<p>Exige uma pol\u00edtica para o territ\u00f3rio do cacau.<\/p>\n<p>Desenvolvimento significa conectar fazenda e universidade, campo e cidade, escola t\u00e9cnica e empresa, pesquisa e produtor, cacau e chocolate, turismo e cultura, floresta e renda, mem\u00f3ria e inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O objetivo n\u00e3o deve ser simplesmente recuperar toneladas produzidas, mas produzir prosperidade a partir do cacau.<\/p>\n<p>Toneladas medem produ\u00e7\u00e3o. Desenvolvimento mede quanto conhecimento, renda, emprego e oportunidade permanecem no territ\u00f3rio depois que o cacau \u00e9 vendido.<\/p>\n<p>A primeira civiliza\u00e7\u00e3o do cacau foi constru\u00edda pelo produto.<\/p>\n<p><strong>A segunda ter\u00e1 de ser constru\u00edda pelas institui\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es capazes de financiar, pesquisar, formar, transformar, comercializar, preservar, resolver conflitos, produzir informa\u00e7\u00e3o e gerar confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez o ativo mais escasso j\u00e1 n\u00e3o seja terra, floresta ou cacau.<\/p>\n<p>Talvez seja coordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A prova final<\/strong><\/p>\n<p>Temos terra. Temos floresta. Temos cacau. Temos ind\u00fastria. Temos chocolateiros. Temos consumidores. Temos universidades. Temos ci\u00eancia, hist\u00f3ria, literatura e experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O que precisamos construir \u00e9 confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Confian\u00e7a entre produtores, institui\u00e7\u00f5es, pesquisa e campo, ind\u00fastria e agricultura, poder p\u00fablico e sociedade.<\/p>\n<p>O vestibular da cacauicultura brasileira n\u00e3o ser\u00e1 apenas uma prova de agronomia.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 uma prova de maturidade institucional.<\/strong><\/p>\n<p>Os pre\u00e7os subir\u00e3o e cair\u00e3o. Novas doen\u00e7as poder\u00e3o surgir. Tecnologias aparecer\u00e3o. Governos mudar\u00e3o. O mercado continuar\u00e1 se transformando.<\/p>\n<p><strong>Mas o ch\u00e3o permanecer\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>A decis\u00e3o sobre o que existir\u00e1 sobre ele ser\u00e1 tomada diariamente por quem vive da terra. Se produzir cacau e conservar a floresta gerarem renda, seguran\u00e7a e futuro, haver\u00e1 raz\u00f5es para continuar. Caso contr\u00e1rio, outras atividades ocupar\u00e3o esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Preservar o ch\u00e3o do cacau significa tornar economicamente racional, socialmente digno e ambientalmente valioso continuar produzindo cacau.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos reconstruir a velha civiliza\u00e7\u00e3o nem viver de nostalgia.<\/p>\n<p>Precisamos aprender com a hist\u00f3ria. Dialogar. Associar. Cooperar. Produzir. Transformar. Criar mercado. Preservar. Desenvolver o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A primeira civiliza\u00e7\u00e3o do cacau foi constru\u00edda pela coragem de homens e mulheres que enfrentaram a floresta.<\/p>\n<p>A segunda, se vier a existir, ser\u00e1 constru\u00edda pela capacidade de homens e mulheres sentarem \u00e0 mesma mesa.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o existe. A floresta existe. O cacau existe. O conhecimento existe.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>O que falta construir \u00e9 o coletivo.<\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Esse \u00e9 o verdadeiro vestibular da cacauicultura brasileira.<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTodo propriet\u00e1rio, possuidor ou parceiro de um p\u00e9 de cacau \u00e9 cacauicultor. Distinguir \u00e9 dividir, precisamos de uni\u00e3o. Somos todos do mesmo ch\u00e3o.\u201d &nbsp; Paulo Peixinho, produtor de cacau A civiliza\u00e7\u00e3o do cacau no Sul da Bahia foi constru\u00edda por homens e mulheres que chegaram a um territ\u00f3rio de floresta, grandes dist\u00e2ncias, comunica\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19741,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3,1],"tags":[4521,4518,4519,4520,4517,3108],"class_list":["post-19738","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-geral","tag-crise-e-reinvencao","tag-floresta","tag-migracao","tag-monocultura","tag-o-chao-do-cacau","tag-paulo-peixinho"],"views":33,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19738"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19738"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19738\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19745,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19738\/revisions\/19745"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}