{"id":19969,"date":"2026-10-05T09:13:17","date_gmt":"2026-10-05T12:13:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=19969"},"modified":"2026-10-05T09:14:37","modified_gmt":"2026-10-05T12:14:37","slug":"eleicoes-e-a-psicologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2026\/10\/05\/eleicoes-e-a-psicologia\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es e a Psicologia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>por Paulo Peixinho<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13523\" aria-describedby=\"caption-attachment-13523\" style=\"width: 221px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13523\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43-221x300.jpg\" alt=\"\" width=\"221\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-06-18-42-43.jpg 737w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13523\" class=\"wp-caption-text\">\u00b4Paulo Peixinho<\/figcaption><\/figure>\n<p>A cada elei\u00e7\u00e3o acontece um fen\u00f4meno curioso: milh\u00f5es de pessoas entram sozinhas numa cabine para fazer uma escolha que passar\u00e3o meses explicando aos outros.<\/p>\n<p>Antes disso haver\u00e1 com\u00edcios, entrevistas, pesquisas, discuss\u00f5es em fam\u00edlia, v\u00eddeos de poucos segundos, discursos de muitas horas, promessas, acusa\u00e7\u00f5es e aquela categoria humana particularmente abundante em per\u00edodos eleitorais: a pessoa absolutamente certa de que compreendeu tudo.<\/p>\n<p>No dia da vota\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, resta um indiv\u00edduo diante de uma m\u00e1quina.<\/p>\n<p>\u00c9 um instante solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Talvez mais psicol\u00f3gico do que pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Porque votar n\u00e3o \u00e9 apenas escolher algu\u00e9m. \u00c9 tamb\u00e9m revelar, ainda que parcialmente, aquilo que desejamos, aquilo que tememos, o que admiramos, o que rejeitamos e a esp\u00e9cie de autoridade que estamos dispostos a reconhecer.<\/p>\n<p>A urna registra o voto.<\/p>\n<p>N\u00e3o registra tudo o que foi colocado dentro dele.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse espa\u00e7o invis\u00edvel que a Psicologia do Esp\u00edrito pode oferecer uma pergunta diferente. Em vez de perguntar apenas em quem uma pessoa vota, talvez seja interessante perguntar: que parte de si mesma ela est\u00e1 procurando naquele em quem vota?<\/p>\n<p>A pol\u00edtica costuma ser apresentada como disputa entre projetos, interesses e vis\u00f5es de sociedade. \u00c9 tudo isso. Mas seria ing\u00eanuo imaginar que o ser humano deixa sua psicologia na porta do comit\u00ea eleitoral.<\/p>\n<p>Levamos conosco medos antigos, ressentimentos, esperan\u00e7as, necessidades de pertencimento, desejo de prote\u00e7\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a, desconfian\u00e7a da autoridade e at\u00e9 conflitos que come\u00e7aram muito antes de ouvirmos falar em esquerda, direita ou centro.<\/p>\n<p>A Psicologia do Esp\u00edrito, na formula\u00e7\u00e3o de Aden\u00e1uer Novaes, amplia o indiv\u00edduo para al\u00e9m da personalidade circunstancial de uma exist\u00eancia. O ser humano deixa de ser apenas o personagem social que adquiriu um nome, uma profiss\u00e3o e uma hist\u00f3ria e passa a ser compreendido como uma individualidade em processo de evolu\u00e7\u00e3o.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-19971\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/PHOTO-2026-10-05-08-30-53.jpg\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/PHOTO-2026-10-05-08-30-53.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/PHOTO-2026-10-05-08-30-53-300x277.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/p>\n<p>Isso muda a pergunta sobre pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O eleitor n\u00e3o \u00e9 somente consumidor de propostas.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma consci\u00eancia em desenvolvimento.<\/p>\n<p>E consci\u00eancias em desenvolvimento projetam.<\/p>\n<p>Jung chamou aten\u00e7\u00e3o para um mecanismo conhecido: enxergamos nos outros conte\u00fados que nem sempre reconhecemos em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica isso ganha escala industrial.<\/p>\n<p>O candidato pode transformar-se em tela.<\/p>\n<p>Nele projetamos o pai forte que gostar\u00edamos de ter tido, o protetor capaz de colocar ordem no mundo, o rebelde que diz aquilo que n\u00e3o ousamos dizer, o empres\u00e1rio bem-sucedido que representa nossa ambi\u00e7\u00e3o, o homem simples que confirma nossa identidade ou o salvador que resolver\u00e1 aquilo que n\u00e3o conseguimos resolver.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m projetamos a sombra.<\/p>\n<p>O advers\u00e1rio pol\u00edtico deixa de ser simplesmente algu\u00e9m com ideias diferentes e se converte em recipiente de tudo aquilo que julgamos amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o est\u00e1 apenas errado.<\/p>\n<p>Passa a ser mau.<\/p>\n<p>E, quando algu\u00e9m \u00e9 definido como essencialmente mau, escut\u00e1-lo come\u00e7a a parecer uma concess\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Est\u00e1 aberta a porta para uma das tenta\u00e7\u00f5es mais antigas da pol\u00edtica: dividir o mundo entre os absolutamente bons e os irremediavelmente maus.<\/p>\n<p>\u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o psicologicamente confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que raramente corresponde \u00e0 complexidade humana.<\/p>\n<p>A sombra tem uma caracter\u00edstica desagrad\u00e1vel: prefere morar no vizinho.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre mais f\u00e1cil identificar o autoritarismo no outro grupo, a intoler\u00e2ncia no advers\u00e1rio, a mentira na campanha alheia, a vaidade no candidato de quem n\u00e3o gostamos.<\/p>\n<p>Nosso lado possui convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O outro possui fanatismo.<\/p>\n<p>Nosso candidato tem firmeza.<\/p>\n<p>O advers\u00e1rio \u00e9 arrogante.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m do nosso grupo muda de posi\u00e7\u00e3o, amadureceu. Quando algu\u00e9m do outro faz o mesmo, \u00e9 oportunista.<\/p>\n<p>A psicologia humana possui enorme criatividade sem\u00e2ntica quando precisa proteger uma prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>Conhecer a pr\u00f3pria sombra politicamente talvez seja come\u00e7ar a perguntar se usamos o mesmo crit\u00e9rio para julgar aqueles de quem gostamos e aqueles de quem n\u00e3o gostamos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Justamente por isso pode ser \u00fatil.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m a persona.<\/p>\n<p>Na Psicologia Anal\u00edtica, a persona \u00e9 a face que apresentamos ao mundo. Na pol\u00edtica, poucos ambientes produzem personas com tamanha efici\u00eancia.<\/p>\n<p>O candidato precisa parecer confi\u00e1vel, pr\u00f3ximo, competente, decidido, sens\u00edvel, simples e, se poss\u00edvel, fotograf\u00e1vel comendo pastel.<\/p>\n<p>Poucos seres humanos conseguem reunir todas essas virtudes simultaneamente, mas campanhas eleitorais n\u00e3o foram inventadas para demonstrar os limites da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Foram inventadas para apresentar personagens.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa necessariamente falsidade. Todos n\u00f3s temos personas. O m\u00e9dico possui uma, o empres\u00e1rio outra, o professor outra. O problema come\u00e7a quando confundimos personagem com totalidade.<\/p>\n<p>Talvez o eleitor espiritualmente mais consciente n\u00e3o seja aquele que encontrou um candidato sem persona.<\/p>\n<p>Esse candidato provavelmente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>\u00c9 aquele que consegue olhar al\u00e9m dela.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outro personagem frequente nas elei\u00e7\u00f5es: o salvador.<\/p>\n<p>Ele atravessa culturas, \u00e9pocas e regimes.<\/p>\n<p>Surge quando uma sociedade deposita numa pessoa expectativas que dificilmente poderiam ser satisfeitas por qualquer ser humano.<\/p>\n<p>O salvador resolver\u00e1 a economia, corrigir\u00e1 a moral, derrotar\u00e1 os inimigos, pacificar\u00e1 a sociedade, reorganizar\u00e1 o Estado e, se ainda houver tempo antes do jantar, restaurar\u00e1 a esperan\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo infantil nessa expectativa.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a imagina que os adultos podem resolver tudo.<\/p>\n<p>O adulto descobre, com alguma decep\u00e7\u00e3o, que os adultos s\u00e3o apenas pessoas que chegaram antes.<\/p>\n<p>A Psicologia do Esp\u00edrito talvez introduza aqui uma ideia de maturidade: ningu\u00e9m deveria transferir integralmente a responsabilidade pela pr\u00f3pria vida ou pela comunidade a outro indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O governante tem responsabilidades reais.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Democracia n\u00e3o \u00e9 a contrata\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de algu\u00e9m para cuidar da sociedade enquanto voltamos aos nossos assuntos particulares.<\/p>\n<p>\u00c9 responsabilidade compartilhada.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com o poder talvez seja um dos grandes testes psicol\u00f3gicos do ser humano.<\/p>\n<p>\u00c9 relativamente f\u00e1cil defender humildade quando ningu\u00e9m obedece \u00e0s nossas ordens.<\/p>\n<p>O poder cria condi\u00e7\u00f5es experimentais interessantes.<\/p>\n<p>De repente pessoas esperam.<\/p>\n<p>Portas se abrem.<\/p>\n<p>Telefonemas s\u00e3o atendidos.<\/p>\n<p>Piadas ficam mais engra\u00e7adas.<\/p>\n<p>Opini\u00f5es se tornam mais inteligentes.<\/p>\n<p>Alguns amigos antigos descobrem inesperadamente que sempre fomos extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>O poder n\u00e3o necessariamente transforma uma pessoa em outra.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes apenas aumenta o volume daquilo que j\u00e1 estava presente.<\/p>\n<p>Por isso a Psicologia do Esp\u00edrito permite olhar para o poder n\u00e3o apenas como conquista, mas como prova.<\/p>\n<p>O problema deixa de ser simplesmente chegar.<\/p>\n<p>Passa a ser saber o que acontece interiormente depois da chegada.<\/p>\n<p>H\u00e1 um princ\u00edpio evang\u00e9lico que, aplicado \u00e0 pol\u00edtica, dispensa boa parte da propaganda: pelos frutos os conhecereis.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelo discurso.<\/p>\n<p>N\u00e3o pelo slogan.<\/p>\n<p>N\u00e3o pela fotografia.<\/p>\n<p>Pelos frutos.<\/p>\n<p>A ideia possui uma simplicidade quase ofensiva.<\/p>\n<p>Significa observar aquilo que algu\u00e9m produz quando recebe responsabilidade.<\/p>\n<p>Mas o mesmo princ\u00edpio serve ao eleitor.<\/p>\n<p>Quais frutos nossa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica produz em n\u00f3s?<\/p>\n<p>Depois de meses acompanhando pol\u00edtica, tornamo-nos mais l\u00facidos ou mais agressivos?<\/p>\n<p>Mais atentos aos fatos ou mais interessados em confirmar aquilo em que j\u00e1 acredit\u00e1vamos?<\/p>\n<p>Aprendemos a discordar ou apenas aumentamos a cole\u00e7\u00e3o de pessoas que desprezamos?<\/p>\n<p>Se uma convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos torna incapazes de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente, talvez haja algo dentro de n\u00f3s que mere\u00e7a aten\u00e7\u00e3o antes da pr\u00f3xima discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica oferece uma tenta\u00e7\u00e3o particularmente sedutora: transformar identidade em opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o apenas defendo uma ideia.<\/p>\n<p>Eu sou aquela ideia.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, qualquer cr\u00edtica \u00e0 posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 experimentada como agress\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Mudar de opini\u00e3o passa a significar trair a si mesmo.<\/p>\n<p>E admitir que o advers\u00e1rio acertou alguma coisa se torna quase uma experi\u00eancia de dissolu\u00e7\u00e3o do ego.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito, por\u00e9m, n\u00e3o pode ser reduzido a partido, candidato ou ideologia.<\/p>\n<p>Tudo isso pertence \u00e0s circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas de uma exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Um homem pode atravessar d\u00e9cadas mudando de opini\u00e3o sem deixar de ser ele mesmo.<\/p>\n<p>Talvez amadurecer politicamente seja justamente adquirir liberdade suficiente para dizer: Eu pensava assim. Hoje penso diferente.<\/p>\n<p>H\u00e1 coragem nessa frase.<\/p>\n<p>Muito mais, \u00e0s vezes, do que na certeza.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe uma forma pol\u00edtica de reencarna\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o seja necess\u00e1rio tom\u00e1-la literalmente para compreender a met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Os problemas voltam.<\/p>\n<p>Mudam os candidatos, mudam as siglas, mudam os slogans e algumas discuss\u00f5es reaparecem com roupas novas.<\/p>\n<p>A sociedade tamb\u00e9m parece ter suas repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez grupos, como indiv\u00edduos, precisem encontrar v\u00e1rias vezes determinados conflitos at\u00e9 aprender alguma coisa com eles.<\/p>\n<p>A perspectiva esp\u00edrita acrescenta algo ainda mais amplo: se somos esp\u00edritos em diferentes est\u00e1gios de desenvolvimento, a sociedade inevitavelmente reunir\u00e1 pessoas com graus distintos de consci\u00eancia moral, intelectual e afetiva.<\/p>\n<p>A democracia n\u00e3o elimina essa diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Cria um m\u00e9todo de conviv\u00eancia entre ela.<\/p>\n<p>Isso talvez explique por que toler\u00e2ncia \u00e9 muito mais dif\u00edcil do que parece.<\/p>\n<p>Tolerar n\u00e3o \u00e9 concordar.<\/p>\n<p>\u00c9 reconhecer que algu\u00e9m continua possuindo dignidade mesmo quando est\u00e1 profundamente equivocado aos nossos olhos.<\/p>\n<p>Existe, por fim, o voto.<\/p>\n<p>Depois de todas as propagandas, pesquisas, debates e discuss\u00f5es, sobra um cidad\u00e3o diante de sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A Psicologia do Esp\u00edrito n\u00e3o forneceria uma lista de candidatos.<\/p>\n<p>Talvez oferecesse perguntas.<\/p>\n<p>Estou escolhendo por medo?<\/p>\n<p>Por raiva?<\/p>\n<p>Por gratid\u00e3o?<\/p>\n<p>Por interesse?<\/p>\n<p>Por identifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Por ressentimento?<\/p>\n<p>Porque todos \u00e0 minha volta pensam assim?<\/p>\n<p>Porque tenho informa\u00e7\u00f5es suficientes?<\/p>\n<p>Estou escolhendo uma pessoa real ou a personagem que constru\u00ed em minha cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>Consigo reconhecer defeitos em quem apoio?<\/p>\n<p>Consigo reconhecer qualidades em quem rejeito?<\/p>\n<p>Talvez nenhuma escolha humana seja completamente livre de afetos, interesses ou proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Consci\u00eancia n\u00e3o significa aus\u00eancia dessas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Significa perceber que elas existem.<\/p>\n<p>Votar \u00e9 um ato pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Pode ser tamb\u00e9m um exerc\u00edcio de autoconhecimento.<\/p>\n<p>A cabine eleitoral possui uma caracter\u00edstica interessante: ningu\u00e9m entra conosco.<\/p>\n<p>Podemos levar a opini\u00e3o da fam\u00edlia, as pesquisas, os v\u00eddeos recebidos durante a madrugada, a lembran\u00e7a de uma conversa, os medos, os interesses, as simpatias e as antipatias.<\/p>\n<p>Mas, no instante final, h\u00e1 apenas uma pessoa diante da escolha.<\/p>\n<p>Talvez seja esse um dos raros momentos em que a democracia e a psicologia se encontram de maneira quase literal.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o escolhe algu\u00e9m para exercer poder.<\/p>\n<p>E, sem perceber, revela alguma coisa sobre o poder que existe dentro dele.<\/p>\n<p>A urna contar\u00e1 os votos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria julgar\u00e1 os governos.<\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1 uma pergunta que nenhuma apura\u00e7\u00e3o consegue responder: quem estamos nos tornando enquanto escolhemos aqueles que ir\u00e3o nos representar?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez essa seja a elei\u00e7\u00e3o mais longa de todas.<\/p>\n<p>N\u00e3o acontece a cada quatro anos.<\/p>\n<p>Acontece todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Paulo Peixinho A cada elei\u00e7\u00e3o acontece um fen\u00f4meno curioso: milh\u00f5es de pessoas entram sozinhas numa cabine para fazer uma escolha que passar\u00e3o meses explicando aos outros. 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