{"id":6883,"date":"2024-04-15T09:13:37","date_gmt":"2024-04-15T12:13:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/?p=6883"},"modified":"2024-04-15T11:33:24","modified_gmt":"2024-04-15T14:33:24","slug":"cacau-coroneis-e-cangaceiros-em-uma-mesma-publicacao-que-marca-a-chegada-da-nova-literatura-do-sul-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/2024\/04\/15\/cacau-coroneis-e-cangaceiros-em-uma-mesma-publicacao-que-marca-a-chegada-da-nova-literatura-do-sul-da-bahia\/","title":{"rendered":"Cacau, coron\u00e9is e cangaceiros em uma mesma publica\u00e7\u00e3o que marca a chegada da nova literatura do Sul da Bahia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><i>Lourival Jacome <\/i><\/strong><\/p>\n<p>Primeiro evento do g\u00eanero na regi\u00e3o este ano, o escritor, historicista e jornalista Roberto R. Martins, lan\u00e7ou no \u00faltimo dia 1\u00ba de mar\u00e7o em Belmonte, distante 576 quil\u00f4metros de Salvador, seu novo livro impresso, um romance hist\u00f3rico ambientado na regi\u00e3o Sul da Bahia, tendo como enredo a atua\u00e7\u00e3o dos utilizadores da clavina como ferramenta de trabalho dentro da cultura do cacau, reunindo jagun\u00e7os, coron\u00e9is, ex-escravos e ind\u00edgenas, personagens com cadeira cativa na mem\u00f3ria afetiva de milhares de brasileiros.\u00a0<b>\u201cOS CLAVINOTEIROS DE BELMONTE &#8211; Uma hist\u00f3ria dos cangaceiros do cacau\u201d,\u00a0<\/b>vai \u00e0s livrarias pelas m\u00e3os de jovens editores,<b>\u00a0<\/b>marcando<b>\u00a0<\/b>a chegada da nova literatura do Sul da Bahia.<\/p>\n<p>Em pr\u00e9-lan\u00e7amento na primeira semana deste m\u00eas, o livro foi bem recebido nos meios culturais. Al\u00e9m do encantamento do enredo em si, este t\u00edtulo de Roberto R. Martins encerra um imenso conjunto de informa\u00e7\u00f5es, seja do pr\u00f3prio conte\u00fado, de conhecido perfil liter\u00e1rio, muitas vezes testado e apreciado pelo universo liter\u00e1rio do pa\u00eds, ou do pr\u00f3prio escritor e sua nova editora.<\/p>\n<p>O conceito literatura nova \u00e9 principalmente em raz\u00e3o de ela ser produzida com instrumentos e cen\u00e1rios inexistentes em outras \u00e9pocas. Tamb\u00e9m por conta das exig\u00eancias de diferentes p\u00fablicos, ante as perspectivas trazidas pela diversidade de tecnologias e a infinidade de informa\u00e7\u00f5es e acess\u00f3rios dispon\u00edveis e pesquis\u00e1veis na atualidade, considerando ainda as in\u00fameras transi\u00e7\u00f5es nos campos social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico que agora impactam as publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-6885\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-2.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-2.jpg 530w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-2-300x208.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>O autor rompeu as etapas de publica\u00e7\u00e3o sem os impedimentos, entraves mercadol\u00f3gicos e surpresas de outras \u00e9pocas. Diferente de experi\u00eancias anteriores, desde o in\u00edcio conceituou que o livro \u00e9 antes de tudo um produto. Neste sentido, ao mesmo tempo em que escrevia, Martins superava o tradicional, transpondo barreiras burocr\u00e1ticas e financeiras com ajudas que n\u00e3o existiam antes das novas tecnologias de edi\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 um texto respons\u00e1vel e contempor\u00e2neo, capaz de induzir o leitor a um mergulho na hist\u00f3ria, onde est\u00e3o os fatos relatados em prosa flu\u00edda sem medo, sem censura ou autocensura. Para Roberto R. Martins o leitor pode usufruir disso tudo sem se deslincar da atualidade.<\/p>\n<div class=\"contentAd contentAd--noBackground marginBottom30\">\n<div class=\"marginTop10 adBackground\">\n<p>O impulso para escrever o livro publicado pela Editora Mondrongo tem liga\u00e7\u00e3o direta com a intimidade e viv\u00eancia do autor com a regi\u00e3o Sul da Bahia, da qual conhece hist\u00f3ria e realidade de oitiva e de vida. Entretanto, o maior est\u00edmulo para elabora\u00e7\u00e3o da narrativa em torno dos clavinoteiros de Belmonte \u00e9 quase uma ordem do passado, oriunda do principal expoente da literatura nacional. Em seu conto a \u201cA can\u00e7\u00e3o de piratas\u201d, ainda por volta de 1894, Machado de Assis determina:<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201c&#8230;Sim, meus amigos. Os dois mil homens do Conselheiro, que v\u00e3o de vila em vila, assim como os\u00a0<\/i><i><em>clavinoteiros de Belmonte,<\/em><\/i><i>\u00a0que se metem pelo sert\u00e3o, comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar, levando mo\u00e7as naturalmente, mo\u00e7as cativas, chorosas e belas, s\u00e3o os piratas dos poetas de 1830. Poetas de 1894, a\u00ed tendes mat\u00e9ria nova e fecunda. Recordai vossos pais; cantai, como Hugo, a can\u00e7\u00e3o dos piratas&#8230;\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Sob essa perspectiva n\u00e3o seria exagero afirmar que estamos diante de estimulante presente para quem aprecia a literatura da regi\u00e3o do cacau, outrora reverenciada pelo conte\u00fado espec\u00edfico e diferenciado, disseminador de impulsos positivos diversos em favor da cultura nacional. Provavelmente a inten\u00e7\u00e3o do autor era pura e simplesmente a de levar o conte\u00fado da melhor forma poss\u00edvel ao seu leitor em potencial. Contudo, pelo seu perfil da publica\u00e7\u00e3o, com sua cuidadosa e moderna escrita, que carrega ainda respeito impl\u00edcito \u00e0 intelig\u00eancia do leitor, o livro chega com cacife para ocupar, juntamente com outras publica\u00e7\u00f5es, um v\u00e1cuo existente na cultura do Sul da Bahia ap\u00f3s alguns anos de desest\u00edmulo e de ostracismo, haja vista a reedi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos inspirados na cultura regional por emissoras de TV.<\/p>\n<p>Em certa medida, a partir da contribui\u00e7\u00e3o de obras como esta, a literatura brasileira continuar\u00e1 a construir as pontes enriquecedoras do vocabul\u00e1rio e da interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, juntamente com as experi\u00eancias que efetivamente formam o povo, muito embora existam pedras gigantes no meio do caminho.<\/p>\n<p><b>Clavinoteiros, jagun\u00e7os, cangaceiros de Belmonte, no Sul da Bahia<\/b><\/p>\n<p>Objeto de poder dos coron\u00e9is do cacau, que a utilizavam atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es dos seus jagun\u00e7os alugados, a clavina ocupa um lugar decisivo na hist\u00f3ria dos \u201cClavinoteiros de Belmonte\u201d, assim como o fuzil, a pistola 9mm e o cassetete reinam no canga\u00e7o oficial da atualidade. A clavina era um tipo de espingarda de cano curto, da \u00e9poca, parecida com a escopeta, a qual facilitava o uso pelo atirador, especialmente quando ele estava montado e a galope em seu cavalo. O texto \u00e9 narrado em primeira pessoa, exerc\u00edcio que \u00e0s vezes \u00e9 alterado circunstancialmente para levar o leitor ao reconhecimento do mundo real daquela \u00e9poca que ainda \u00e9 identific\u00e1vel na atualidade. Mesmo com a clavina em m\u00e3os de terceiros, os coron\u00e9is fizeram o diabo no interior da Bahia, com o apoio impl\u00edcitos dos governantes de plant\u00e3o. De lambuja, o texto d\u00e1 uma boa sacudida naqueles de todas as faixas et\u00e1rias e classes sociais, alimentados compulsoriamente com mensagens telegr\u00e1ficas cards de conte\u00fados discut\u00edveis.<\/p>\n<p>A narrativa de Roberto R. Martins come\u00e7a a partir da a\u00e7\u00e3o de um certo professor Tavares, um contador de causos da regi\u00e3o de Porto Seguro. A hist\u00f3ria, com seus paradoxos, ganha curso em sete cap\u00edtulos de textos super din\u00e2micos, em estilo direto e popular, em prosa lev\u00edssima, contaminada positivamente pelo cen\u00e1rio do Sul da Bahia, com suas tradi\u00e7\u00f5es e heran\u00e7a gen\u00e9tica do ambiente do chamado ouro negro, como j\u00e1 era conhecido o cacau pelos coron\u00e9is e agentes de mercado e de bolsas de\u00a0<i>commodities<\/i>. Por sua vez, a cr\u00edtica social e pol\u00edtica inclusa surge enf\u00e1tica em alguns pontos. Em uma para o todo, vem \u00e0 tona a impress\u00e3o, ainda superficial, de que o autor sabia onde a saga tinha in\u00edcio, mas n\u00e3o tinha a menor ideia de onde ela se encerraria e se seria de agrado do leitor.<\/p>\n<p>No desenrolar, os clavinoteiros liderados por Argemiro, a servi\u00e7o do malvado coronel Z\u00e9 Capi\u00e3o, irm\u00e3o do advogado Cesar Meneghetti, ambos filhos do coronel Juvenal Meneghetti, um dos primeiros exploradores a chegar a esta regi\u00e3o, s\u00e3o personagens centrais da hist\u00f3ria que atravessa gera\u00e7\u00f5es, em tempos de disputas que envolvem, al\u00e9m dos pr\u00f3prios jagun\u00e7os, cangaceiros, clavinoteiros, os ex escravos, \u00edndios botocudos, retirantes, e subliminarmente a classe pol\u00edtica da Bahia, \u00e0 qual os coron\u00e9is eram alinhados e mandantes contumazes. Neste ponto outra vez se evidencia a cr\u00edtica social e pol\u00edtica do autor, ao traduzir aspectos de um tempo onde os direitos eram propriedade dos coron\u00e9is, que reinavam absolutos, definindo as rela\u00e7\u00f5es sociais da \u00e9poca ao impor e usufruir de regras que avan\u00e7avam sobre direitos gerais individuais e espec\u00edficos direitos da personalidade, a exemplo do direito \u00e0 primeira noite com a noiva,\u00a0<i>(jus primae noctis)<\/i>\u00a0ato a que fazia jus o machista coronel, simplesmente por ser coronel, dono das propriedades, dono das institui\u00e7\u00f5es, dono das leis, praticamente dono das pessoas a seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Em 342 p\u00e1ginas, o livro discute mais ou menos uns 100 anos de pr\u00e1ticas coronelistas, evidenciando que todos os coron\u00e9is da \u00e9poca eram escravagistas, com a vig\u00eancia de regime quase feudal, que impunha \u00e0s popula\u00e7\u00f5es rurais da regi\u00e3o Sul da Bahia realidades proibidas pelo processo civilizat\u00f3rio p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o industrial. Na primeira parte o autor apresenta os personagens e seus poderes. Na segunda, os costumes e a\u00e7\u00f5es dos coron\u00e9is. Em seguida, sem incorrermos em\u00a0<i>spoiler<\/i>, o autor nos leva a conhecer os conflitos rotineiros que fortaleciam cada vez mais os coron\u00e9is.<\/p>\n<p>Quando o personagem Argemiro se rebela contra a realidade que ele pr\u00f3prio e suas fam\u00edlias viviam, rompendo com o coronel que herdou o poder por ser filho de Juvenal Meneghetti, \u00e9 que a realidade passa a extrapolar o razo\u00e1vel, revelando as malfazejas a\u00e7\u00f5es daqueles donos de terras, plantadores de cacau. No momento em que Argemiro, ap\u00f3s ruptura com seu chefe, se torna l\u00edder de bando, \u00e9 que ele passa a entender melhor as covardias dos coron\u00e9is a quem servira, as maldades das tocaias, os caxixes, as medidas dr\u00e1sticas contra os humildes trabalhadores, evidentes ainda a regra do armaz\u00e9m da fazenda, o tronco e a chibata usados contra os trabalhadores, os quais n\u00e3o tinham direito de possu\u00edrem qualquer tipo de propriedade, a exemplo da pr\u00f3pria casa e alguma terra para plantar e chamar de sua.<\/p>\n<h3><b>O AUTOR<\/b><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-6884\" src=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-3.jpg\" alt=\"\" width=\"351\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-3.jpg 765w, https:\/\/www.cacauechocolate.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/belmonte-3-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 351px) 100vw, 351px\" \/><\/p>\n<p>Roberto R. Martins, escritor, historicista, jornalista, \u00e9 natural de Ipia\u00fa, Bahia, tendo nascido na d\u00e9cada de 1940, per\u00edodo que antecedeu \u00e0 ditadura militar, a qual lan\u00e7ou o Brasil em intermin\u00e1veis transi\u00e7\u00f5es, levando o autor a despertar desde cedo a sua veia pol\u00edtica. Atualmente Martins reside em Eun\u00e1polis, onde se dedica aos seus neg\u00f3cios imobili\u00e1rios, \u00e0 escrita e \u00e0s vezes \u00e0 pol\u00edtica. Na d\u00e9cada de 1970, antes de se fixar no Sul da Bahia, foi opositor do\u00a0<em>regime militar<\/em>, sendo preso por suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Naquele per\u00edodo escreveu o livro \u201cLiberdade para os Brasileiros \u2013 anistia ontem e hoje\u201d em 1978. O livro\u00a0<b>\u201cClavinoteiros de Belmonte, uma hist\u00f3ria dos cangaceiros do cacau\u201d, lan\u00e7ado em 1\u00ba de mar\u00e7o,\u00a0<\/b>junta-se a outros t\u00edtulos, a exemplo de \u201cO Usur\u00e1rio\u201d, 1997; e \u201cO prefeito\u201d, 2018; e \u201cPorto Seguro: hist\u00f3ria de uma esquecida capitania\u201d, tamb\u00e9m em 2018.<\/p>\n<p>T\u00edtulo: \u201cCLAVINOTEIROS DE BELMONTE &#8211; Uma hist\u00f3ria dos cangaceiros do cacau\u201d &#8211; 2023<\/p>\n<p>Autor: Roberto R. Martins<\/p>\n<p>Editora: Mondrongo<\/p>\n<p>N\u00famero de P\u00e1ginas: 342<\/p>\n<p><i>*Lourival Jacome \u00e9 jornalista, copywriter, publicit\u00e1rio<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Lourival Jacome Primeiro evento do g\u00eanero na regi\u00e3o este ano, o escritor, historicista e jornalista Roberto R. 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