
Uma manifestação contra a política de preços da indústria moageira e a flexibilização das regras de importação de cacau reuniu cerca de dois mil produtores nesta quarta-feira (28), em frente ao Porto Internacional de Ilhéus. O ato foi liderado pela Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) e contou com a presença de representantes de associações e cooperativas das regiões sul e baixo-sul da Bahia. Compareceram à manifestação comitivas de cidades como Ilhéus, Itabuna, Coaraci, Itajuipe, Camacan, Arataca, Eunápolis, Una, Uruçuca, Itacaré, Gandu, Ubaitaba, Itapitanga, Ibirapitanga, Ubaitaba, Ubatã, Aurelino Leal, Itacaré, Venceslau Guimarães, Valença, Taperoá, Nilo Peçanha, Igrapiuna, Camamu, Jequié, Itagibá, Buerarema e Canavieiras.

Vanuza Barroso, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Cacau-ANPC destacou que “essa é uma demonstração da força do produtor. Esperamos que as lideranças políticas vejam a situação em que nos encontramos. Neste movimento não existe bandeira política, nosso partido é o cacau. Não queremos discursos, queremos ação e esse apoio tem que ser efetivo, já que o pequeno produtor é quem mais sofre com a queda nos preços. O controle rígido das importações de cacau da África e o fim dessa prática danosa que é o deságio são necessidades urgentes”.
O secretário Desenvolvimento Econômico e Inovação de Ilhéus, Paulo Ganem, ressaltou que “o cacau é a base da nossa economia, a alta momentânea dos preços em 2025 impactou positivamente toda a região, mas a queda vem gerando desemprego e desestimulo nas fazendas. Esse quadro atual só será resolvido com mobilização e ação política. Nenhum país do mundo produz cacau com a nossa qualidade e isso precis ser valorizado”.

Nos cartazes, palavras de ordem como “preço justo para o cacau e dignidade para quem produz”. Os produtores também criticam a Instrução Normativa (IN) nº 125/2021, do Ministério da Agricultura, que afrouxou as exigências fitossanitárias para a importação de amêndoas de cacau. Na avaliação dos cacauicultores baianos, o fim do tratamento obrigatório com brometo de metila em polos exportadores que atendem às indústrias instaladas no Brasil, como a Costa do Marfim, na África, aumenta o risco de chegada de pragas exóticas, a exemplo da Phytophthora megakarya, que causa a doença da vagem preta.

Cerca de 80% da produção de cacau no Sul da Bahia é de pequenos produtores agricultores familiares e assentados, que foram maioria na manifestação. Ednailton de Jesus da Associação Comunitária dos Agricultores Familiares da Laranjeira, com cerca de 200 famílias em Ibirataia, afirma que “nós estamos aqui para unir forças em defesa do cacau, porque são milhares de pessoas que dependem da lavoura e hoje o valor pago pelas indústrias não cobre nem os custos de produção”.

Já o pequeno produtor de Gandu, diz que “vamos mobilizar toda a região, porque nós temos que valorizar o nosso cacau e dizer não à importação e ao deságio. Queremos ter vez e voz, de maneira que os nossos agricultores sejam respeitados. Essa mobilização será permanente”.

Pela cotação internacional, que hoje varia em torno de 4.100 dólares por tonelada (cerca de R$ 21 mil), a arroba do cacau não poderia ser negociada por menos de R$ 320. No entanto, os produtores do sul da Bahia têm recebido cerca de R$ 200 por arroba. Aguido Muniz, um dos coordenadores do movimento SOS Cacau, lembra que “em 2012 desembarcou em Ilhéus com cacau africano e nessa carga foram encontradas pragas. Desde então essa tem sido uma luta permanente para barras as importações. Esse é uma manifestação dos produtores de toda a cadeia produtiva do cacau, sem bandeira partidária. Todos os que quiserem colaborar são bem vindos”.

O presidente da Cooperativa dos Cacauicultores do Sul da Bahia-Coopercabruca, Orlantildes Santos Pereira reforça que “trata-se de um movimento absolutamente necessário, porque só com essa demonstração de força e união poderemos sensibilizar as autoridades. Nosso clamor precisa chegar ao Governo Federal, para que a lavoura cacaueira seja valorizada e reconhecida”.
O presidente da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, Fausto Pinheiro, alertou para o
cenário de desânimo no campo diante da forte queda nos preços. De acordo com ele,
muitos produtores já enfrentam dificuldades para manter os tratos culturais e honrar
compromissos financeiros, o que pode levar ao abandono das lavouras. “Estamos
vivendo um momento crítico. Sem remuneração justa, não há como investir, produzir
com qualidade ou manter o homem no campo”, reforçou.

Enquanto a manifestação acontecia, um navio com cerca de 300 mil sacas de cacau africano permanência ancorado no Porto de Ilhéus. O protesto impediu o desembarque, pelo menos por um dia.

Veja o pronunciamento da presidente da ANPC, Vanuza Barroso
Veja as imagens aéreas de Zé Drone:






