
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

A crise da economia cacaueira brasileira não pode mais ser tratada como apenas mais um ciclo de mercado. Trata-se de um problema estrutural, profundo e persistente, que atravessa décadas e continua a penalizar, de forma desproporcional, o elo mais frágil da cadeia: o produtor rural.
A pergunta que precisa ser feita é simples e incômoda: que futuro queremos construir para o cacau no Brasil?
Com mais de 250 anos de história, o setor cacaueiro sempre esteve submetido a ciclos típicos de commodities, frequentemente amplificados por políticas cambiais e pela ausência de mecanismos de proteção ao produtor. Instituições como o Instituto do Cacau da Bahia e a CEPLAC tiveram papel decisivo na consolidação da atividade, mas sua atuação, ao longo do tempo, foi sustentada pelos recursos, pelo esforço, pela resiliência e pelo sacrifício dos próprios cacauicultores.

O produtor continua exposto à um conjunto de riscosque não controla: eventos climáticos extremos, pragas e doenças, volatilidade de preços, além da escassez de crédito, da fragilidade do seguro rural e da insuficiência da defesa fitossanitária. Enquanto isso, os elos mais organizados da cadeia conseguem proteger margens e repassar incertezas.
Essa assimetria não é apenas injusta, ela é economicamente insustentável. Não há cadeia cacau-chocolate resiliente quando a base produtiva opera no limite da sobrevivência.
A crise atual exige mais do que medidas emergenciais ou programas pontuais. O Brasil precisa, com urgência, de uma Política de Estado para o cacau, que reconheça sua relevância econômica, social e ambiental. O sistema agroflorestal cacaueiro, além de gerar renda e emprego, protege a Mata Atlântica e Floresta Amazônica, conserva a biodiversidade e contribui para o sequestro de carbono. Ativos estratégicos em um mundo que cobra sustentabilidade real, e não retórica.
O futuro do cacau não será definido apenas pelo mercado. Ele depende de visão estratégica, coordenação institucional e compromisso de longo prazo. Sem isso, continuaremos presos à um modeloque repete erros do passado e compromete o amanhã.
A responsabilidade agora é do poder público. O tempo de decidir é hoje.






