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Preço do cacau atinge o menor poder de compra em 50 anos

Givaldo Ferreira Couto

Introduzido no litoral sul da Bahia ainda no período colonial, o cacau, gradualmente, expandiu suas fronteiras, ocupando espaços nos vales e relevos da região, substituindo a cultura da cana-de-açúcar. O protagonismo da cacauicultura favoreceu o surgimento de uma classe social dominante, dotada de poder político e econômico, que inspirou personagens excêntricos retratados nos romances de Jorge Amado.

A pujança da cacauicultura garantiu à Bahia a liderança mundial na produção de amêndoas de cacau durante a década de 1960 e parte da década de 1970, conforme evidenciado na Tabela 1. Naquele período, a produção média brasileira atingiu 164.707 toneladas anuais, enquanto a Bahia produziu 156.672 toneladas, segundo dados do Ipeadata.

Em termos práticos, isso significava que cerca de 95% de todo o cacau brasileiro era produzido em território baiano, evidenciando o elevado grau de concentração regional da atividade. Em contraste, o estado do Pará registrava produção média de apenas 1.630 toneladas, participação próxima de 1% do total nacional, o que reforça a centralidade econômica da região cacaueira baiana no cenário produtivo do país.

Apesar do expressivo crescimento da produção brasileira de cacau ao longo de duas décadas, a Costa do Marfim, no mesmo período, passou a superar  significativamente o volume produzido pelo Brasil a partir da década de 1970, conforme demonstrado na Tabela 1, fundamentada em dados da FAOSTAT, com elaboração da FIESP/DEAGRO e adaptação do autor.

Entre os diversos segmentos econômicos, o cacau consolidou-se como o principal item da pauta de exportações do estado da Bahia, posição que manteve até perder progressivamente sua hegemonia e relevância diante do avanço das indústrias química, petroquímica e de transformação, no contexto do projeto desenvolvimentista.

A Tabela 2, adaptada a partir de Wilson Cano (1994) e baseada em dados de Lima e Queiroz (1996), apresenta a evolução da composição das exportações baianas, evidenciando a elevada participação do cacau, que alcança 62,82% em 1970 e permanece como principal segmento da pauta exportadora estadual até meados da década de 1980.

Tabela 2 – Composição percentual das exportações: principais segmentos na Bahia   (1965–1995)

Fonte: Lima e Queiróz (adaptada pelo autor)

Ainda segundo Wilson Cano, desde 1895 o cacau figurava, ao lado do açúcar, do fumo e do café, entre os principais produtos exportados pela Bahia. Entretanto, foi apenas a partir de 1925 que a cultura cacaueira consolidou sua liderança na pauta exportadora do estado.

Nos anos 1990, considerando a série histórica das cotações internacionais do cacau ao longo dos últimos cinquenta anos, verificou-se o menor patamar de preços, cuja média atingiu US$ 1.339 por tonelada, conforme dados da International Cocoa Organization (ICCO), sistematizados pela FIESP/DEAGRO ([s.d.]).

A força de trabalho constitui o principal componente de elevação dos custos de produção da cacauicultura, uma vez que a atividade depende intensivamente da utilização de trabalhadores na execução de diversas práticas agrícolas, como poda, desbrota, controle de plantas daninhas, combate a pragas, controle de doenças, colheita e beneficiamento ao longo de sua cadeia produtiva.

De acordo com dados do IPEADATA, o real manteve-se valorizado frente ao dólar ao longo da década de 1990, com a taxa de câmbio variando entre R$/US$ 0,6393 e R$/US$ 1,8302. Nesse contexto histórico e econômico, a cotação internacional do cacau na Bolsa de Nova York atingiu US$ 1.339 por tonelada, configurando-se como o menor preço registrado no período entre 1970 e 2025.

No Brasil dos anos 1990, o salário-mínimo no valor de R$ 100,00 equivalia aproximadamente a cinco arrobas de cacau. Atualmente, entretanto, um salário-mínimo corresponde a cerca de 12 arrobas, considerando o deságio praticado no mercado interno, ou aproximadamente sete arrobas quando desconsiderada essa redução de preço.

A paridade cambial observada nos anos 1990 ampliou a acessibilidade aos fertilizantes, cujos preços se mantinham relativamente menores, considerando que grande parte desses insumos é importada e diretamente influenciada pela variação do dólar. Nesse contexto, a cotação nominal de US$ 1.339 por tonelada de cacau, registrada naquele período, quando comparada à cotação recente de US$ 2.981 — acompanhada de deságio no mercado interno —, implicava menor custo de produção da commodity e maior poder de compra para os produtores.

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REFERÊNCIAS

 

CANO, Wilson. A evolução da economia da Bahia do século XVI ao século XX. In: TAVARES, Luís Henrique Dias (org.). História Econômica da Bahia. Salvador: EDUFBA, 1994

FIESP. Agronegócio do cacau no Brasil: produção, transformação e oportunidades. São Paulo: Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), [s.d].

IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. IPEADATA: Produção de cacau — Brasil. Dados provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Brasília, [s.d.]. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/Default.aspx. Acesso em: 4 mar. 2026. Acesso em: 3 mar. 2026.

IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Taxa de câmbio — R$/US$ comercial (compra), média anual (BM_ERC). Dados do Banco Central do Brasil — Boletim, Seção Balanço de Pagamentos. Brasília, [s.d.]. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx? Acesso em: 2 mar. 2026.

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