
A mobilização recente dos produtores de cacau no Brasil expôs um ponto que o setor empresarial conhece bem: crises revelam fragilidades, mas também criam janelas raras de oportunidade. O momento atual da cacauicultura brasileira não é apenas um problema conjuntural: é um teste de capacidade estratégica, coordenação institucional e visão de longo prazo.
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Os últimos sessenta dias mostraram que, diante de pressão extrema, os produtores brasileiros conseguem agir de forma coordenada. Isso contraria décadas de percepção sobre fragmentação e baixa articulação. Contudo, é essencial reconhecer: essa união surgiu como reação emergencial, não como um ativo estrutural. Se não for institucionalizada, desaparece na primeira recuperação de preços.
Durante a entressafra, muitos produtores seguraram estoques baseados em fundamentos históricos. A estratégia era racional. Mas o mercado respondeu de forma dura e assimétrica. A entrada de cacau importado da Costa do Marfim, combinada ao aumento dos deságios internos, funcionou como um choque que expôs a vulnerabilidade competitiva do produtor nacional diante da força de compra da indústria.
A indignação que se seguiu é compreensível. Mas, para o setor empresarial, mais relevante do que a reação é um diagnóstico claro do problema: o Brasil ainda não possui uma governança capaz de alinhar produção, indústria, logística, padrões de qualidade e inteligência de mercado.
Protestos geram visibilidade, mas não criam competitividade. Competitividade exige sistema, não reação.
O cenário global reforça a urgência. A hegemonia da África Ocidental começa a se reconfigurar. O consumo mundial cresce de forma consistente, impulsionado por renda e demografia. Há espaço objetivo para novos players.
O Brasil tem condições reais de disputar esse espaço:
- mercado interno
- capacidade industrial instalada
- base agrícola sólida
- conhecimento técnico robusto
Mas falta o componente que diferencia países que lideram cadeias globais: coordenação estratégica capaz de transformar vantagens potenciais em liderança efetiva.
Enquanto isso, nossos concorrentes regionais avançam com foco e disciplina. O Equador já é potência exportadora consolidada. O Peru cresce rápido. O Brasil corre o risco de perder relevância justamente no momento em que o mercado global se reorganiza.
Para executivos, investidores e formuladores de política, a mensagem é clara: cada hectare de cacau no Brasil deve ser tratado como um ativo estratégico em uma cadeia global dolarizada, não como uma atividade agrícola isolada.
Essa mudança de mentalidade é essencial para superar um ponto crítico: a relação entre produtor e indústria. Não se trata de definir inimigos ou aliados, mas de reconhecer que há interesses distintos, estruturas de poder diferentes e uma assimetria que precisa ser tratada com profissionalismo, dados e negociação madura.

O momento é desafiador em todos os elos da cadeia. A produção sofre com renda comprimida. A indústria enfrenta estoques elevados e demanda incerta. A conjuntura é desconfortável, mas também é um ponto de inflexão. Ou o setor produtivo se reorganiza agora, ou perderá mais uma década.
Políticas públicas podem mitigar impactos no curto prazo, mas não substituem a necessidade de uma estratégia nacional. A experiência internacional mostra isso de forma inequívoca: a Holanda lidera o processamento global sem produzir cacau. O Brasil poderia ampliar sua posição industrial no ranking mundial, mas precisa enfrentar entraves logísticos, tributários e regulatórios que hoje limitam sua competitividade.
A pressão adicional trazida por acordos comerciais, como o entre União Europeia e Mercosul, exige preparo. A concorrência aumentará, independentemente da vontade dos atores domésticos.
Por isso, a questão central para o setor empresarial não é como recompor preços no curto prazo. A pergunta real é estratégica:
O Brasil pretende ocupar um papel de liderança global na cadeia cacau–chocolate, ou continuará reagindo de forma fragmentada a cada ciclo de crise?
A energia que hoje mobiliza protestos pode, e deve, ser convertida em estrutura competitiva:
- padronização de qualidade
- verticalização inteligente
- cooperativas robustas com governança moderna
- dados de mercado consolidados
- canais diretos de comercialização
- inovação comercial
- eficiência logística
O cacau tem mercado. Tem demanda. Tem espaço para crescimento. Mas o protagonismo só virá quando o setor assumir que competitividade global é fruto de gestão contínua, profissionalismo e o poder de alinhamento com os elos da cadeia produtiva cacau-chocolate-floresta.






