
A Associação Nacional dos Produtores de Cacau-ANPC, emitiu nota questionando a posição da Associação Nacional das Indústrias Processadores de Cacau-AIPC, que alega, entre outras coisas, que a importação de cacau africano não impacta os preços do produto brasileiro.
Veja a nota da ANPC:
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A recente manifestação da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) busca justificar a importação de amêndoas como uma necessidade estratégica. No entanto, os dados objetivos do setor revelam um cenário distinto daquele apresentado no discurso institucional.
Enquanto a indústria fala em “diálogo” e “interdependência”, o produtor brasileiro enfrenta um deságio que, em determinados períodos, ultrapassa US$ 500 por tonelada em relação à cotação da Bolsa de Nova York (ICE), mesmo ofertando uma das amêndoas mais sustentáveis do mundo, produzida sob rigorosa legislação ambiental e trabalhista.
Em 2025 o deságio ficou entre -2500,00 e -900,00 agora em 2026 está -900 -800.
- O paradoxo do deságio: se falta produto, por que o preço cai?
A tese da escassez é economicamente incompatível com a realidade dos preços internos. Nas safras 2024/2025, o Brasil apresentou volumes relevantes de produção ao mesmo tempo em que o deságio pago ao produtor permaneceu elevado.
Em um mercado funcional, a falta de produto resulta em ágio (premium) para garantir o abastecimento. O que ocorre no Brasil é o inverso: a importação é calcilada para além da moagem a ser realizada; visando neutralizar a valorização do cacau nacional, preservando margens industriais à custa do produtor.

- Produção versus moagem: o mito do déficit
A produção brasileira de cacau está projetada entre 280 mil e 295 mil toneladas anuais, enquanto a moagem histórica da indústria oscila entre 220 mil e 250 mil toneladas.
Esses números colocam o Brasil no patamar técnico de autossuficiência em grande parte dos ciclos produtivos. O debate não é sobre incapacidade de produzir, mas sobre excesso de capacidade industrial instalada e uso estratégico da importação como instrumento de formação de preços.

- Regime Drawback: estoque não é urgência
O funcionamento do regime de drawback desmonta o argumento da necessidade emergencial. A legislação permite que o cacau importado seja utilizado por até 24 meses após a exportação do produto final, sem qualquer exigência de consumo imediato.
Seis meses de estoque seriam suficientes para atravessar eventuais oscilações de oferta. Dois anos caracterizam outra coisa: estratégia de mercado, utilizada como âncora de preços para pressionar o valor pago ao produtor brasileiro, especialmente durante a safra.
- Menos moagem no Brasil não é coincidência
Dados divulgados pela própria indústria indicam que a moagem de cacau no Brasil recuou cerca de 14,6%, enquanto a retração registrada na Europa foi de aproximadamente 8,3% no mesmo período.
A diferença é expressiva demais para ser atribuída apenas à desaceleração global da demanda. Ela aponta para uma compressão deliberada da demanda doméstica por amêndoas nacionais, ampliando estoques no campo e forçando o escoamento da produção a preços inferiores aos do mercado internacional.

- Capacidade ociosa no campo e o efeito do dumping indireto
Existe capacidade produtiva ociosa relevante no campo, especialmente no Sul da Bahia e em outras regiões tradicionais. Áreas deixam de ser manejadas adequadamente, investimentos são postergados e parte do cacau sequer é colhida porque o preço imposto não cobre os custos de produção.
Estimativas técnicas indicam que, com remuneração justa e previsível, o Brasil poderia elevar sua produção em cerca de 20% no curto prazo, apenas com recuperação de áreas já produtivas. O problema não é técnico nem climático — é econômico. O dumping indireto via importação desestimula a produção (e até colheita) nacional e perpetua uma dependência artificial do produto externo.
- Rastreabilidade seletiva e a contradição do discurso ESG
Cerca de 70% do cacau mundial é produzido em países da África Ocidental, onde o preço é tabelado por estruturas estatais e há recorrentes alertas internacionais sobre desmatamento, restrições à liberdade econômica e condições precárias de trabalho.
Pessoas são presas e cooperativas fechadas apenas por não vender seu fruto ao Estado.
É contraditório exigir do produtor brasileiro padrões rigorosos de rastreabilidade, certificação ambiental e conformidade social, enquanto esses critérios são relativizados na importação. Sustentabilidade não pode ser seletiva. Se é princípio, deve valer para todos.

- Renúncia fiscal e o sacrifício do elo que mais gera empregos
Além do impacto sobre os preços pagos ao produtor, a política de importação via drawback impõe um custo relevante ao próprio Estado brasileiro. Considerando os volumes médios importados, os preços internacionais e os tributos federais isentos (Imposto de Importação, PIS, COFINS e IPI), estima-se que o Brasil deixe de arrecadar entre R$ 260 milhões e R$ 400 milhões por ano com a importação de cacau em amêndoas.
Essa renúncia fiscal ocorre à custa do setor que mais gera empregos na cadeia: a cacauicultura brasileira sustenta mais de 1 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos, majoritariamente em regiões de baixo IDH e forte dependência da renda rural.
A pergunta que se impõe é simples e legítima: por que o elo que mais gera emprego, renda local e preservação ambiental deve ser sacrificado para sustentar margens industriais beneficiadas por isenção tributária?
Conclusão: sustentabilidade exige paridade, coerência e justiça econômica
A sustentabilidade da cadeia do cacau no Brasil não será construída por meio de notas oficiais que relativizam distorções evidentes do mercado. Ela exige paridade real com a Bolsa internacional, previsibilidade, respeito à sanidade vegetal e coerência fiscal.
O produtor brasileiro não pede protecionismo. Pede jogo limpo, remuneração justa e políticas públicas que reconheçam quem sustenta a base produtiva, social e ambiental do setor.
Interdependência verdadeira não se afirma em discurso — ela se comprova no preço pago a quem planta, cuida e sustenta o cacau brasileiro.
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Associação Nacional dos Produtores de Cacau – ANPC






