Viva a Cabruca!
Antonio Maia
O nome é engraçado, sonoro, com quê de palavrão, quase um abracadabra: cabruca…
“E a floresta se abriu para os frutos de ouro.”
Ela é considerada o melhor sistema agrícola desenvolvido pelo homem ao longo de sua evolução.
A origem de sua implantação remonta aos nossos colonizadores pioneiros do sul da Bahia. Foram muitas tentativas e erros com cana-de-açúcar, café, mandioca etc., e quase desistiram dessa capitania hereditária inóspita chamada São Jorge dos Ilhéus.
Portanto, essa foi uma das últimas capitanias a ser colonizada produtivamente.
Primeiro, porque enfrentaram os índios tupinambás, resistentes à nova ordem econômica — bravios e antropófagos — que literalmente comeram o primeiro donatário. Depois, tiveram que encarar uma floresta fechada, similar à amazônica, com inúmeras doenças difíceis de lidar, além de animais peçonhentos: várias espécies de cobras venenosas, escorpiões, vespas, abelhas, insetos transmissores da febre amarela, onças, chuvas torrenciais contínuas etc.
Assim mesmo, e apesar de tudo, esses desbravadores não esmoreceram e, já no final do século XVIII, encontraram uma forma estratégica, harmoniosa e sustentável de interagir, gerando riqueza numa relação simbiótica com a floresta, por meio do cacau plantado em um sistema agrícola denominado cabruca.
Provavelmente fomos a última capitania a dar retorno econômico ao projeto colonial e, por isso mesmo, não tivemos senzalas nem a mácula predominante do trabalho escravo em larga escala na fase áurea do cacau. Só despontamos economicamente após a Abolição, já na República Velha, com o trabalho assalariado e os “títulos de coronéis”.
O cacaueiro é uma planta florestal espontaneamente originária da Amazônia, que encontrou na Mata Atlântica do sul da Bahia um habitat natural similar, ideal para florescer — não apenas pelas condições naturais de vegetação e clima, mas, principalmente, porque inicialmente não havia ali os predadores e as doenças endêmicas que assolavam sua região de origem.
Quando se plantavam roças formadas por vários indivíduos da mesma espécie juntos, as doenças se propagavam e contaminavam tudo.
Assim, no início do século XX, chegamos a nos tornar o maior produtor de cacau do mundo. Por mais de 100 anos, a cacauicultura foi o maior sustentáculo do orçamento do Estado da Bahia, suprindo a defasagem provocada pela decadência da cana-de-açúcar, que já vinha em crise prolongada desde o início da produção nas Antilhas.
Contribuímos muito com as divisas geradas pela exportação do cacau para a industrialização da Bahia e do Brasil.
Agora, mais do que nunca, neste momento de alterações climáticas e aquecimento global provocado pelo excesso de emissão de carbono na atmosfera, precisamos valorizar a cabruca, remunerando melhor o produtor de cacau florestal, que presta um enorme serviço ambiental ao planeta.
Ao resgatar carbono e adotar um modelo produtivo regenerativo e sustentável, a cabruca torna-se exemplo a ser seguido, evidenciado e exportado para o mundo. Seu principal componente é a preservação: a valorização produtiva dos ecossistemas e biomas, respeitando a biodiversidade da fauna e da flora e gerando riquezas diversas por meio da reciclagem de nutrientes das espécies interligadas em um sistema de equilíbrio autossustentável.
Viva a cabruca!
Verdadeiro modelo para a agricultura mundial!






