
Givaldo Ferreira Couto

Em 1986, a Bahia alcançou o maior volume de produção de cacau de sua história, com 395.486 toneladas (IPEAData), mantendo o Brasil na segunda posição entre os principais produtores mundiais. No entanto, já no ano seguinte, 1987, um período de estiagem registrado no litoral sul da Bahia coincidiu com uma queda acentuada da produção, que recuou para 269.890 toneladas, correspondendo a uma redução aproximada de 32%.
Em 1989, a vassoura-de-bruxa foi identificada no Litoral Sul da Bahia em meio a um cenário econômico desolador e caótico, marcado pela hiperinflação que culminaria na deflagração do Plano Collor. Considerado um dos mais drásticos planos econômicos da história do país, que estabeleceu o confisco das poupanças e o congelamento de preços, entre outras medidas destinadas a conter a escalada inflacionária. Naquele contexto, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 82,39% no mês de março de 1990, com índice acumulado de 6.390,52% nos doze meses anteriores (IBGE).
Quando a doença causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa se instalou no território baiano, a produção de amêndoas de cacau alcançava cerca de 330.751 toneladas (Tabela 1), segundo dados do IPEAData. Ainda assim, durante os nove primeiros anos após sua ocorrência a cacauicultura manteve uma produção média anual próxima de 241.000 toneladas.
Tabela 1: Produção de cacau na Bahia após a safra recorde de 1986
| Ano | Evento | Produção (tonelada) |
| 1986 | Pico produtivo | 395.486 |
| 1987 | Período de estiagem | 269.890 |
| 1989 | Primeiros registros da vassoura-de-bruxa | 330.751 |
| 1994 | Implantação do plano real | 271.889 |
| 2017 | Menor produção registrada | 106.246 |
| 2024 | Produção recente | 137.028 |
Fonte: elaboração própria com base em dados do IPEAData
Ao longo da década de 1990, o Brasil conviveu com quatro diferentes moedas, culminando com a implantação do real em 1994, após um período em que a inflação anual ultrapassou 2.500%. Paralelamente, o cacau atingiu a mais baixa cotação internacional dos últimos cinquenta anos, chegando a US$ 1.339 por tonelada como valor médio na década de 1990, segundo dados da International Cocoa Organization (apud FIESP, s.d.). A cotação internacional de cacau em dólares por tonelada era equivalente a cerca de R$ 1.339,00 (mil trezentos e trinta e nove reais) conforme o câmbio, então, vigente naquele período.
Diante desse conjunto de fatores econômicos produtivos e simultâneos, torna-se necessário reavaliar a interpretação que atribui exclusivamente à vassoura-de-bruxa a crise da cacauicultura baiana. Múltiplos fatores favoreceram a disseminação da vassoura-de-bruxa nos cacauais do sul da Bahia em um período no qual a arroba do cacau era comercializada em torno de R$ 20,00 (vinte reais), refletindo a baixa cotação internacional na Bolsa de Valores de Nova York e a paridade cambial observada nos anos 1990, quando o dólar chegou a valer pouco menos que um real (IPEAData).
A conjugação de fatores negativos gerou desestímulo à atividade produtiva e, possivelmente, desencadeou impactos psicossociais, como desesperança, depressão e ansiedade, que podem ter influenciado o comportamento de parte dos produtores, levando-os ao abandono parcial das lavouras e à redução das práticas necessárias para o aumento ou a estabilidade da produção. A hiperinflação, por sua vez, não assegurava ao setor primário a manutenção do poder de compra, pois os custos de produção se alteravam diariamente, enquanto o preço do cacau era definido no mercado internacional, por meio das bolsas de mercadorias, sem acompanhar a dinâmica inflacionária interna.
Múltiplos fatores impactaram a crise da cacauicultura, não apenas a vassoura-de-bruxa, detectada muitas vezes em estágio avançado de esporulação, quando deviam ser removidas ainda verdes, na fase inicial, em algumas roças em processo de abandono. A crise do cacau na Bahia não foi causada exclusivamente pela doença vassoura-de-bruxa; quando o patógeno chegou, a atividade já apresentava sinais claros de colapso produtivo, econômico e estrutural.
No entanto, consolidou-se ao longo do tempo uma narrativa recorrente que atribui à vassoura-de-bruxa a condição de causa única da crise da cacauicultura baiana. Essa interpretação tende a desconsiderar fatores climáticos e econômicos que atuaram em fases distintas do processo produtivo: a estiagem, antecedendo a redução da produção, e as condições econômicas adversas, prolongando e aprofundando a crise ao longo dos anos seguintes.
A produção de cacau na Bahia, em 2017, foi a menor registrada nos últimos 75 anos. Essa frustração de safra dificilmente pode ser atribuída exclusivamente a uma doença fúngica após 28 anos de sua ocorrência, período no qual produtores e trabalhadores da cadeia produtiva do cacau já haviam incorporado conhecimentos relacionados ao manejo integrado da doença, incluindo medidas profiláticas, culturais e químicas, além da adoção de clones de alta produtividade e maior resistência ao patógeno.

Enquanto, na Bahia, produtores e autoridades lamentavam e apontavam, nos meios de comunicação, a vassoura-de-bruxa como a única responsável pela decadência da produção de cacau, o Estado do Pará passou a liderar o ranking nacional como maior produtor de cacau, alcançando rendimento médio de 841 kg por hectare, resultado da implementação de políticas públicas e do planejamento de ações estratégicas com metas e objetivos bem definidos.
A trajetória recente da cacauicultura brasileira evidencia dinâmicas regionais contrastantes. O estado do Pará, atualmente com maior produção brasileira de cacau e produtividade média de 841 kg/ha, (IBGE, 2025) ampliou sua produção em mais de 300% nas últimas décadas. O volume produzido evoluiu de 28.669 toneladas em 1989 para 116.358 toneladas em 2017, segundo dados do IPEAData. Em sentido oposto, a Bahia registrou expressiva retração no mesmo período: a produção, que alcançava 330.751 toneladas em 1989, foi reduzida para 106.246 (IPEAData) toneladas em 2017, correspondendo a uma queda aproximada de 70%.
A eficiente evolução do volume de produção de amêndoas de cacau deve-se a um esforço conjunto de agentes políticos e sociais que juntos elaboraram o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau no Pará (PRODECACAU) publicado em 2011 pela Secretaria de Agricultura do Estado (SAGRI/PA) à época.
A implementação de políticas públicas estruturadas, desenvolvidas em parceria com instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento — CEPLAC, EMATER, SENAR, OCB, UFRA, UFPA, FAEPA, FETAGRI, FETRAF, TNC e SOLIDARIEDADE — contribuiu decisivamente para a consolidação da cacauicultura paraense. A articulação institucional promoveu assistência técnica contínua, difusão de tecnologias produtivas e fortalecimento organizacional dos produtores, fatores que favoreceram a expansão da atividade e elevaram o rendimento médio estadual para 841 kg/ha, valor 163,6% superior à produtividade média de 319 kg/ha registrada na Bahia (IBGE, 2025).
Esse conjunto de ações evidencia o papel das políticas públicas e do suporte institucional na construção da atual relevância socioeconômica da cacauicultura no Pará, indicando que o desempenho produtivo regional resulta não apenas de condições naturais, mas também de estratégias coordenadas de desenvolvimento agrícola.
REFERÊNCIAS
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. IPEADATA: produção de cacau – Brasil. Dados provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Brasília, [base de dados online]. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/Default.aspx. Acesso em: 26 mar. 2026.
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. IPEADATA: taxa de câmbio dólar comercial para compra – média (GM366_ERC366) – Brasil. Dados provenientes do Banco Central do Brasil (Bacen/SGS). Brasília, [base de dados online]. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=38590&module=M. Acesso em: 26 mar. 2026.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produção Agrícola Municipal – PAM 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ba/pesquisa/15/11863. Acesso em: 27 mar. 2026.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA): série histórica. Rio de Janeiro: IBGE, [base de dados online]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 28 mar. 2026.
FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP).
Agronegócio do cacau no Brasil: produção, transformação, oportunidades. São Paulo: FIESP, [s.d.].






