
Em meio a um cenário de incertezas, redução de investimentos públicos e fragilidade na assistência técnica rural, uma iniciativa tem avançado de forma consistente e quase discreta, promovendo transformações profundas na cacauicultura brasileira. Trata-se do Projeto Cacau 500, uma proposta técnica que vem sendo apontada por produtores como uma verdadeira “revolução silenciosa” no campo.

Liderado pelos agrônomos Ivan Costa e Sousa e Rosenilton Klecius, o projeto nasceu sem grandes aportes financeiros, sem patrocínio governamental robusto e à margem das principais estruturas institucionais. Ainda assim, alcançou um feito expressivo: impactar diretamente e indiretamente mais de 30 mil pessoas, difundindo um modelo produtivo que já atinge a marca de 500 arrobas por hectare.

A base técnica do projeto não surgiu do acaso. Ela se apoia em décadas de pesquisa acumulada pela CEPLAC, instituição que, ao longo de quase 70 anos, construiu o alicerce científico da cacauicultura nacional. No entanto, com o enfraquecimento das políticas públicas de pesquisa e extensão rural, muito desse conhecimento ficou distante do produtor — lacuna que o Cacau 500 busca preencher.
Um modelo que dialoga com a agricultura familiar

Ao contrário de críticas iniciais, o projeto tem demonstrado forte aderência à agricultura familiar, responsável por cerca de 97% da produção de cacau no Brasil. A proposta técnica, baseada em sistemas agroflorestais (SAFs), combina produtividade com sustentabilidade, promovendo diversificação de renda e maior resiliência ambiental.
Nesse modelo, o cacau deixa de ser apenas uma commodity e passa a integrar um sistema mais amplo, com potencial para agregação de valor. A verticalização da produção — da amêndoa ao produto final — surge como estratégia central para ampliar a rentabilidade do produtor.

Um paradoxo nas políticas públicas
O avanço do Projeto Cacau 500 também expõe um paradoxo estrutural: a desconexão entre pesquisa e extensão rural. Especialistas envolvidos na iniciativa defendem que, sem essa integração, programas governamentais tendem a perder eficácia.
Ainda assim, sinais de aproximação começam a surgir. Um dos primeiros reconhecimentos institucionais veio por meio do Programa Manoel Quirino, do Ministério do Trabalho, em parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), que prevê o atendimento a cerca de 500 produtores no sul da Bahia.
Um movimento técnico, não político

Apesar de sua expansão e impacto, os idealizadores fazem questão de destacar: o Projeto Cacau 500 não é um movimento político, mas técnico. Sua força está na prática, na entrega direta ao produtor e na confiança construída ao longo do tempo.
Sem financiamento de grandes instituições financeiras ou empresariais, o projeto se sustenta essencialmente na credibilidade de seus resultados e no engajamento dos produtores que adotaram o modelo.
Próximo encontro já tem data

O crescimento do movimento poderá ser observado no próximo grande evento do setor: o IV Encontro Nacional do Projeto Cacau 500, previsto para acontecer em dezembro, no município de Ilhéus, um dos berços históricos da cacauicultura brasileira.
Mais do que um encontro técnico, o evento deve consolidar um debate cada vez mais urgente: como transformar conhecimento acumulado em resultados concretos no campo, garantindo produtividade, sustentabilidade e dignidade para quem vive da terra.

Em um país onde políticas públicas muitas vezes não alcançam a ponta, o Projeto Cacau 500 revela que soluções podem emergir de onde menos se espera — silenciosas, porém profundamente transformadoras.
(Fotos Divulgação)






