
Antonio Maia
Dizem que falta cacau no Brasil. Dizem que a produção nacional não atende ao consumo interno. Dizem que é preciso importar. E agora dizem mais: que, mesmo importando, a indústria opera com 30% de ociosidade — e que, se o país “criar problemas”, ela pode ir embora.
É preciso parar e olhar com atenção. Porque algo não fecha.
Se falta cacau, se a demanda é maior que a oferta, se a indústria está ociosa… por que o preço pago ao produtor continua abaixo do mercado internacional? Essa é a pergunta que desmonta o discurso.
Em qualquer economia minimamente equilibrada, escassez eleva preço. Capacidade ociosa pressiona por compra. Demanda firme valoriza quem produz. Mas aqui, não.
Aqui, o produtor vê o oposto: quanto mais se fala em falta de cacau interno, mais se convive com deságio. Isso não é lógica de mercado. É lógica de poder.
O produtor brasileiro não está diante de um mercado aberto, mas de um sistema concentrado, onde poucos compram e muitos precisam vender. E quem precisa vender, aceita.
A importação entra como argumento, mas também como instrumento: não apenas para suprir, mas para conter o preço.
E então surge a ameaça industrial: a indústria pode sair.
Mas quem está com 30% de ociosidade não está em posição de sair — está em posição de dependência. Depende de cacau. Depende de origem. Depende de um mercado consumidor robusto como o brasileiro — o quarto maior consumidor de cacau e derivados do mundo.
Sair não é simples. Sair não é rápido. E, sobretudo, sair não é neutro. O Brasil não é apenas um fornecedor. É território estratégico.
Por isso, é preciso dizer com serenidade e firmeza: não há coerência em afirmar escassez e praticar deságio. Não há força em ameaçar quando se está ocioso.
O que existe hoje não é falta de mercado. Nunca foi. O que existe é uma estrutura desenhada para gerar ganhos exponenciais à indústria, enquanto comprime o valor de quem produz.
Mas isso começa a mudar. Quando o produtor compreende a lógica, ele deixa de aceitar a narrativa. E quando a narrativa perde força, o equilíbrio começa a se reconstruir.
O cacau brasileiro não é problema. Nunca foi. É parte da solução. E quando essa verdade se impõe, não há ameaça que sustente o desequilíbrio.
Avante ANPC.






