Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Há 40 anos (1985/86), ocorreu a maior safra produzida pelo Brasil, seguida pela chegada da vassoura-de-bruxa (1989) e pela menor produção em 2003.
Pela primeira vez (2026), houve uma união dos produtores de cacau no país. Sem dúvida, a comunicação instantânea e as redes sociais têm estimulado os movimentos da base produtiva dessa cadeia.
O momento é único. A pergunta é inevitável: o que vamos fazer quando esse movimento parar? As possíveis ações governamentais resolverão os problemas? O que se fará no dia seguinte?
Como produtor e observador da economia do cacau, a constatação é direta: é preciso pensar a cadeia do cacau-chocolate com urgência, partindo de dois pontos centrais:
1) O governo não soluciona questões de mercado.
2) Há um descompasso estrutural entre o tempo da lavoura e o tempo das bolsas.
É necessário romper o paradigma do cacau como commodity. Pensar o cacau como alimento.
Sem um plano estratégico, não haverá mudança relevante no Brasil.
A região cacaueira do Sul da Bahia reúne, de forma rara, todas as condições para essa transformação:

- Base produtiva
- Indústria processadora
- Centros de pesquisa e universidades
- Inteligência setorial
- Logística: estradas, aeroporto e porto
Tudo está posto.
A pergunta, portanto, não é estrutural. É organizacional.
Falta comunicação? Falta diálogo? Faltam objetivos? Faltam lideranças? Falta governança?
O momento exige mais do que mobilização. Exige coordenação.
Um plano de longo prazo, com metas claras, recursos definidos e responsabilidade compartilhada. Um objetivo central: sustentabilidade econômica, social e ambiental.
O Estado deve atuar como mediador, não como solução.
A cadeia é interdependente: os chocolateiros precisam das processadoras; as processadoras precisam dos produtores; os produtores precisam vender seu cacau.
A utopia necessária não é ingênua. É estratégica.
O futuro passa por uma escolha simples e difícil ao mesmo tempo: união e diálogo.
Na construção de uma cadeia integrada de cacau-chocolate-floresta.
O planejamento, a ação e o controle na cadeia fazem-se necessários, e os resultados, a médio e longo prazo, serão positivos, tendo em vista que a geografia da produção mundial de cacau já está mudando, com a redução da produção na África Ocidental e o aumento da produção na América do Sul.
O Brasil poderá ser o líder global no processamento de cacau e na produção de chocolate.
Com esse cenário promissor, todos os atores da cadeia tendem a ganhar e, por consequência, o país terá mais divisas, além de geração de empregos e renda.






