WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia
DestaquesGeral

Cacau brasileiro: riqueza produzida, valor exportado

Por Antonio Carlos Magnavita Maia
Médico e Cacauicultor

 

Senhoras e senhores,
vou começar com um número que deveria nos indignar:
quase 2 bilhões de reais deixaram de circular na Bahia e no Brasil por causa do deságio do cacau.
Dois bilhões.
Dinheiro que não chegou ao produtor.
Que não movimentou o comércio.
Que não gerou emprego.
Que não virou investimento.
Dinheiro que simplesmente evaporou da nossa economia — ou melhor, foi drenado dela.
Porque o deságio não é apenas um número técnico.
Ele é um mecanismo de transferência de riqueza.
Uma engrenagem silenciosa que retira valor da base produtiva e o concentra em outros elos da cadeia — muitas vezes fora do país.
Enquanto o produtor assume o risco — o clima, a praga, o custo, o financiamento — outros capturam o valor.
E o mais grave: o Estado também perde.
Perde arrecadação.
Perde circulação econômica.
Perde capacidade de investimento em saúde, educação e infraestrutura.
Cada real que deixa de ser pago corretamente ao produtor é um real a menos girando na economia brasileira e um real a mais fortalecendo estruturas externas à nossa realidade.
Isso não é mercado livre. Isso é distorção.
Isso não é eficiência. Isso é assimetria de poder.
E o Brasil — maior produtor de cacau ecológico do mundo, com um sistema agroflorestal sustentável, resiliente e reconhecido — segue aceitando vender com desconto aquilo que o mundo paga prêmio.
Por quê?
Porque ainda operamos como exportadores de matéria-prima, e não como uma cadeia organizada, estratégica e soberana.
A conta é simples:
produzimos riqueza aqui e exportamos valor lá fora.
Chegou a hora de inverter essa lógica.
Fortalecer o produtor. Valorizar a qualidade. Estruturar a comercialização. Desenvolver a indústria nacional. Consolidar o mercado interno.
Transformar cacau em chocolate aqui. Transformar produção em prosperidade aqui.
Porque não se trata apenas de agricultura. Se trata de um projeto de país.
O cacau pode — e deve — ser vetor de desenvolvimento, de geração de renda, de equilíbrio ambiental e de soberania econômica.
Mas, para isso, precisamos romper com velhos padrões.
Chega de aceitar o deságio como inevitável. Chega de naturalizar a perda. Chega de assistir passivamente à sangria da nossa riqueza.
Chega de deságio e exportação de capital para matrizes.
Já deixamos, há muito, de ser colônia.
A pergunta que permanece é simples — e incômoda: será que ainda estamos agindo como tal?

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Botão Voltar ao topo