Mulheres em Domínio Público e Félix Robatto lançam projeto que aproxima ritmos da Bahia e da Amazônia

Conexão Bahia-Pará é o resultado de um encontro entre a musicalidade feminina do sul da Bahia e a força criativa da Amazônia. O projeto reúne a banda de Ilhéus(BA) Mulheres em Domínio Público, e o guitarrista, percussionista, pesquisador e produtor musical, Félix Robatto, de Belém (PA), que cocriaram duas releituras de domínio público para homenagear a compositora Chiquinha Gonzaga e os trabalhadores de roças de cacau.
No lançamento musical, a faixa Ó Abre Alas/Corta-jaca mistura ritmos paraenses, a guitarrada e referências da percussão afro-baiana. Já em “Cacau é boa lavra”, o carimbó inspira a nova experiência de escuta desse canto originalmente cantado sem acompanhamento nas roças de cacau sul baianas, durante o trabalho do cultivo do fruto. Esse diálogo artístico conectou simbolicamente a Mata Atlântica e a Amazônia, unindo artistas oriundos dos dois maiores estados produtores de cacau do Brasil. As músicas já estão disponíveis nas principais plataformas.
Duas experiências artísticas, dois territórios
Criada em Ilhéus, em 2011, a banda Mulheres em Domínio Público tornou-se referência ao transformar cantos de trabalho da lavoura cacaueira — entoados durante a colheita, a quebra e a pisa do cacau — em arranjos contemporâneos, além de revisitar cantos de lavadeiras e carpideiras. Em 2024, seu trabalho foi consultado pela produção da TV Globo para a pesquisa musical que compôs cenas do remake da novela Renascer.
“Conheci o trabalho de Félix durante as lives na pandemia. Em 2023, numa viagem ao Pará, o vi tocar pessoalmente. Foi uma oportunidade de ver de perto a força daquela cena musical que trazia pessoas de todas as idades para a pista de dança, atraídas pelo carimbó, pela guitarrada. Em 2025, inscrevemos o projeto via Política Nacional Aldir Blanc e foi possível trabalharmos juntos num novo lançamento. Com o auxílio da tecnologia, trocamos referências, gravamos as vozes em Ilhéus e ele produziu a música em seu estúdio, em Belém. Foi um processo bonito essa nossa primeira parceria com um artista de outro estado”, conta Tacila Mendes, cantora e uma das fundadoras da banda.
Para Cris Passos, “gravar essas músicas foi um mergulho profundo nas nossas raízes e uma verdadeira celebração da identidade cultural que nos une. Esse projeto nasceu do desejo pulsar junto, conectando a força ancestral da Bahia com a energia vibrante do Pará em um intercâmbio sonoro inesquecível. O processo de cocriação de afeto, respeito e sinergia, e o resultado não poderia ser diferente: entregamos faixas que transbordam ritmo, calor e a nossa verdade mais bonita”, conta a cantora e também fundadora da banda.
Félix Robatto, que assina a produção musical do projeto, é um dos responsáveis por apresentar ao mundo a chamada “guitarrada progressiva”, vertente que dialoga com ritmos amazônicos, latino-americanos e experimentações contemporâneas. Sua carreira é marcada também pela produção musical e direção do álbum Tecnoshow, de Gaby Amarantos, que venceu o Grammy Latino de 2023 na categoria de Melhor Álbum de Música Raiz em Língua Portuguesa. Seu Pupuña Estúdio tornou-se referência na produção da música latino-amazônica.
“Quando eu fui chamado para fazer esse trabalho, fiquei muito animado musicalmente e também pela minha história. Tenho família na Bahia, minha família paterna é toda da Bahia, tem gente em Alagoinhas, Salvador. Então, foi bem empolgante esse trabalho. Misturar as culturas, os ritmos, os batuques, os sotaques, foi muito interessante, e falando sobre o cacau que foi um tema em comum das duas regiões. Fiquei muito feliz, não encarei como um desafio, mas como uma pesquisa, um exercício de praticar um elo entre as culturas, entre as músicas, de conhecer e de ouvir coisa nova. Foi um grande aprendizado colaborar com esse trabalho”, conta Félix.
Releituras de domínio público
O projeto “Conexão Bahia-Pará” fortalece o caráter vivo das obras em domínio público. Para isso, homenageia Chiquinha Gonzaga, uma das figuras mais importantes da música brasileira, unindo em uma só faixa duas de suas músicas – a primeira marchinha de carnaval “Ó Abre Alas”, e um trecho da primeira música de maxixe executada no Palácio do Catete, quebrando o protocolo da República Velha, a chamada “Corta-jaca”.
Na segunda faixa, uma nova releitura de “Cacau é boa lavra” – uma canto popular – ganha instrumentos presentes nas músicas dos dois estados, e homenageia homens e mulheres que transformaram o canto em elemento que amenizava o árduo trabalho na lavoura cacaueira, uma prática que tende à extinção.
O videoclipe de “Abre alas/Corta jaca” exalta as mulheres precursoras na história e que romperam barreiras de sua época, além de mostrar as múltiplas potências das cantoras da banda – quem assina a direção de fotografia e edição é a artista visual Mariana Cabral. Já o videoclipe de “Cacau ´boa lavra” traz o ambiente de cultivo do cacau e imagens desde o cultivo até a transformação em chocolate. Ambos com direção de Tacila Mendes. Assista no canal: https://www.youtube.com/@
A produção e a gravação das releituras musicais contam com apoio da Prefeitura de Ilhéus, Secretaria Municipal de Cultura, através do Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura do Brasil.






