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Um breve relato da economia do Cacau no Brasil

Quatro décadas de transformações estruturais na cadeia brasileira do cacau — da produção recorde à era da extrema volatilidade

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau — Sul da Bahia | Brasil

 

´Paulo Peixinho

Antes de 1986, a cadeia brasileira do cacau funcionava, em linhas gerais, em um ambiente de livre comercialização, no qual os preços pagos ao produtor acompanhavam as cotações internacionais e refletiam a dinâmica entre oferta e demanda.

As principais exceções ocorreram nos períodos de maior intervenção de órgãos reguladores, especialmente entre 1957 e 1960, quando houve a estatização temporária das exportações de amêndoas, combinada com uma política cambial heterodoxa que instituiu o chamado “dólar-cacau”.

A safra de 1986/1987 marcou o auge da cacauicultura brasileira, com uma produção próxima de 400 mil toneladas. Entretanto, em pouco mais de uma década, esse volume caiu para aproximadamente 120 mil toneladas na safra 1999/2000, configurando uma das maiores crises já enfrentadas pelo setor.

Essa transformação foi resultado da combinação de diversos fatores. A chegada da vassoura-de-bruxa à Bahia coincidiu com um longo ciclo de expansão da oferta mundial e de redução dos preços internacionais. A queda da produtividade, associada aos baixos preços, comprometeu a rentabilidade da atividade e provocou forte descapitalização dos produtores, redução dos investimentos, deterioração da qualidade do cacau e desaparecimento de grande parte do setor exportador de amêndoas.

Ao mesmo tempo, o consumo doméstico de chocolate e derivados cresceu, enquanto a indústria processadora dispunha de capacidade instalada ociosa. Como consequência, o Brasil deixou de ser exportador líquido de amêndoas e passou a importar cacau de diferentes origens para abastecer sua indústria.

O período também foi marcado por profundas transformações estruturais na economia mundial. A expansão da internet, a revolução das comunicações, a globalização dos mercados e o intenso processo de fusões e aquisições alteraram significativamente a organização da cadeia global do cacau e do chocolate.

No Brasil, a concentração do setor comprador tornou-se evidente. O número de empresas adquirindo cacau reduziu-se de aproximadamente quarenta para apenas três grandes processadoras.

Apesar dessa concentração, a insuficiência da produção nacional diante da demanda industrial fez com que, durante boa parte do período compreendido entre os anos 2000 e 2023, o produtor brasileiro comercializasse seu cacau com prêmio em relação à Bolsa de Nova York. Houve poucas exceções, como ocorreu em 2015.

Enquanto isso, o Pará consolidou-se como a principal fronteira de expansão da cacauicultura brasileira, impulsionado pela utilização de novos clones, de maior produtividade e maior tolerância às doenças. Ainda assim, a produção nacional permaneceu relativamente estagnada, oscilando entre aproximadamente 190 mil e 220 mil toneladas anuais — volume insuficiente para atender plenamente ao mercado interno.

Entre 2023 e 2026, ocorreu a maior ruptura econômica do mercado mundial de cacau das últimas quatro décadas. Um mercado historicamente caracterizado por elevada volatilidade passou a apresentar extrema volatilidade.

Em poucos meses, os preços internacionais saíram de uma média histórica próxima de US$ 2.500 por tonelada, ultrapassaram US$ 13.000, recuaram para aproximadamente US$ 3.000 em fevereiro de 2026 e, posteriormente, estabilizaram-se na faixa de US$ 5.000 a US$ 6.000 por tonelada.

Essa extraordinária oscilação resultou da combinação de fatores climáticos, redução da oferta na África Ocidental, atuação dos agentes financeiros, mudanças nas estratégias comerciais e adaptações promovidas pela indústria.

Pela primeira vez em décadas, consumidores, produtores, processadores, investidores e fabricantes de chocolate precisaram rever simultaneamente seus modelos de decisão.

A indústria chocolateira respondeu ao choque elevando preços, reduzindo o tamanho das embalagens, fenômeno conhecido como shrinkflation, ampliando o uso de equivalentes da manteiga de cacau, diversificando o portfólio de produtos com sabor de chocolate e intensificando as pesquisas com ingredientes alternativos. Entre essas inovações estão o cacau produzido por fermentação celular e outras tecnologias emergentes.

O choque de preços demonstrou que a leitura tradicional do mercado, baseada quase exclusivamente na oferta, na demanda e nas bolsas de futuros, tornou-se insuficiente.

Questões climáticas, geopolíticas, ambientais e regulatórias, associadas à rastreabilidade, ao comportamento do consumidor, à inovação tecnológica e à dinâmica financeira, passaram a exercer influência simultânea sobre a formação dos preços e sobre as estratégias dos diferentes participantes da cadeia.

Nesse contexto, o modelo tradicional de interpretação do mercado já não é suficiente para compreender a economia contemporânea do cacau. Os desafios deixaram de admitir soluções lineares.

A sustentabilidade da cadeia dependerá da capacidade de integrar produtividade, qualidade, rentabilidade, conservação ambiental, inovação e geração de valor em um ambiente de elevada incerteza.

Entre 1986 e 2026, a economia brasileira do cacau deixou de representar apenas uma atividade agrícola para tornar-se parte de um sistema global altamente complexo.

O novo normal da cadeia cacau–chocolate–floresta exigirá criatividade radical, novos modelos mentais e estratégias inéditas por parte de produtores, indústrias, investidores e formuladores de políticas públicas. As respostas do passado já não são suficientes para enfrentar os desafios do futuro.

O mercado mundial parece estar entrando em uma nova fase, marcada por eventos climáticos mais frequentes, custos de produção elevados, exigências regulatórias crescentes, demanda por maior transparência e sustentabilidade e extrema volatilidade dos preços.

Os fundamentos clássicos continuam relevantes. Os estoques permanecem como uma das variáveis mais importantes para explicar os preços internacionais do cacau.

No entanto, as evidências de uma quebra estrutural sugerem que o mercado atravessa uma nova fase de transformação. Compreender essa mudança será decisivo para determinar quem conseguirá adaptar-se, competir e gerar valor nas próximas décadas.

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