
Por Antônio Carlos Magnavita Maia
Médico e cacauicultor
Há mais de um ano, a cacauicultura brasileira convive com uma realidade difícil de justificar. As três grandes irmãs moageiras, que concentram a maior parte do processamento e da compra de cacau no país, mantêm um deságio extremamente elevado justamente quando os preços internacionais permanecem valorizados, em razão das dificuldades estruturais enfrentadas pelos maiores produtores mundiais, concentrados na África Ocidental.
Essa realidade suscita uma pergunta inevitável: até onde chegará a voracidade desse apetite? Se, mesmo com preços historicamente elevados, o produtor brasileiro continua submetido a um deságio crescente, o que ocorrerá quando novas altas se confirmarem, como indicam as previsões relacionadas a um possível super El Niño?
Se as cotações voltarem a atingir níveis próximos ou superiores ao recorde de 2024 (US$ 13 mil por tonelada) — ou mesmo se os fundos especulativos oportunistas apostarem e aproximarem, em termos reais, dos históricos preços de 1977, que corresponderiam hoje a cerca de US$ 30 mil por tonelada —, continuaremos assistindo ao paradoxo de produtores recebendo apenas R$ 400 ou R$ 500 por arroba? Qual é, afinal, o critério adotado para a formação desse deságio?
O que se observa é um modelo que concentra lucros extraordinários em poucos agentes, enquanto reduz a remuneração justamente daquele que, muitas vezes certificado, preserva a floresta, protege os recursos hídricos, sequestra carbono e exerce o papel de verdadeiro guardião do clima. Seria esse critério apenas a maximização dos lucros e da remessa de resultados para as matrizes no exterior?
A justificativa recorrente de que as importações são necessárias para manter as plantas industriais em funcionamento não pode servir indefinidamente para penalizar quem produz a matéria-prima indispensável à existência de toda a cadeia. Tampouco pode justificar um deságio permanente que transfere parte significativa da renda do produtor para um mercado altamente concentrado.
O produtor rural é o elo originário da cacauicultura. Quando sua remuneração é artificialmente reduzida, bilhões de reais deixam de circular nas regiões produtoras, numa verdadeira sangria de recursos. São investimentos que deixam de ser realizados nas propriedades, empregos que deixam de ser criados, comércio que deixa de crescer e arrecadação que deixa de chegar aos municípios, aos estados e à União.
Mais preocupante ainda é a ausência de uma política regulatória capaz de restabelecer o equilíbrio nas relações de mercado. A concentração do poder de compra nas mãos de poucas empresas — muitas delas beneficiárias de incentivos fiscais —, associada à omissão do Estado, perpetua uma distorção que compromete não apenas a economia, mas também a sustentabilidade e a soberania da cacauicultura brasileira.
Defender uma cacauicultura forte não significa combater a indústria. Significa defender um mercado verdadeiramente competitivo, transparente e equilibrado, no qual produtores, indústria e consumidores compartilhem os benefícios do crescimento. Nenhum elo da cadeia deve prosperar às custas do enfraquecimento daquele que lhe dá origem.
O verdadeiro capitalismo pressupõe concorrência e livre formação de preços. Quando milhares de produtores negociam diante de apenas três grandes compradores, a concorrência deixa de existir, e o mercado passa a ser administrado pelo poder econômico. Defender regras mais equilibradas não é combater o capitalismo; é preservar seus fundamentos e impedir que estruturas oligopsônicas transformem a livre concorrência na tirania de poucos sobre milhares de produtores.
Nenhuma nação pode aceitar que um setor estratégico para sua economia, para a preservação ambiental e para a geração de riqueza permaneça submetido a um mercado concentrado e sem mecanismos capazes de assegurar equilíbrio nas relações comerciais. O Brasil precisa decidir se continuará assistindo passivamente à transferência de riqueza de milhares de produtores para poucos grupos econômicos ou se construirá uma política de Estado que devolva à cacauicultura a liberdade, a competitividade e a justiça que sempre deveriam ter orientado esse mercado.
Abaixo o deságio! Em defesa da livre concorrência, do produtor brasileiro, da soberania nacional e da verdadeira justiça econômica, política, social e ambiental.






