
Por Paulo A. Torres
O produtor brasileiro de cacau convive hoje com uma série de incertezas: o preço internacional, o valor recebido pela arroba, a volatilidade da Bolsa de Nova York, as oscilações do câmbio, a baixa produtividade, as limitações para fixação de preços futuros, a ausência de uma classificação confiável do produto, a insegurança no armazenamento e a dificuldade de acesso ao financiamento.
Alguns desses fatores estão praticamente fora do nosso controle. Outros, porém, dependem diretamente de decisões que podemos, e devemos, tomar no Brasil.
É importante fazer essa distinção.
O preço internacional
O preço do cacau é formado principalmente nos mercados futuros de Londres e Nova York. Londres está tradicionalmente mais relacionada às origens africanas, enquanto Nova York é referência para o cacau produzido na América Latina e na Ásia.
Esses mercados permitem negociar preços ate 2 anos no futuro e são fundamentais para o planejamento de toda a cadeia.
Existe, entretanto, um evidente desequilíbrio de forças. De um lado estão grandes grupos internacionais de processamento e chocolate, com escala, acesso a financiamento, informação de clima e safra, analises econômicas e instrumentos sofisticados para proteção e fixação de preços. Do outro, milhões de produtores espalhados por diferentes países, a maioria deles pequenos, alguns médios, e muito muito poucos grandes. A grande maioria sem acesso a esses mesmos recursos, e alguns dos grandes com acesso limitado.
É uma realidade que precisa ser reconhecida: o produtor brasileiro, isoladamente, tem pouca capacidade de influenciar a formação do preço internacional do cacau.
O preço recebido pelo produtor
O preço da arroba no mercado interno está diretamente relacionado à cotação internacional, especialmente à Bolsa de Nova York, acrescida ou reduzida de diferenciais que refletem oferta, demanda, qualidade e condições específicas do mercado brasileiro.
Também aqui predominam forças de mercado sobre as quais o produtor individualmente possui pouca influência.
Isso também vale para a taxa de câmbio. O cacau é negociado internacionalmente em dólar e, consequentemente, as oscilações do real frente à moeda americana afetam diretamente os preços internos.
São variáveis importantes, mas sobre as quais não temos controle.
A volatilidade aumentou
Outro elemento de preocupação é a crescente volatilidade dos mercados futuros.
A informatização e o avanço dos sistemas automatizados de negociação ampliaram enormemente a velocidade das operações. Hoje, algoritmos podem gerar milhares de ordens de compra e venda sem qualquer intervenção humana direta.
Para todos na cadeia do cacau, produtor, processador e chocolateiro, essa volatilidade torna o planejamento ainda mais complexo e extremamente dificil.
Mas reclamar da volatilidade não resolve o problema. Precisamos desenvolver instrumentos que permitam ao produtor conviver melhor com ela.
Onde podemos realmente fazer a diferença: PRODUTIVIDADE
Este talvez seja o ponto mais importante de todos.
Produtividade é uma variável sobre a qual temos capacidade real de atuação.
Ainda utilizamos em quase todas propriedades, ferramentas e métodos de trabalho extremamente tradicionais. Enquanto a tecnologia transformou praticamente todos os aspectos da vida no campo, smartphones, internet, Pix e motocicletas já fazem parte do cotidiano rural, diversas atividades agrícolas continuam sendo executadas praticamente da mesma maneira que décadas ou mesmo séculos atrás. Facão, podão, bisco, burros etc.
Há enorme espaço para modernização.
Triciclos, quadriciclos ou pequenos tratores para transporte; tesouras e equipamentos elétricos de poda; extensores; roçadeiras; pulverizadores elétricos e até drones são exemplos de tecnologias já disponíveis capazes de aumentar significativamente a eficiência do trabalhador rural.
O objetivo não deve ser simplesmente produzir mais utilizando mais terra ou mais mão de obra. Precisamos produzir mais por árvore e mais por hora trabalhada. Há grupos que trabalham diligentemente promovendo novas técnicas e disciplinas que aumentam substancialmente a produtividade. Mas travam uma batalha difícil contra a resistência a mudança.
O aumento da produtividade cria uma rara convergência positiva dentro da cadeia: melhora a renda do produtor e do trabalhador sem que o chocolateiro e o consumidor necessariamente precisem pagar mais. Estimulando assim o aumento gradual do consumo. Esse deveria ser um dos grandes focos da política brasileira para o cacau.
O produtor precisa ter instrumentos para escolher quando vender
Existe ainda uma assimetria importante na comercialização.
Processadores e grandes compradores possuem acesso a instrumentos de mercado que lhes permitem fixar preços futuros e administrar seus riscos. Pequenos e médios produtores, em geral, não possuem as mesmas alternativas.
No passado, tivemos no Brasil melhores possibilidades de fixação de preço, diferencial e câmbio por períodos de três, seis, nove meses ou até um ano. Facilidade que então eram oferecidas pelas processadoras.
Precisamos reconstruir esses mecanismos.
Isso exige confiança e relacionamento de longo prazo entre produtores, processadores e indústria.
A cadeia do cacau não pode funcionar permanentemente como uma disputa entre lados adversários. Produtor, processador e chocolateiro fazem parte do mesmo sistema e são profundamente interdependentes.
Quando os diferentes elos da cadeia entram em conflito permanente, todos acabam perdendo.
Sem classificação, não existe um mercado verdadeiramente sofisticado
Outro ponto fundamental é a necessidade de restabelecer um sistema de classificação oficial, confiável e reconhecido para o cacau brasileiro.
Sem classificação adequada, ficam prejudicados mecanismos de seguro, armazenagem, financiamento, vendas futuras e até a possibilidade de entrega do produto em mercados organizados.
Hoje temos tecnologia suficiente para avançar muito nesse campo.
É perfeitamente possível imaginar cada saca identificada individualmente por QR Code, contendo informações verificáveis sobre origem, características e qualidade do produto.
O Brasil já teve classificações reconhecidas internacionalmente, como a Bahia Superior. Recuperar uma referência confiável de qualidade seria extremamente importante para o desenvolvimento do mercado.
A lógica é simples: se não classificamos adequadamente o produto, comprador e vendedor não sabem exatamente o que está sendo negociado.
Armazenamento e financiamento são partes do mesmo problema
A insegurança de manter cacau armazenado nas próprias fazendas também precisa ser enfrentada.
Além do risco de deterioração, existe em determinadas regiões o problema do roubo.
Uma possibilidade seria estruturar armazéns seguros e tecnicamente adequados, aproveitando inclusive instalações da CEPLAC e reconstruindo sua participação institucional em atividades de classificação e armazenagem.
Isso teria consequências muito maiores do que simplesmente proteger fisicamente o cacau.
Com um certificado confiável de classificação e um título representativo do produto armazenado, torna-se muito mais viável estruturar linhas de financiamento utilizando o próprio cacau como garantia.
O produtor deixaria de ser obrigado a vender imediatamente por necessidade de caixa.
Poderia financiar sua atividade, aguardar o momento mais adequado para comercialização e vender para quem oferecesse as melhores condições.
Isso muda profundamente sua posição dentro da cadeia.
Uma cadeia interdependente
Todos esses problemas estão conectados.
Produtividade, qualidade, classificação, armazenagem, financiamento e comercialização não podem ser tratados isoladamente.
Da mesma forma, produtores, processadores e chocolateiros não são adversários. São partes de uma única cadeia e dependem uns dos outros para que o mercado funcione de maneira saudável.
Nenhuma solução sustentável será totalmente confortável para apenas um dos lados.
Talvez o caminho esteja justamente em construir uma solução “desconfortavelmente confortável” para todos: aquela em que cada elo cede alguma coisa, mas todos ganham com uma cadeia mais eficiente, previsível e sustentável.
Podemos continuar concentrando nossas energias nas oscilações diárias da Bolsa de Nova York e do dólar, fatores sobre os quais temos pouquíssimo controle.
Ou podemos concentrar nossos esforços naquilo que está ao nosso alcance: aumentar a produtividade, modernizar a produção, classificar melhor o cacau, criar estruturas seguras de armazenagem, ampliar o acesso ao financiamento e devolver ao produtor instrumentos mais sofisticados de comercialização.
É aí que está, a meu ver, a verdadeira oportunidade para construirmos um mercado brasileiro de cacau mais forte, saudável e promissor.






