
Paulo Peixinho | produtor de cacau
Há acontecimentos que dividem o tempo entre o antes e o depois.
O 11 de setembro de 2001 foi um deles.
Era uma terça-feira. Eu havia acordado com a intenção de ir para a roça, mas me atrasei. Ao passar pela sala, entrou no ar o Plantão da TV. Parei. Sentei-me no sofá.
O que aparecia na tela parecia irreal.
Minha primeira reação foi ligar para um amigo nos Estados Unidos. Para minha surpresa, ele ainda não sabia o que estava acontecendo.
Pouco depois, diante da televisão, vi o segundo avião atingir a segunda torre do World Trade Center.
Naquele instante, uma preocupação muito particular me ocorreu.
A New York Board of Trade, onde se negociava cacau, funcionava no complexo do World Trade Center. Amigos meus trabalhavam ali.
Fiquei inquieto.
Mais tarde soube que Stephen, que morava em Connecticut, havia se atrasado naquela manhã. Patrick estava no Brasil.
Em certos dias, um atraso ou uma viagem podem separar a rotina da tragédia.
O ataque não buscava apenas destruir edifícios. Mirava símbolos.
As Torres Gêmeas representavam poder econômico, comércio, finanças e a confiança de uma sociedade em sua própria estabilidade.
O mundo assistiu à queda das torres em poucas horas.
Mas, para quem viveu a história do cacau no Sul da Bahia, havia outra imagem possível para compreender aquilo.
Doze anos antes, em 1989, a região havia recebido uma notícia que também dividiria sua história em antes e depois: a identificação da vassoura-de-bruxa nos cacauais baianos.
Não houve aviões.
Não houve transmissão ao vivo.
Não houve uma explosão única.
O nosso edifício caiu lentamente.
Fazenda por fazenda.
Safra por safra.
Emprego por emprego.
Patrimônio por patrimônio.
Família por família.
A vassoura-de-bruxa atingiu as árvores, mas suas consequências foram muito além da lavoura.
Atingiu cidades inteiras.
Afetou comércio, crédito, emprego, patrimônio, relações familiares e a autoestima de uma região que por décadas havia construído riqueza, cultura e identidade em torno do cacau.
Sobre a chegada da doença permanecem versões, suspeitas, relatos e controvérsias.
Há quem sustente que sua introdução tenha sido deliberada. Há investigações e testemunhos que alimentaram essa narrativa ao longo dos anos.
Mas, independentemente de como começou, o resultado histórico é inequívoco: o Sul da Bahia sofreu uma ruptura econômica e social profunda.
Vinte e cinco anos depois do 11 de setembro de 2001, Nova York transformou a ausência em memória.
No local das Torres Gêmeas existe hoje um memorial.
Os nomes das vítimas foram gravados.
A destruição passou a conviver com a lembrança.
E, sobretudo, com a reconstrução.
No Sul da Bahia, ainda não construímos um memorial à crise provocada pela vassoura-de-bruxa.
Talvez devêssemos.
Mas talvez exista um monumento mais importante a erguer.
O novo edifício da cacauicultura.
Porque memória sem reconstrução corre o risco de se transformar apenas em saudade.
A região ainda possui suas principais fundações: terra, Mata Atlântica, Cabruca, tradição, conhecimento, produtores, trabalhadores, pesquisa, genética, história e uma identidade que nenhum fungo conseguiu eliminar.
O desafio agora não é reconstruir exatamente o que existia antes de 1989.
Isso seria pouco.
A nova cacauicultura precisa ser diferente.
Mais produtiva.
Mais tecnológica.
Mais sustentável.
Mais resistente a doenças, choques climáticos e ciclos de preços.
Menos dependente apenas da venda de uma commodity.
Mais capaz de transformar qualidade, origem, biodiversidade, chocolate, cultura e história em valor.
Nova York reconstruiu seu horizonte sem apagar aquilo que aconteceu.
Talvez essa seja também a lição para o cacau do Sul da Bahia.
Não esquecer.
Não romantizar o passado.
Não permanecer entre os escombros.
Reconstruir.
Porque os grandes colapsos deixam cicatrizes.
Mas também obrigam sociedades a decidir o que farão depois deles.
As Torres Gêmeas se tornaram memória.
O cacau baiano ainda pode se tornar futuro.
E talvez o maior memorial que o Sul da Bahia possa construir seja uma cacauicultura novamente forte, inovadora e capaz de permanecer de pé.
Reconstruir é, às vezes, a forma mais digna de lembrar.






