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Alvinho e a moeda de Jussari

Por Paulo Peixinho

 

Alvinho era um menino sergipano que veio para o Sul da Bahia. Com o tempo, tornou-se comerciante, cacauicultor e comprador de cacau em Jussari.

Muito antes de as grandes corporações chamarem certas operações de barter, Alvinho já fazia algo semelhante. Antecipava produtos e insumos agrícolas aos produtores, que depois lhe pagavam em cacau.

Seu negócio era movimento. Inquieto, já casado, deixava Morena, sua mulher, no caixa e na gerência da loja e partia para o campo. Ia a Itabuna e, uma vez por mês, a Salvador. Já comprava diretamente dos distribuidores e possuía seu próprio meio de transporte: o Avante, um caminhão Ford.

Era 24 de agosto de 1954.

Alvinho talvez não soubesse o que era hedge, mas, na prática, já fazia.

Surgiu uma oportunidade e ele comprou, a prazo, uma grande fazenda pelas bandas de Camacan. Casado, pai de família e agora mais prudente, decidiu fixar o preço de parte de sua produção com o Instituto de Cacau da Bahia — ICB.

Fixou 20.000 arrobas, ao equivalente a aproximadamente US$ 1.500 por tonelada. Recebeu antecipadamente o valor correspondente a 4.000 arrobas, ficando o restante para pagamento contra as entregas, que se estenderiam até 1956.

Alvinho andava feliz com o negócio.

Para chegar à nova propriedade, ainda precisava ir de burro, atravessando a Serra da Aliança. Seu irmão empreendia em Gravatá — hoje Palmira — e o convidou a participar da abertura da rodagem Palmira–Jacareci. Era um sonho que só seria realizado cerca de três anos depois.

Enquanto isso, Jussari prosperava.

Havia ali uma estação do Ministério da Agricultura dedicada ao desenvolvimento de novos tipos de cacau, dirigida pelo Dr. Walter Magalhães. A CEPLAC ainda não existia.

Mas, como tantas vezes aconteceu na história da cacauicultura, decisões e crises políticas vindas da capital federal, então no Rio de Janeiro, atingiram a região.

O contrato de Alvinho havia sido fechado justamente no dia da morte de Getúlio Vargas. Entre aquele 24 de agosto de 1954 e a posse de Juscelino Kubitschek, o Brasil atravessaria uma sucessão turbulenta de governos.

E o dinheiro deixou de chegar.

A estação de Jussari ficou sem recursos para pagar cerca de 300 funcionários, entre trabalhadores de campo e pessoal da administração.

Dr. Walter, amigo de Alvinho, procurou-o:

— Meu amigo, você poderia me ajudar? Não tenho verba para pagar o povo. Talvez possa fornecer mantimentos e algum dinheiro vivo.

Alvinho pensou. Pensou mais um pouco. E respondeu:

— Meu doutor, tenho uma ideia. O senhor emite uma nota promissória para cada funcionário. Eles vêm aqui, compram o que precisarem, entregam a nota e eu devolvo o saldo por meio de outro documento. Quem quiser dinheiro, pode vir aqui que eu pago. Assim eu não me descapitalizo de uma vez, o povo compra na minha loja e o senhor me paga quando as verbas chegarem. Mas uma vez por mês o senhor vem conferir o balanço com Morena.

Tudo acertado.

Naquele tempo, palavra dada valia contrato.

No primeiro dia de feira após o pagamento, formou-se uma fila.

Os funcionários faziam suas compras, entregavam as promissórias e recebiam a diferença. Morena, mulher de Alvinho, emitia então uma nota de crédito correspondente ao saldo.

O sistema funcionou.

O comércio voltou a se movimentar.

E, por algum tempo, a verdadeira moeda corrente de Jussari passou a ser as notas de crédito de Alvinho.

Tempos depois, Dr. Walter contava a história sorrindo. Dizia que os papéis de Alvinho circulavam por toda a cidade — e que até no prostíbulo se pagava com eles.

Veio 1956.

Juscelino Kubitschek tomou posse. Um representante do Ministério da Agricultura chegou à região, e Dr. Walter contou-lhe toda a história.

Como reconhecimento pelo crédito que havia sustentado a estação e seus trabalhadores nos meses difíceis, Alvinho passou a ser fornecedor oficial do governo para a Estação de Jussari.

Enquanto isso, o mercado internacional de cacau caía. A leitura do gráfico histórico abaixo ajuda a entender a dimensão do acerto de Alvinho: o ponto 2 marca a região do pico de preços em 1954, em torno de US$ 1.500 por tonelada, enquanto o ponto 3 mostra a forte queda em 1956, quando o mercado recuou para perto de US$ 440 por tonelada.

A cada mês, quando Alvinho entregava mais uma parcela daquele contrato de preço fixado, ficava ainda mais satisfeito com a decisão que tomara.

Na última entrega contratada ao equivalente a US$ 1.500 por tonelada, o preço do cacau na Bolsa de Nova York estava próximo de US$ 440 por tonelada.

Evolução dos preços do cacau na Bolsa de Nova York entre 1948 e 1959. O ponto 2 destaca o patamar aproximado de US$ 1.500/t em 1954, referência do contrato fixado por Alvinho. O ponto 3 assinala a queda para a faixa de US$ 440/t em 1956, evidenciando o acerto da operação.

A diferença era enorme.

Mas havia algo talvez ainda mais importante do que o ganho financeiro.

A fama de Alvinho como homem que cumpria seus contratos correu pela região.

O gerente do Instituto de Cacau da Bahia, satisfeito com sua atuação, fez-lhe então uma nova proposta:

Alvinho passaria a representar o Instituto como agente em Jussari.

Assim, entre cacau, crédito, confiança e palavra empenhada, um comerciante do interior criou, sem banco central, sem decreto e sem economistas, uma pequena moeda local.

A moeda de Jussari.

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