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Antônio e Beto: a Filosofia da Amizade

Entre Montaigne e Flaubert, dois amigos que há mais de meio século tentam compreender o mundo e, ocasionalmente, um ao outro.

Por Paulo Peixinho

 

Montaigne encontrou em La Boétie uma amizade tão extraordinária que, ao tentar explicá-la, precisou abandonar a razão: “Porque era ele; porque era eu.”

Séculos depois, Gustave Flaubert criou Bouvard e Pécuchet, dois amigos unidos pela curiosidade intelectual, pela vontade de compreender o mundo e pela sucessão de equívocos que acompanha aqueles que desejam saber de tudo.

Beto e Antônio talvez sejam uma combinação das duas duplas. Têm a amizade de Montaigne e La Boétie, a curiosidade de Bouvard e Pécuchet e uma vantagem sobre os personagens de Flaubert: não precisam concordar em absolutamente nada para continuar amigos.

Conheceram-se no colégio, há quase 55 anos. Antônio era o menino gênio, de formação católica. Beto já cultivava seus mundos interiores, suas dúvidas metafísicas e uma inclinação quase irresistível para questionar as certezas alheias.

O tempo encarregou-se de transformar aquela amizade adolescente numa espécie de sociedade filosófica sem estatuto, mensalidades ou presidente.

Beto fala. Antônio escuta. Beto inventa seus constructos, faz associações improváveis, atravessa a psicologia, a espiritualidade e a filosofia. Antônio organiza as ideias, investiga, recorre aos livros, aos conhecimentos acumulados e devolve ao amigo uma síntese.

E tudo recomeça.

Antônio foi soldado e vem se tornando um filósofo prático. Não lhe basta compreender a realidade. Gosta de realizar, de pôr a mão na massa. Foi professor de tecnologias quando poucos dominavam os computadores e hoje já ministra aulas sobre inteligência artificial. Beto sustenta que sua Inteligência Natural e Espiritual continua anos-luz à frente das máquinas.

Beto, por sua vez, não se contenta com uma única explicação sobre a existência humana. Jung, o espiritismo, as experiências religiosas e a filosofia da continuidade do Ser fazem parte de sua permanente investigação. Antônio o acompanha, recorrendo a Ouspensky, Gurdjieff, Pathwork e outras tradições.

As conversas diárias tornaram-se uma espécie de terapia filosófica recíproca. Um apresenta suas inquietações; o outro oferece novas perguntas. Não procuram necessariamente as mesmas respostas.

Há uma diferença fundamental entre os dois. Enquanto Antônio desenvolveu uma metodologia para compreender o mundo, Beto parece empenhado em demonstrar que o mundo não cabe em metodologia alguma.

Antônio, porém, possui uma qualidade rara: respeita as maluquices alheias. E ainda consegue encontrar nelas algum sentido.

Beto reconhece isso e aproveita para produzir outras.

Talvez por essa razão, apesar das diferenças religiosas e intelectuais, continuem companheiros de viagem. Antônio chama Beto de padreco, uma provocação especialmente divertida para alguém que desconfia das instituições religiosas, mas não consegue abandonar as questões espirituais.

O filósofo Martin Buber identificou na relação entre o Eu e o Tu uma forma de encontro na qual o outro deixa de ser objeto de nossas expectativas e passa a ser reconhecido em sua singularidade.

A amizade, vista dessa maneira, não exige que duas pessoas pensem da mesma forma. Exige que uma reconheça na outra a liberdade de pensar diferentemente.

É nesse ponto que Beto e Antônio se aproximam de Montaigne.

Entretanto, há também muito de Flaubert nas suas intermináveis investigações. Como Bouvard e Pécuchet, percorrem os campos do conhecimento. A diferença é que já não precisam dominar todos os assuntos. Aprenderam que, depois de uma vida inteira estudando, o conhecimento costuma oferecer mais perguntas do que respostas.

E há uma terceira dimensão nessa amizade: o humor.

O humor de Antônio é sutil, inteligente, quase sempre acompanhado de uma observação inesperada. O de Beto é expansivo, provocador, frequentemente dirigido ao próprio amigo. É a maneira que encontraram de não levar excessivamente a sério nem o mundo nem a si mesmos.

Depois de tantos anos, as histórias se repetem, as lembranças se misturam e os assuntos antigos reaparecem com novas interpretações. Um começa uma narrativa que o outro já conhece, mas escuta novamente, pois sabe que dessa vez ela poderá terminar de maneira diferente.

A amizade tem essa extraordinária capacidade de nos permitir envelhecer sem perder inteiramente os meninos que fomos.

Montaigne perdeu La Boétie muito cedo e passou boa parte da vida tentando compreender a singularidade daquele encontro. Flaubert deixou Bouvard e Pécuchet presos à sua interminável busca pelo conhecimento.

Beto e Antônio continuam conversando.

Talvez a grande descoberta desses dois amigos seja que a amizade não está em encontrar alguém que possua todas as respostas, mas alguém com quem seja possível compartilhar todas as perguntas.

Afinal, depois de quase 55 anos, já não importa tanto quem tem razão.

Importa que, no dia seguinte, ainda exista alguém a quem telefonar para continuar a conversa.

Porque era Antônio. Porque era Beto.

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