
Por Paulo Peixinho, cacauicultor
“Somos muito mais pobres porque não reconhecemos que o solo é um organismo vivo.”
— Sunita Narain, diretora-geral do Centre for Science and Environment (CSE)
O solo talvez seja uma das maiores riquezas que a humanidade possui e, paradoxalmente, uma das menos compreendidas. Caminhamos sobre ele, cultivamos nossas lavouras, construímos nossas cidades e dependemos de sua fertilidade para produzir alimentos. Entretanto, raramente reconhecemos que, sob nossos pés, existe um extraordinário universo de organismos vivos.
A riqueza do solo não está apenas em sua composição química. Está também nas relações biológicas que permitem às plantas crescer, aos nutrientes circular e ao carbono permanecer armazenado na terra.
Durante décadas, a agricultura moderna concentrou seus esforços em medir e corrigir deficiências químicas. Nitrogênio, fósforo, potássio e outros nutrientes passaram a orientar boa parte das recomendações agronômicas. Essa abordagem contribuiu para elevar a produtividade agrícola, mas deixou em segundo plano um componente fundamental: a vida que existe no solo.
É precisamente essa dimensão esquecida que a ambientalista indiana Sunita Narain destaca em sua reflexão publicada pela revista Down to Earth.
O solo é um organismo vivo
Assim como o organismo humano depende de uma complexa comunidade de microrganismos presentes no intestino, a fertilidade da terra depende de um universo formado por bactérias, fungos, protozoários, algas, minhocas, besouros e inúmeras outras espécies.
Esses organismos desempenham funções essenciais. Decompõem matéria orgânica, disponibilizam nutrientes, favorecem a formação de agregados, melhoram a estrutura do solo e contribuem para a retenção de água.
A fertilidade, portanto, não resulta exclusivamente da quantidade de nutrientes disponíveis. Depende também da capacidade biológica do solo de transformar esses nutrientes em condições favoráveis ao desenvolvimento das plantas.
Uma terra aparentemente fértil do ponto de vista químico pode apresentar sinais de degradação biológica. Da mesma forma, um solo biologicamente ativo pode aproveitar melhor os nutrientes e oferecer maior resistência a determinadas condições adversas.
A experiência da Índia
Uma análise de aproximadamente 13 milhões de avaliações de solo realizadas na Índia entre 2023 e 2025 revelou uma situação preocupante.
Apesar do aumento de cerca de 20% no consumo de fertilizantes químicos, persistiram deficiências importantes de nutrientes. Além disso, aproximadamente metade das amostras apresentava baixos níveis de carbono orgânico.
Os resultados mostram os limites de uma estratégia baseada predominantemente na reposição química da fertilidade.
Isso não significa abandonar os fertilizantes minerais, indispensáveis em muitos sistemas agrícolas. Significa reconhecer que sua utilização deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de conservação e recuperação da saúde do solo.
A matéria orgânica, a diversidade das culturas, a cobertura vegetal e a atividade microbiológica precisam receber atenção equivalente à dedicada aos nutrientes químicos.
O carbono e a riqueza invisível
O solo também representa um dos grandes reservatórios de carbono do planeta.
A matéria orgânica produzida pelas plantas, pelos microrganismos e pela decomposição dos resíduos vegetais contribui para armazenar carbono e melhorar a qualidade física, química e biológica da terra.
Entretanto, medir apenas o carbono orgânico não é suficiente para compreender a saúde do solo. Parte desse carbono está associada à matéria orgânica mais estável, enquanto outra participa de processos biológicos mais dinâmicos.
Precisamos desenvolver e ampliar métodos capazes de acompanhar a biomassa microbiana, a atividade enzimática, a respiração do solo e outros indicadores de sua diversidade biológica.
Sem essas informações, corremos o risco de contabilizar os nutrientes e ignorar os organismos responsáveis por grande parte de sua circulação.
Uma reflexão para a cacauicultura brasileira
Na região cacaueira do Sul da Bahia, essa discussão adquire importância especial.
O sistema cabruca, caracterizado pelo cultivo do cacau sob a sombra de árvores, oferece uma oportunidade para compreender as relações entre produção agrícola, biodiversidade e conservação ambiental.
A presença de árvores, a deposição de folhas, a formação de matéria orgânica e a proteção oferecida pela cobertura vegetal podem favorecer a atividade biológica do solo.
Contudo, a existência de um sistema agroflorestal não garante, isoladamente, sua saúde. É necessário avaliar o manejo, a compactação, a fertilidade, a disponibilidade de água e a diversidade dos organismos presentes.
A pesquisa científica pode ajudar a identificar quais práticas contribuem efetivamente para recuperar a fertilidade, melhorar a produtividade e ampliar o armazenamento de carbono.
Para o produtor de cacau, conhecer a vida existente no solo significa compreender melhor o próprio patrimônio produtivo.
A agricultura do futuro começa debaixo da terra
Durante muito tempo, a produtividade foi medida principalmente por aquilo que conseguimos retirar da terra. Agora, precisamos prestar atenção também àquilo que somos capazes de preservar e devolver a ela.
Uma agricultura sustentável exige conhecimento sobre a complexidade dos ecossistemas, investimentos em pesquisa e indicadores que permitam acompanhar a evolução da saúde biológica dos solos.
A riqueza de uma propriedade rural não está apenas em suas árvores, instalações ou produtividade anual. Parte significativa de seu patrimônio encontra-se escondida sob a superfície, em uma rede de organismos que trabalha continuamente para sustentar a vida.
O grande desafio da agricultura contemporânea será aprender a produzir mais sem comprometer essa riqueza invisível.
Porque preservar o solo não significa apenas conservar a terra que recebemos. Significa assegurar a capacidade de produzir alimentos para as próximas gerações.
Referência: Down to Earth, “We need ways to monitor soil health so that we don’t discount the wealth beneath our feet”, 22 de setembro de 2026.
https://www.downtoearth.org.in/agriculture/we-need-ways-to-monitor-soil-health-so-that-we-dont-discount-the-wealth-beneath-our-feet






