
Por Paulo Peixinho, cacauicultor
“Uma caminhada de mil léguas
Começa com o primeiro passo”
Tao Te King, atribuído a Lao Tsé

Por que era sábado, 6/12/2025. Parei tudo para assistir, a distância, à entrega dos prêmios – Melhor Cacau do Brasil do 7º Concurso Nacional de Cacau Especial, realizado este ano em Rondônia.
A sensação era de viver um verdadeiro déjà vu — um sonho sonhado lá atrás, em 1982. Que celebração!
Vi Adriana Reis (CIC) falar da Safra 2025, dos novos terroirs, dos novos sabores — como o incrível “morango”. E também alertar para o aumento de amostras sobre fermentadas ou germinadas, defeitos que simplesmente não podem existir.
Que emoção! Era como revisitar décadas de expectativas condensadas numa fala.
Meu primeiro contato com marketing foi na faculdade de Administração. Lembro do livro edição compacta, de capa cor de chocolate de Philip Kotler. Ele usava exemplos como os frangos Purdue e as bananas Chiquita para mostrar que mesmo uma commodity pode ser diferenciada com sucesso.
Naquele instante, imaginei: “E se existisse uma marca Cacau Bahia?”
Mais tarde, como cacauicultor, sonhava com o dia em que comeríamos “cacao de verdade”. Assim como ocorre com os vinhos, imaginei o momento em que um consumidor pudesse provar um chocolate Safra 2025, tipo Parazinho, da Fazenda Teimoso, do Sr. João Lima, em Jussari, Bahia e com Denominação de Origem (IG).
Ontem, comemorando virtualmente, senti que fazia parte do evento. Ali estava florescendo, diante dos nossos olhos, o futuro do Cacau Brasileiro.

Deixo meu reconhecimento a todos os profissionais, apoiadores e patrocinadores que tornaram aquela noite possível. Em especial a Adriana Reis, Cristiano Vilela e seu time, às organizações ABICAB, AIPC, Cacau Show, Dengo, Gencau, Instituto Arapyaú, Mars, Mondelez (Lacta) e Netafim, SEBRAE, Sistema CNA/SENAR e demais, por celebrarem e comunicarem ao público a força do nosso cacau especial.
E lá estava novamente outro déjà vu: falaram sobre a Marca Cacau Brasileiro. Eu sonhei com “Cacau Bahia”; hoje, a ideia cresceu e se transformou em algo maior — Cacau Brasileiro.
A energia entre os participantes, finalistas e campeões era palpável. (E sim: todos ali já eram campeões).
Só quem já colheu, selecionou, quebrou, fermentou, secou um lote e depois esperou, em silêncio e ansiedade, o veredito do CIC pode imaginar o que significa a emoção de ser reconhecido como o melhor cacau do Brasil.
E em 20/02/2026, colegas cacauicultores estarão representando o Brasil no cenário internacional.
É muito mais do que sonhei.
Voltando ao Papa do Marketing, Philip Kotler: construir uma marca é um desafio enorme — mas totalmente possível. Requer coordenação, recursos, qualidade reconhecida, comunicação clara e atuação integrada da cadeia.
O Cacau Brasileiro já reúne muitos ingredientes para se tornar uma marca global de valor:
Origem, floresta, gente, cultura, história, sabor, identidade, reputação. (Descreverei esses pilares na Parte II)
Um exemplo inspirador: o Café da Colômbia

Um caso clássico ensinado em Harvard: o Café da Colômbia, da Federação Nacional dos Cafeicultores.
O personagem Juan Valdez e sua égua Conchita, criados em 1959 pela agência BDO, representam 66 anos de construção contínua de uma marca.
No início dos anos 2000, reconheceram a oportunidade de industrializar e criar uma rede de cafeterias. Assim nasceu a Rede Juan Valdez, hoje com 650 lojas no mundo — e que acaba de inaugurar sua primeira unidade no Brasil, em Ribeirão Preto, parte do plano de 100 lojas no país.
Esse é um exemplo de benchmarking (referência) perfeito para a cadeia agroalimentar do cacau brasileiro.
Nenhuma marca de valor nasce sem: produto de qualidade consistente, comunicação com o público certo, recursos adequados, fomento governamental, diálogo e coordenação entre todos os atores da cadeia.
Estamos apenas começando —os sinais são claros:
O Cacau Brasileiro está pronto para se tornar uma marca global?
(continua na Parte II)






