
Produtores de cacau de diversas regiões do país participaram, nesta semana, da abertura da Imersão do Cacau, evento que vem se consolidando como um dos principais espaços de debate estratégico sobre o futuro da cacauicultura brasileira. Logo no primeiro dia, o destaque foi a defesa da verticalização da produção como alternativa concreta para enfrentar a crise de rentabilidade no setor.
A programação da noite contou com a palestra do advogado Gianpaolo Zambiazi, que apresentou o tema “Geração de valor no mercado de cacau”. Com uma trajetória consolidada no campo jurídico e empresarial, Zambiazi é formado pela PUC Minas, mestre em Direito de Empresas pelas Faculdades Milton Campos, especialista em Fusões e Aquisições (M&A) pelo IICS-SP em parceria com a Vanderbilt University (EUA), além de possuir formação em Legal English for Foreign Lawyers pela Washington University in St. Louis e especialização em aplicações estratégicas de Blockchain pela Säid Business School, da Universidade de Oxford.

Atualmente, é CEO da Zambiazi, Dâmaso Sociedade de Advogados, onde atua com forte experiência em operações de crédito no agronegócio e suas implicações jurídicas e judiciais. Também é CEO e fundador da GIRA, empresa vinculada ao ecossistema do Santander, voltada a soluções inovadoras no setor.
Um dos pontos centrais da discussão foi apresentado na palestra “De Saca a Especiaria”, que evidenciou um cenário preocupante: apesar da alta qualidade e produtividade do cacau brasileiro, especialmente em regiões tradicionais como o Sul da Bahia, os produtores ainda recebem uma parcela reduzida do valor final gerado no mercado de chocolates premium. A dependência do modelo baseado em commodities mantém os agricultores expostos à volatilidade dos preços internacionais.
Como resposta a esse cenário, a proposta defendida durante o encontro aponta para uma mudança estrutural na forma de atuação dos produtores. Em vez de ampliar apenas o volume de produção, a estratégia sugerida é investir na transformação do produto, agregando valor por meio da qualidade, rastreabilidade e diferenciação. A transição simbólica, segundo o palestrante, é sair da lógica da “balança” para adotar a visão da “lupa”.
Dentro dessa perspectiva, ganha destaque o conceito de verticalização intermediária, considerado um modelo acessível e de rápida implementação. A estratégia envolve a produção de amêndoas premium, destinadas ao mercado de cacau fino, e o aproveitamento das amêndoas menores para a produção de nibs de cacau, insumo valorizado pela indústria alimentícia e pelo segmento de produtos saudáveis.

A viabilidade econômica do modelo também chamou atenção dos participantes. De acordo com os dados apresentados, uma saca de cacau que atualmente gera cerca de R$ 1.000 pode ter seu valor mais do que duplicado com a adoção de práticas adequadas de pós-colheita, especialmente nos processos de fermentação e secagem. Essas etapas deixam de ser vistas como simples custos operacionais e passam a ser tratadas como investimentos diretos na construção de qualidade e valor do produto.
Outro desafio abordado foi o acesso ao mercado. Nesse contexto, a plataforma BCK foi apresentada como uma solução estratégica, conectando produtores a compradores premium e oferecendo suporte em rastreabilidade — requisito cada vez mais exigido por mercados internacionais, como a União Europeia.

A mensagem final reforçou a necessidade de reposicionamento dos produtores dentro da cadeia produtiva, valorizando seu papel não apenas como fornecedores de matéria-prima, mas como protagonistas na geração de valor no mercado do cacau.
A programação da Imersão do Cacau continua nos próximos dias e terá como destaque o pesquisador Raul Valle, próximo palestrante do evento. Reconhecido por sua atuação em pesquisa e desenvolvimento voltados à cacauicultura, Valle deve aprofundar o debate sobre inovação, produtividade e sustentabilidade no setor.
Ao todo, o evento prevê doze dias de atividades voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do cacau, reunindo especialistas, produtores e lideranças de diversas regiões do Brasil.






