
Roberto Lessa

Demanda
A narrativa dominante sustenta que a demanda por cacau caiu porque o consumidor final não aceitou a forte alta de preços na prateleira. O chocolate teria ficado caro demais e, por isso, o consumo estaria recuando de forma estrutural.
A realidade é outra.
A retração da demanda não nasceu na prateleira, nem no comportamento do consumidor. Ela foi decidida no conforto do escritório, entre carpete, ar-condicionado e planilhas de Excel, em um movimento coordenado, deliberado — e não como resultado orgânico de mercado.
Os grandes chocolateiros optaram, de forma sincronizada, por alterar formulações para preservar margens econômicas, reduzindo:
o teor de cacau nos produtos;
o uso de manteiga de cacau;
e ampliando substituições técnicas e diluições de custo.
Portanto, a chamada “queda de demanda” não reflete rejeição do consumidor ao chocolate. Reflete uma decisão estratégica da indústria de consumir menos cacau por unidade vendida.
Trata-se de uma retração induzida, não orgânica. Nesse processo, o ESG saiu pela janela — ou tirou férias.
Oferta
No lado da oferta, a narrativa aponta para uma safra melhor na África Ocidental, sugerindo recuperação produtiva e normalização do balanço global. Na prática, a safra atual ainda é ligeiramente inferior à do ano passado — que já havia sido fraca. Não há evidências concretas de recuperação estrutural.
Mais relevante do que o curto prazo é o fundamento biológico da oferta. Cerca de 60% da produção mundial de cacau está concentrada na África Ocidental, onde o ativo produtivo — as árvores — encontra-se:
envelhecido;
debilitado;
com perda relevante de densidade por hectare;
exposto a secas recorrentes;
e sob pressão crescente do vírus do broto inchado.
Esses fatores não se resolvem rapidamente. Plantios novos não compensam, no curto prazo, árvores mortas ou improdutivas. A natureza não dá saltos.
O risco estrutural conscientemente ignorado
O ponto mais subestimado — e conscientemente ignorado — na narrativa de oferta é o avanço do vírus do broto inchado. Diferentemente de doenças fúngicas, vírus não se combate com manejo químico. A única solução é a erradicação da planta infectada — ou seja, a perda definitiva daquele ativo produtivo.
Com lavouras antigas, já fragilizadas, e agora sob um cenário de preços mais baixos, o incentivo ao cuidado adequado diminui. O efeito combinado tende a ser:
avanço mais rápido da doença;
maior mortalidade de plantas;
e aceleração da perda estrutural de oferta.
Conclusão
A demanda pode até ser artificialmente comprimida no curto prazo por decisões industriais. Mas quando o problema está no ativo biológico, especialmente em uma região que concentra 60% da produção global, o ajuste não é suave nem rápido.
A queda de oferta que se desenha não será gradual; ela tende a ser vertiginosa. E quando o mercado for obrigado a reconhecer o descompasso entre narrativa e realidade, o repique de preços tende a ser mais intenso do que o recente — justamente porque os fundamentos estruturais estarão ainda mais fragilizados.
O olhar de curto prazo dessas indústrias está voluntariamente focado em resolver a emergência — o hoje — salvaguardando margens imediatas e bônus executivos. Essa solução emergencial, míope e sabidamente temporária, estourará.
A sincronicidade usada para promover a compressão artificial da demanda deveria ser redirecionada para a base da cadeia produtiva — fortalecendo produtores, recuperando o ativo biológico e garantindo sustentabilidade real ao sistema.
A natureza não dá saltos. Mas o mercado, quando ignora a base, cobra a conta. Com juros.
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Roberto Lessa é Engenheiro Agrônomo com MBA em gestão e economia pela FGV, Ohio e Stanford (Escola de Estratégia). Com mais de 30 anos de experiência no setor agrícola, possui expertise adicional de mais de 20 anos em exportação, focado em descoberta de nichos e clientes especiais. É o fundador da Fazenda Vila Opa.







Ótimas informações e como sempre, bem fundamentadas. Texto esclarecedor e bastante útil.