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Viva o Dia Mundial do Cinema – a fogueira das narrativas que não se apagam no nosso imaginário e nos encantam desde 1895

Por Dirceu Martins Alves

 

Neste dia 05 de novembro comemora-se o Dia mundial do cinema. A data é uma referência ao remarcado 05 de novembro de 1895, quando os irmãos Lumière projetaram a primeira sessão de cinematógrafo, A chegada do trem à estação. Assistiram àquela sessão umas 30 pessoas, que se assustaram e se encantaram. Os irmãos franceses tinham acabado de inventar o cinematógrafo, novidade tecnológica que logo conquistaria o coração do povo. O homem já sabia projetar imagens em movimentos desde as tochas nas cavernas, ou as sombras chinesas, mas sempre imagens provisórias. Com o surgimento do cinematógrafo deu-se um passo técnico-científico: logrou pela primeira vez fixar a imagem em movimento de forma perene. E cada avanço tecnológico foi criando formas de ver a arte, novas relações com a imagem-tempo através das telas dos cinemas.

A chegada do trem à estação. Irmãos Lumière

No começo o cinema era mudo, e em preto branco. Mesmo assim, grandes filmes do período tiveram muito sucesso de público nos cinemas, e estabeleceram as bases cinematográficas. Clássicos de Charles Chaplin como Carlitos Repórter (1914), o filme que marcou a estreia de Chaplin no cinema. Seguido de O Vagabundo (1915,) e O Garoto (1919). Se Chaplin se destacou pelo carisma de seus personagens Repórter, Vagabundo e Garoto, representados com a graça teatral da pantomima no cinema, devemos a D. W. Griffith a experimentação criadora de uma linguagem do cinema com o filme O nascimento de uma nação (1915). O filme era originalmente apresentado em duas partes, separadas por um intervalo. Apresenta a vida de duas famílias durante a Guerra de Secessão (1861-1865) e a subsequente Reconstrução dos Estados Unidos (1865-1877). Na temática o filme foi considerado racista pelo modo negativo que representa os negros e pelo modo suavizado que apresenta a Ku Klux Klan (cuja fundação foi romantizada como uma força heróica). O filme e também seu diretor, Griffith, foram muito elogiados pelo cineasta russo Serguei Eisenstein, que comparou a técnica  de   Griffith à do escritor Charles Dickens, renovador das técnicas narrativas literárias. O filme mexeu com o imaginário então recente dos norte-americanos de tal modo, que talvez tenha sido a primeira vez que a crítica social e o debate político tenham se dado a partir de um filme. Apesar do enorme sucesso comercial que o longa fez, a queixa de que se tratava de um filme racista foi tanta que inspirou D. W. Griffith a produzir Intolerância (1016), ano seguinte, com o qual o cineasta continuou desenvolvendo técnicas e linguagens para o cinema.

 

O Vagabundo. Charles Chaplin

Outro filme notável do período mudo do cinema é o estadunidense Greed (bra: Ouro e Maldição), (1924), escrito e dirigido por Erich von Stroheim. O roteiro é baseado no romance McTeaghe, de Frank Norris, e conta a história de dois homens urbanos, que por inveja e ambição empreendem uma luta de vida ou morte um contra o outro. Na última parte do filme os dois personagens já deixaram a cidade e se encontram no deserto, quando o filme ganha paisagem e elementos narrativos de faroeste. Eles lutam fisicamente em torno do malote de dinheiro, cada um querendo tudo só para si. Caídos exaustos no chão ao lado do dinheiro, ambos assistem atônitos a mula que os servia fugir levando o único cantil de água que restava. Desse modo, o cinema demonstrou que também sabia fazer finais surpreendentes como o romance, além de apresentar um ethos para sociedade.

A Rússia, então designada como União Soviética, apresentou várias propostas experimentais de cinema com vários cineastas russos. O mais conhecido dos seus cineastas é Serguei Eisenstein, que se notabilizou por seus filmes mudos: A Greve (1924); O  Encouraçado Potemkin (1925); e, Outubro (1927). O mesmo Eisenstein que elogiou a técnica cinematográfica de Griffith em 1915, dez anos depois já estava criando, ele mesmo, novas técnicas como sincronias, cortes e montagem paralela. Como negar a importância dessa máquina de narrar que é O  Encouraçado Potemkin para o desenvolvimento das linguagens cinematográficas. O crítico brasileiro  de cinema  Arlindo Machado disse que não temos pesquisas que contem a história da televisão através do que ela produziu ao longo do seu tempo, mas no caso do cinema, bastaríamos pegar os filmes O  Encouraçado Potemkin (1925); Cidadão Kane (1941); 2001 Uma odisseia no espaço (1968); e, O Ano Passado em Marienbad (1961), que já bastariam para contar a história do cinema.

 

     PontemKin. Eisenstein.                     

  Cidadão Kane. Orson Welles

 

No caso do Brasil temos “O Dia do Cinema Brasileiro”, que é celebrado em 19 de junho, em referência ao dia 19 de junho de 1898, quando o italiano Afonso Segreto, à bordo do navio Brésil, registrou imagens da Baía de Guanabara. O navio Brésil, que havia saído de Bordeaux, na França, onde Segreto tinha acabado de fazer um curso sobre a operação do cinematógrafo e, de lá trouxe um dos equipamentos para o Brasil, com o qual registrou as primeiras imagens no nosso país.

Na América Latina o caso mais notável do cinema como encantamento imediato do povo foi o México. Assim que os irmãos Lumière lançam o cinematógrafo em 1895, Thomas Edison reivindicou a patente como também inventor do cinematógrafo. Houve disputa comercial e discordância sobre quem teria inventado primeiro. O fato é que ambas as empresas lançaram suas máquinas no mercado. Os executivos dos irmãos Lumiére e da Thomas Edison Agência chegaram ao México, oferecendo a máquina que filmava. Segundo a pesquisa de Aurelio de los Reyes, publicada no livro Los origines del cine en México 1896 – 1900, houve um engenheiro chamado Toscano Barragán, que já em 1896 comprou um cinematógrafo diretamente dos irmãos Lumiére, e abriu uma sala de cinema na rua Jesus Maria, na Cidade do México, dando-lhe o nome de Cinematógrafo Lumiére. O espaço era iluminado com luz elétrica, e para amenizar as funções contava com um fonógrafo Edison de buzina e cilindros de cera. A entrada custava dez centavos.

Os executivos vindos da França organizaram uma sessão demonstrativa da máquina de filmar para a qual convidaram os cientistas: médicos, fisiologistas, engenheiros, físicos, matemáticos etc. Para ter material de demonstração, fizeram alguns registros pelas ruas da cidade. Qual não foi a surpresa ao verem o encantamento do povo que se via na tela: Uns diziam: “Oh, que pena que eu não sabia, pois não teria vestido essa camisa velha!”. E outros: “Ah, se eu soubesse teria saído de casa de sapatos, e não apareceria descalço como estou aí!”

As máquinas dos irmãos Lumière filmavam e projetavam, já as de Thomas Edison necessitavam de um projetar. Logo também chegaram os ingleses para disputar o mercado. E assim os cinemas foram crescendo no México com a adesão popular. Os primeiros cinematógrafos foram instalados no centro das Cidade do México e Guadalajara. Logo foram se espalhando para os subúrbios e outras cidades. Abrir um novo cinema consistia em tomar um terreno baldio, tirar um alvará na prefeitura, e instalar uma tenda de circo. Aumentava tanto o número de cinemas no México que os donos de teatro foram às prefeituras pedir para não concederem mais alvará de cinema. Estavam gastando muito dinheiro para trazerem as mais renomadas cantoras de ópera da Itália e os teatros estavam ficando vazios. Surgiu também a ideia de que o cinema seria uma coisa de Satanás. Alguns seminários e reitores pediam para ver a programação antes de exibirem para seus pupilos. A Igreja Católica logo difundiu que o cinema seria uma coisa inerente ao Cristianismo. Um jornal católico por volta de 1900 publicou que nos finais de semana com sessões de cinema ocorriam menos brigas e menos mortes, logo o cinema só poderia ser uma coisa de Deus. Os jornais da época contam como o povo levava seus objetos pessoais nas casas de penhora para conseguir o dinheiro do cinema e, até dente de ouro consta.

No catálogo de exibição nos cinemas mexicanos de 1902 a 1906 estavam os filmes de Georges Méliès, Joana d`Arc (1900); Viagem à Lua (1902); Viagem através do impossível (1904). Esses dois últimos inspirados na obra de Júlio Verne, narram jornadas estranhas, surrealistas e fantásticas. Georges Méliès foi o primeiro cineasta a perceber que o cinema serviria para contar histórias e encantar as pessoas, e não instrumento de cientistas.

Viagem à luaGeorges Méliès

Em 1927 chegou o som ao cinema. O marco é o filme The Jazz Singer – (bra: O cantor de Jazz). Já se conhecia um filme sonoro holandês de 1916, mas foi com O cantor de Jazz que se conseguiu pela primeira vez sincronizar o som ambiente, os diálogos dos personagens e a trilha sonora. Como os cinemas ainda não estavam adaptados para exibições sonoras, o filme passou um ano ainda sendo exibido como cinema mudo. O cantor de Jazz é um filme irregular, dizem, pela técnica e enredo. Muito criticado, hoje, por ter usado blackface (branco com o rosto pintado de negro) no personagem do ator Al Jolson. Mas é um filme fundamental para o curso da história do cinema. O som é a energia do filme. Também os antropólogos documentaristas se animaram com a possibilidade de captar não apenas as ações, mas também a voz de seus documentados.

O cantor de jazz. Alan Crosland. O primeiro filme falado.

O cinema teve pouco tempo para se adaptar à novidade do som, antes de receber a cor nos anos de 1930. Desde o começo do cinema que se desenvolveu técnicas de colorir os filmes. Mas no começo da década de 30 as películas já eram gravadas em duas cores. Era uma produção colorida ainda imperfeita porque não tinha a cor azul. Grandes produções que estavam sendo feitas por Hollywood, nas quais utilizavam milhares de figurantes e cenários grandiosos foram abandonadas com a chegada da cor. Os estúdios de Hollywood entenderam que precisavam fazer filmes menores e coloridos imediatamente. Alguns anos depois, máquinas filmadoras extragrandes passaram a expor três negativos simultâneos e a cor azul foi inserida, dando algo próximo da cor que temos hoje.

Paris, Texas. Wim Wenders.

A  explosão de cores de Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, demonstra que ele é um filme que nasceu no século XX, mas que aponta para o século XXI, onde as cores, mais do que nunca, conduzem tensões nas narrativas.

Em 1993 surgiu o videocassete e o cinema como espaço de socialização de narrativas sofreu um baque. Falou-se muito na morte do cinema. Mas a indústria cinematográfica soube se adaptar às novidades do videocassete e do DVD com os Blockbusters. A chegada do digital também revigorou o cinema e barateou os custos para cineastas independentes. O serviço de streaming de cinema tem facilitado muito o acesso. Mas mesmo aumentando a quantidade de exibições domésticas, as pessoas continuam indo ao cinema, desde 1895. O filósofo Gilles Deleuze diz que o cinema não morre porque cada vez que se acende uma tela numa sala de cinema, é como se acendesse uma fogueira do homem das cavernas, em volta da qual vai se contar uma história. Viva aos cineastas que nos contam histórias. Viva o Dia mundial do cinema!

Dirceu Martins Alves é  professor   titular do Dpto de Letras e Artes da UESC, curso de Comunicação Social. É escritor, roteirista e cineasta.

 

(Fotos Acervo do autor)

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