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A atualidade do pensamento de Nelson Schaun e o momento atual da cacauicultura brasileira

Por Durval Libânio Netto Mello

Pesquisador e produtor na área de cacau e chocolate

 

 

“Averiguar qual a existência das gerações que passaram, eis o mister da História.”

— Alexandre Herculano, apud Schaun (2018)

 

Durval Libânio

O pensamento de Nelson Schaun, expresso no artigo “O aproveitamento do cacau na economia doméstica”, publicado em 1940 na revista Seiva e republicado no volume Nelson Schaun merece um livro (2018), revela uma atualidade notável frente aos dilemas contemporâneos da cacauicultura brasileira. Ao propor o uso doméstico do cacau, Schaun antecipava um debate sobre modelos de desenvolvimento que, ainda hoje, estrutura as disputas em torno da cadeia do cacau, do chocolate e da floresta. Desde o início, estava posta a tensão entre um modelo agroexportador, centrado na produção de grãos a baixo custo para grandes indústrias, e um modelo territorial, voltado à qualidade, ao valor agregado, à saúde e à sustentabilidade.

 

Quando o autor observa que “até agora só se conhece o valor do cacau como produto comercial. E nada mais”, ele formula uma crítica precoce às políticas que historicamente transformaram o cacau em fonte fiscal e cambial, mas não em alimento estratégico nem em vetor de desenvolvimento regional. Sua defesa da “popularização do consumo” por meio da produção caseira de chocolates, licores e derivados representava, assim, uma proposta de internalização de valor que contrastava frontalmente com o modelo da época e posterior, de dependência industrial e de importações subsidiadas. Schaun intuía que o verdadeiro potencial do cacau não estava em sua exportação, mas em sua transformação social e econômica dentro do território produtor.

A crítica de Schaun ganha força quando observamos que, apesar do expressivo crescimento do mercado nacional de chocolate nas últimas décadas, a renda continua altamente concentrada nas grandes indústrias e cadeias de varejo. O consumo interno expandiu-se, mas os produtores permanecem com uma fração mínima do valor gerado. Nesse sentido, o autor antecipa postulados que só mais tarde seriam incorporados à ordem constitucional brasileira: o reconhecimento do mercado interno como patrimônio nacional e a necessidade de políticas capazes de promover uma distribuição equitativa de renda ao longo dos elos produtivos.

 

O movimento contemporâneo do bean to bar pode ser compreendido como continuidade ampliada da proposta original de Schaun. O que antes era “fabricação caseira” transforma-se em domínio técnico sobre fermentação, secagem, torra e formulação, controle de origem e diversificação de produtos com maior valor agregado. Mais do que uma mudança de escala, trata-se da consolidação de uma mesma lógica: aproximar produção e consumo, autonomia técnica e valorização do território produtor. Atualmente, essa lógica se expande pelo uso integral do fruto — polpa, mel, casca e mucilagem — gerando bebidas, ingredientes, bioinsumos e cosméticos. Assim, o cacau reafirma-se como eixo de uma bioeconomia regional e de múltiplas fontes de renda, aprofundando a visão de Schaun de que o cacau pode “melhorar as condições de vida” ao integrar saúde, nutrição e prosperidade rural.

A inserção do cacau na economia doméstica, entretanto, transcende o aspecto econômico. Ela gera simbolismo e pertencimento: receituários, festas, práticas culinárias, oficinas e memórias coletivas transformam o fruto em elemento identitário. Esse capital cultural, hoje visível nos arranjos produtivos locais de cacau e chocolate, constitui patrimônio imaterial e motor de um turismo experiencial que combina agroindústria, gastronomia e conservação. Em territórios como o sul da Bahia, a cadeia do cacau tornou-se também cadeia de sentido — articulada em narrativas históricas de resistência (vassoura-de-bruxa, agroecologia, reforma agrária) e em iniciativas de valorização cultural.

 

A concretização plena desse projeto exige, porém, um ambiente institucional coerente. Schaun já diagnosticava a ausência de escolas rurais, infraestrutura e assistência técnica como entraves estruturais à prosperidade agrícola. Décadas depois, mesmo com a criação de instituições como o ICB e a CEPLAC, o Estado continuou a tratar a base produtiva como mera fornecedora de divisas, negligenciando políticas de longo prazo para qualidade, mercado interno e sustentabilidade. A superação desse impasse requer reorientar a ação pública para apoiar a produção familiar, a agroindústria local e o fortalecimento das economias territoriais.

Hoje, a convergência entre sistemas agroflorestais (cabruca e similares), chocolates de origem, uso integral do fruto, turismo de cacau e arranjos produtivos locais desenha um novo paradigma de desenvolvimento territorial sustentável. Ele se caracteriza por três dimensões complementares: econômica, ao diversificar atividades e ampliar a renda na origem; social, ao criar empregos qualificados e valorizar saberes tradicionais; e ambiental, ao associar conservação e geração de renda via sistemas agroflorestais.

 

Desse modo, o texto de Nelson Schaun deixa de ser apenas um registro sobre culinária rural e assume caráter precursor de uma agenda contemporânea de sustentabilidade e desenvolvimento territorial sustentável. Sua visão antecipa, com notável lucidez, a noção de que a verdadeira modernização da cacauicultura brasileira depende de um projeto territorial em que economia doméstica, agroindústria local, turismo, cultura e conservação formem um mesmo sistema de vida e prosperidade compartilhada.

Referências:

 

Nelson Schaun merece um livro… / Maria Schaun (org.). – 2. ed. – Ilhéus, BA: Editus, 2018.                                       265 p.: il.

 

Dispónivel em:

 

https://www.uesc.br/editora/livrosdigitais2019/nelsonschaum-mereceumlivro.pdf

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