
Por Durval Libânio Netto Mello
Produtor e pesquisador na área de cacau e chocolate
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Em certas páginas de nossa história literária, o cacau não é produto: é pulso. O sul da Bahia surge como um corpo escuro, lento, atravessado de raízes, rios fundos, troncos que respiram. A palavra anda devagar nesse barro: cada frase parece sujar o pé, cada imagem traz na borda o brilho da lama, do sangue seco e da autoridade áspera dos donos da terra, que mandam tanto quanto chove. É um mundo em que a mata não decora a história: é a própria história tentando se dizer, densa demais para caber em mapa turístico. O leitor sai dessas linhas com a sensação de ter tocado um chão vivo, um chão de cacau que não cabe em fotografia aérea nem em relatório bem diagramado de ESG, onde coronéis viram “agentes econômicos” e a desigualdade se esconde atrás de gráficos.
Quando essa escrita se enfia na selva, o espaço se fecha como um pensamento ruim. A floresta é mais que sombra: é um locus horribilis em que galhos, raízes e rios participam do destino dos homens. Nada é neutro. Um tronco caído pode ser ameaça, refúgio ou sentença; um cacaual pesado de umidade pode ser abrigo e armadilha ao mesmo tempo. A violência não vem “de fora”; ela brota da própria terra, misturada ao desejo, à culpa, à febre — e à mão pesada dos coronéis, para quem a pobreza é apenas mais um instrumento de mando, hoje disputado, em outro idioma, por uma indústria distante que também administra carências e expropriação como parte do negócio. A prosa lateja, cheia de silêncios densos, como se a língua tivesse de abrir caminho na mata a facão, rasgando ao mesmo tempo o velho mando do senhor de terra e a nova lógica do senhor de marca, que domina não mais pelo barracão, mas por uma linguagem distante que vende ilusão, disfarçada de modernidade. As mesmas empresas que celebram metas ambientais e sociais lá de cima são as que, cá embaixo, sustentam um sistema em que a floresta precisa ser mais barata que o marketing. Ainda assim, por entre o horror, alguma coisa resiste: o corpo colado ao chão, a teimosia da raiz, a fidelidade da árvore que não abandona a beira do rio.

Quando a narrativa desce para a linha do mar, essa mesma voz muda de luz, mas não de nervo. A baía de Ilhéus aparece como um espelho quebrado entre Luanda, Beira e Bahia; o porto é uma fronteira inquieta, onde navios rabiscam, com seus trajetos, um mapa de afetos e perdas que atravessa o Atlântico. À sombra de uma gindiba à beira‑mar, vidas inteiras se encostam: infância, conversa, fadiga, desejo de partir e medo de não voltar. A árvore vira centro de gravidade de um pequeno mundo salgado. Quando, um dia, ela cai para ser madeira de caixão — e, quem sabe, de canoa —, é como se o romance mostrasse, em um só gesto, a passagem da raiz ao fluxo: o que antes segurava o povoado no chão se oferece, agora, à linguagem inquieta do mar, enquanto a pobreza, que antes se curvava aos coronéis, passa a negociar com um novo senhor distante, que chega na forma de carga e deságio de preços.
É nesse ponto que a escrita de ontem toca o presente de forma mais aguda. O gesto que derruba a árvore à beira‑mar se espelha, hoje, no raleamento da cabruca para dar lugar a novos discursos malthusianos, nos navios que atravessam o Atlântico levando e trazendo cacau, nas fórmulas que prometem “sabor chocolate” com cada vez menos fruto e cada vez mais abstração. A paisagem continua sendo o lugar onde a história se escreve: o cacau sombreado, a mata fragmentada, o porto iluminado, o mar indiferente. O estilo que um dia nomeou esse mundo como chão de cacau permanece atual não por nostalgia, mas porque ainda oferece a espessura necessária para ler um tempo em que a violência deixou de ter apenas o rosto do coronel e passou a falar a linguagem de índices, siglas e rótulos.

Nessa dobra entre mata e mar, entre gindiba e porto, a escrita de Adonias continua a pingar cacau sobre o nosso presente. Ela nos lembra que o espaço nunca foi cenário: sempre foi personagem, ferida e testemunha. Ao reler hoje a lama espessa de um romance, o ensaio que nomeia o sul da Bahia como chão de cacau, o livro em que a cidade portuária espia um Atlântico dividido, é difícil não reconhecer ali a anatomia do agora: a tensão entre raiz e travessia, entre floresta e indústria, entre sombra e vitrine; a pobreza de antes, dobrada entre jagunços e coronéis, e a pobreza de hoje, comprimida entre planilhas e marcas globais. O mundo mudou de roupas, de siglas, de embalagens; a prosa, não. Ela segue insistindo em um gesto simples e radical: fincar a palavra na terra, até que dela volte a subir o cheiro forte de cacau, chocolate e memória — lembrando que, por trás de cada doçura, ainda há um chão e um povo que continua a esperar por justiça.
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Revisão: Thaís Velloso Rudin – Mestre em Literatura ( ex-nora de Adonias Filho, que revisou a maioria das suas obras).







Gratidão Durval Libânio . A fartura da Mata Atlântica da Costa do Cacau merece ser restaurada na Cultura da Paz e Cuidado Sócio Ambiental exemplar. Brasil é líder. Temos que planejar para assumir sem vergonha. Abraço.