
Por Paulo Peixinho
Produtor de cacau — Sul da Bahia | Brasil
“A economia recompensa adaptação. O mercado recompensa estratégia.”

Durante quase um ano, o principal tema das discussões na cacauicultura brasileira tem sido o deságio pago ao produtor. As reclamações se multiplicaram nas redes sociais, em reuniões e em manifestações diante das indústrias processadoras.
O descontentamento é compreensível. Entretanto, existe uma pergunta que merece reflexão: o que realmente muda quando apenas reclamamos?
A economia é regida por leis que independem da nossa concordância. Reclamar da oferta e da procura é quase como discordar da lei da gravidade. Quando compreendemos uma lei da natureza, adaptamos nosso comportamento. Se o céu está carregado de nuvens e precisamos sair, levamos um guarda-chuva. No mercado, a lógica é semelhante.
O deságio decorre de fatores amplos: oferta e demanda, concorrência internacional, qualidade, logística, capacidade industrial e dinâmica global da cadeia do cacau. Se não controlamos essas variáveis, devemos concentrar energia naquelas que podemos controlar.
Entre os caminhos disponíveis estão o investimento em qualidade, a produção de cacau fino e especial, a agregação de valor por meio de derivados como nibs e a busca de novos mercados. Nenhuma dessas alternativas é simples, mas todas exigem menos esperança e mais estratégia.
Também é legítimo discutir a atuação das processadoras. Contudo, transformar o principal comprador em inimigo permanente raramente fortalece uma relação comercial. Negociação, informação e profissionalismo tendem a produzir resultados mais consistentes.
O Brasil representa cerca de 5% da produção mundial de cacau. Somos relevantes, mas não definimos isoladamente os preços internacionais. Ao mesmo tempo, o crescimento do consumo de chocolate na Ásia, especialmente na Índia, cria oportunidades para produtores competitivos.
O Sul da Bahia reúne tradição, pesquisa científica, universidades, assistência técnica, indústria instalada e produtores experientes. O desafio não é criar competências, mas utilizá-las de forma coordenada.
Esperar que um eventual El Niño eleve os preços internacionais também não constitui uma estratégia. Se o fenômeno ocorrer, seus impactos poderão atingir igualmente nossas lavouras.
Em última análise, o futuro da cacauicultura brasileira dependerá menos do que não controlamos e muito mais da capacidade de produzir melhor, agregar valor, compreender o mercado e transformar informação em decisões.
A questão central não é se o mercado deveria ser diferente. A verdadeira questão é como prosperar no mercado que realmente existe.






