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Quem teme a liderança do Brasil no cacau?

Por Antônio Carlos Magnavita Maia
Médico e cacauicultor

O Brasil talvez seja o único país a reunir, simultaneamente, condições naturais, ambientais e históricas para exercer uma liderança sustentável na cacauicultura mundial.

O cacaueiro é uma espécie florestal originária da Amazônia. Foi, porém, na Mata Atlântica do sul da Bahia — ecossistema de características semelhantes — que encontrou um de seus ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento. Não por acaso, o Brasil chegou a ser, no início do século XX, o maior produtor mundial de cacau.

Essa vocação representa muito mais do que uma vantagem agrícola. Ela revela a possibilidade de um projeto nacional baseado no mercado interno, na produção, na exportação, na agregação de valor, na industrialização e na sustentabilidade.

Ao longo das últimas décadas, essa trajetória foi interrompida. O desaparecimento de mais de trinta tradicionais exportadoras brasileiras, a aquisição de importantes processadoras nacionais por grupos internacionais, a derrocada da Copercacau e da ITAISA, a devastação provocada pela vassoura-de-bruxa e o prolongado período de preços deprimidos reconfiguraram profundamente a cadeia produtiva, reduzindo a capacidade nacional de comercialização, processamento e organização do setor.

Nesse contexto, o enfraquecimento da CEPLAC — instituição construída com recursos dos próprios produtores e responsável por um dos mais importantes programas de pesquisa agrícola do país — suscita uma indagação inevitável: tratou-se apenas de um processo decorrente de circunstâncias internas ou também contribuiu para consolidar um modelo de maior dependência externa, refletido nos persistentes deságios impostos ao cacau brasileiro?

Essa sucessão de acontecimentos suscita perguntas inevitáveis. O potencial brasileiro incomodava? Foram apenas fatos independentes? Houve interesses econômicos que favoreceram a concentração internacional do mercado? Ou ações conspiratórias deliberadas contribuíram para esse desfecho?

São perguntas legítimas. Respondê-las exige pesquisa histórica, transparência e debate, sem preconceitos nem simplificações.

Mais importante do que discutir o passado, porém, é construir o futuro.

O Brasil continua possuindo aquilo que nenhum outro país pode reproduzir: território, clima, água, biodiversidade, conhecimento técnico, tradição produtiva e dois patrimônios ambientais únicos — a Floresta Amazônica, berço do cacaueiro, e a cabruca da Mata Atlântica, sistema agroflorestal que concilia produção, conservação e regeneração ambiental.

A verdadeira questão não é se o Brasil pode voltar a liderar a cacauicultura mundial, mas se teremos vontade política, organização institucional e visão estratégica para transformar esse potencial em realidade.

Homens como Inácio Tosta Filho compreenderam que a independência da cacauicultura brasileira depende do fortalecimento do produtor, da ciência, da parceria entre as instituições e da organização do mercado.

Hoje, chegou a hora de retomarmos esse projeto e assumirmos as rédeas do nosso destino.

Um projeto nacional capaz de fortalecer toda a cadeia produtiva, agregar valor ao cacau brasileiro, remunerar com justiça quem produz e promover a industrialização coletiva por meio de moageiras pertencentes aos próprios produtores, sem deixar de estimular as iniciativas individuais voltadas à produção de cacau fino, à fabricação de chocolates e ao desenvolvimento de outros derivados, estratégias igualmente importantes para ampliar a competitividade e a diversidade da cacauicultura brasileira.

Apesar de todos os obstáculos das últimas décadas, nenhum outro país reúne as condições naturais, ambientais, científicas e humanas que o Brasil possui para liderar a cacauicultura do século XXI. Se transformarmos essa vocação em um verdadeiro projeto de Estado, construiremos uma cacauicultura soberana, sustentável e competitiva, devolvendo ao Brasil o protagonismo que sua história lhe concedeu, que a natureza lhe confiou e que seu povo é plenamente capaz de reconquistar.

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