Brasil precisa discutir como vender mais cacau antes de ampliar produção
A expansão da oferta precisa vir acompanhada de novos mercados, qualidade, crédito e governança

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

O Brasil voltou a discutir a expansão da produção de cacau. A proposta é positiva, mas traz uma pergunta essencial: quem comprará o cacau adicional produzido pelo país?
A história mostra que produzir mais não significa, necessariamente, aumentar a renda do produtor. A criação da Organização Internacional do Cacau e os antigos mecanismos de buffer stock já refletiam essa preocupação. Mesmo assim, o crescimento da produção mundial e dos estoques contribuiu para a forte queda dos preços no início da década de 1990, quando o cacau chegou à região de US$ 800 por tonelada. No Brasil, esse cenário coincidiu com a disseminação da vassoura-de-bruxa.
Uma política de expansão da produção precisa ser acompanhada por uma política de comercialização.
Governança e representação
O setor também precisa discutir governança. Quem representa efetivamente os produtores? Quem articula seus interesses junto aos governos? Existe uma estratégia nacional capaz de integrar produção, qualidade, crédito, indústria e exportação?
Um encontro estratégico da cadeia poderia ajudar a responder essas questões. O objetivo deveria ser sair das reuniões tradicionais e transformar cada problema em compromisso concreto, com responsável, prazo e indicador de resultado.
Produtividade e qualidade
Dentro da fazenda, o foco precisa estar na produtividade, na qualidade e na redução de perdas. O Equador pode servir como referência para o aumento da produtividade e para a inserção internacional, sem que seu modelo seja simplesmente reproduzido.
A qualidade também precisa ser tratada como política econômica. Programas de apoio a fermentação, secagem, armazenamento e classificação podem melhorar o padrão do cacau brasileiro. Mas qualidade precisa ser remunerada.
Mercados e exportação
Ao mesmo tempo, o Brasil deve se preparar para ampliar exportações. Isso exige reconstruir mercados, identificar compradores, padronizar lotes, melhorar a logística, ampliar a rastreabilidade e criar mecanismos de financiamento à comercialização.
Outro ponto fundamental é aumentar o número de compradores. Cooperativas exportadoras, pequenas processadoras, contratos diretos com chocolateiros e mercados de cacau fino podem aumentar a concorrência e melhorar as alternativas de venda.
Crédito e estratégia
O crédito também precisa acompanhar o ciclo da cultura, com linhas para custeio, renovação de lavouras, pós-colheita e comercialização.
Mais do que estabelecer uma meta de produção, o Brasil precisa responder:
Quanto queremos produzir, com que qualidade, para vender a quem e com qual remuneração para o produtor?
O país tem condições de crescer. Mas o objetivo não deve ser apenas produzir mais cacau.
Deve ser produzir melhor, vender melhor e garantir que uma parcela maior do valor gerado permaneça com quem produz.






