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Alvinho e o Menino

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

 

Menino era como Alvinho chamava o irmão mais novo.

Com a experiência que a vida lhe dera, enxergou naquele garoto um futuro promissor.

Os pais já moravam em Jussari, mas o caçula passava a maior parte do tempo na loja, envolvido com o comércio de cacau, exceto quando estava estudando, pois o irmão mais velho, como não havia estudado, exigia que ele estudasse. Da vida rural, interessava-se apenas pela criação de gado.

Observava atentamente o fechamento do caixa que a cunhada fazia no fim de cada dia. Assim, aprendeu tudo. Chegou até a inventar códigos para substituir os números, evitando que os curiosos descobrissem quanto dinheiro havia entrado.

Aos 14 anos, já se considerava um homem feito. Copiou até a maneira de vestir do irmão: roupa de linho branco, como mandava o padrão da época. Mais tarde, nunca mais usaria outras cores, para não perder tempo escolhendo o que vestir.

Muito branco e de olhos cinzentos, aparentava ser mais velho. Namorador, sentia-se especialmente atraído por mulheres mais maduras e de pele morena.

Começou a trabalhar um turno na loja e aprendeu de tudo: medir tecidos, organizar caixas de pregos, comprar e vender cacau. Era esperto como poucos.

Certo dia, observando as caixas de querosene, fez as contas e percebeu que cada uma comportava aproximadamente duas arrobas de cacau mole. O irmão costumava doar aquelas caixas de madeira aos cacauicultores de menor condição financeira.

Então negociou para receber parte de seu pagamento em caixas. O mais velho não compreendeu exatamente o motivo, mas aceitou. O rapaz as guardava para revendê-las durante a safra, quando alcançavam preços melhores.

Parecia predestinado a se tornar um grande empreendedor.

À noite, enquanto os outros saíam para beber e conversar, ia à casa do irmão ouvir jazz, salsa e músicas românticas caribenhas.

Naquele tempo, Alvinho já desfrutava de uma situação financeira melhor. Era proprietário do maior estabelecimento comercial de Jussari, que o coronel Amado lhe havia passado para substituir o barracão das duas fazendas. Como era advogado, o coronel não queria levar a fama de que se aproveitava dos empregados.

Dizem que havia prometido o estabelecimento a outra pessoa, mas sua mulher, empoderada, exigiu que fosse entregue a ele, por sua fama de não cobrar juros dos empregados. Dizia que aquele a quem o coronel havia feito a promessa era preguiçoso e mandado pela mulher, uma rígida professora.

Assim, observando o comportamento do caçula, fez-lhe uma proposta: ele ficaria com o armazém e o pagaria em cinco anos.

Nos primeiros três meses, o rapaz comprou uma pequena fazenda de cacau. Muitos diziam que sempre havia sido atencioso com a proprietária idosa. Logo, antecipou as parcelas.

O irmão mais velho ficou feliz e viu no caçula um possível sucessor. Mas, como um era controlador e o outro, livre, nunca daria certo.

Passados uns dois anos, com o negócio de cacau indo bem, estava feliz com sua filha única e com o irmão, a quem considerava um filho. Então teve sua primeira decepção. Aos 17 anos, o rapaz avisou que se casaria com uma mulher mais velha.

O mais velho não concordava, talvez por não saber que a esposa que tanto amava tinha dez anos a mais do que ele e havia trocado os documentos lá no sertão. Afinal, décadas atrás, era complicado para mulheres mais velhas se casarem com homens mais novos.

O casamento aconteceu. Acabou aceitando — e não tinha como não aceitar. O caçula já fazia carreira solo e estava enriquecendo.

Também não aprovou quando o irmão tomou emprestado um dinheirão para plantar seringueiras. Dizia:

— Cacau e gado são bons. Seringa não presta. Já se viu tirar leite de pau e isso ser bom?

Com a fazenda de seringueiras toda plantada e o leite correndo, eis que o governo anunciou um pacote para a borracha.

Ao se lembrar do conselho, pensou:

— É hora de cair fora.

Foi o seu maior golpe de sorte. Lá pelas bandas de Coquinhos, depois de Palestina, hoje Ibicaraí, uma dupla de herdeiros — um intelectual e o outro ex-vendedor de remédios, cujo sogro havia rifado a nota promissória da filha, que dava a todo mundo — interessou-se pelo seringal.

Em troca, daria uma fazenda de gado, com porteira fechada e luz própria, algo raro na década de 1950. O negócio foi fechado, tudo foi acertado e os documentos, passados.

O irmão mais velho pulou de alegria: o caçula estava seguindo o caminho que ele imaginara. Porém, os dois estavam brigados.

O rapaz havia comprado um Jeep novo. Quando o vendedor perguntou quem seria o avalista, respondeu prontamente:

— Alvinho.

Ao falar com ele, ouviu, em tom de brincadeira:

— E você já pode comprar carro?

Saiu chateado e não falou mais com o irmão, a quem admirava. Para ele, deixar de cumprir um pagamento era uma ofensa pessoal — princípio que levou para a vida. Decidiu, então, afastar-se e dizia:

— Vou ser mais próspero do que ele.

E foi.

Quando os herdeiros perceberam a distância entre o anúncio do governo e a realidade, viram o mau negócio que haviam feito. Ameaçaram desfazê-lo, alegando que a vacada de leite não constava na escritura.

O irmão mais velho e os demais irmãos intervieram. Foram até a dupla e comunicaram com frieza:

— Não ameacem nem mexam com ele. Vocês o procuraram, fizeram o negócio em cartório e agora querem desistir. Isso não é coisa de homem de bem.

Um dos herdeiros era seu vizinho. Continuou falando com ele por medo, mas nunca esqueceu o prejuízo. Chegou até a oferecer emprego ao Pintado, homem de sua confiança, durante um período de baixa do cacau, quando se apertou financeiramente após comprar a fazenda mais produtiva da região, depois das Terras de Maria, do doutor Amado, lá na Serra do Teimoso.

Os irmãos se afastaram, mas o coração do caçula esteve sempre com o mais velho.

Como este costumava dizer, ele tinha estrela.

Quando as terras nada valiam lá pelas bandas de Itapebi, comprou uma sesmaria.

Suas terras eram a perfeição, e seu gado também. Foi homenageado muitas vezes pelos laboratórios veterinários. Seu exagero aprendera com o irmão: remédios e adubos, só comprava em grandes quantidades.

Muito sagaz, só tomou dinheiro emprestado até os 42 anos. A partir daí, abriu seu banco particular: tornou-se emprestador de dinheiro. Antigamente, chamavam-no de “agiota”, mas, diante das altas taxas de juros dos bancos, emprestava a juros mais baixos, dependendo de quem fosse o interessado.

Lia a alma do sujeito. Se não gostasse, dizia que o dinheiro estava aplicado. Se gostasse, o amigo-cliente teria aquilo de que necessitasse. Mas, a cada vencimento, tinha que pagar, ainda que, no dia seguinte, tomasse o dinheiro novamente.

Para ele, dever não era pecado; não pagar era uma ofensa pessoal. Tomava até as calças do sujeito.

Era mal falado pelos maus pagadores e homenageado pelos bons.

Por isso, não gostava de emprestar dinheiro a cacauicultores.

Se o sujeito fosse “devagar” — expressão de seu vocabulário pessoal para definir um preguiçoso —, comprava o gado e o entregava em sociedade. Depois, ia pessoalmente verificar o rebanho. Com o tempo, muitos acabavam vendendo-lhe as fazendas. Outros ganharam muito dinheiro, especialmente durante a inflação.

E assim cresceu sua sesmaria no extremo sul.

— Menino tem estrela — dizia Alvinho.

O irmão mais velho faleceu, mas, enquanto viveu, vibrava a cada sucesso do caçula.

E o vaticínio se materializou. O eucalipto deu certo no sul da Bahia, e ofereceram uma fábula de dinheiro pelas terras. Ele recusou.

Até que, certo dia, recebeu uma oferta sem precedentes. Já decidido, ainda assim chamou Beto, filho de Alvinho, a quem havia conhecido somente depois do falecimento do pai, e perguntou:

— Estão querendo me pagar em dólares e em ações. Não gosto de dólares. Tenho alguns aqui no cofre, que a gerente do banco me vendeu. E não entendo de ações. O que você acha?

Beto pediu alguns dias para estudar.

Enquanto isso, o tio partiu para as fazendas do sul a fim de procurar compradores para seu gado. Decidiu que venderia a fazenda, mas permaneceria em sua posse durante cinco anos, pois não encontrara quem comprasse o rebanho.

Também receberia, durante dez anos, o aluguel das torres das quatro operadoras de telefonia instaladas na propriedade.

Quanto ao pagamento, exigiria que 70% fossem pagos à vista, em reais, e aceitaria os outros 30% em ações, com o aval do presidente da WOOD EMO, na Finlândia.

A direção ouviu a proposta e ficou de estudá-la.

De volta a Itabuna, comunicou a proposta ao sobrinho. Beto lhe disse que, após seus estudos, concluíra que as ações eram boas, mas que os resultados poderiam melhorar em sete anos, quando as primeiras árvores seriam colhidas.

Ouviu atentamente e fez apenas um pedido: que Beto fosse tomar café com leite com ele uma vez por mês, às 17 horas, para informá-lo sobre os balanços. Pediu também que investigasse se a empresa brasileira pertencia ao mesmo dono da empresa finlandesa.

Passados alguns dias, durante um café às 17 horas, Beto confirmou que a empresa de eucalipto era mesmo finlandesa.

O tio disse:

— Fechei o negócio. Eles aceitaram, mas terei que ficar com as ações. Faça-me um favor: todo mês, informe-me sobre elas.

— Combinado — respondeu Beto.

E, durante três anos, na primeira segunda-feira de cada mês, Beto o atualizava. Pegava um caderno e, usando os códigos criados pelo tio muitos anos antes, atualizava o valor de seus ativos.

Certo dia, ligou para Beto de seu celular secreto, cujo número era reservado apenas aos VIPs, e pediu sua presença, se possível, às 17 horas. Um café com leite e um creme de requeijão o esperavam.

Às 17h10, Beto chegou. Discretamente, o tio olhou para o relógio, calculando o tempo, pois todos os dias, às 17h30, falava com todas as fazendas. Então, disse:

— Beto, essas ações já me deram um resultado melhor do que o gado e os meus empréstimos.

Beto respondeu:

— Meu tio, a tendência é que subam ainda mais.

Ele ponderou:

— Há algo que me diz que já está bom. Além disso, fiz uma oferta por uma fazenda lá para as bandas de Itarantim, pertencente a um pessoal de Salvador. Se eles aceitarem, não quero retirar o dinheiro que tenho aplicado, e os juros estão caindo. Como faço para vender as ações?

Expliquei.

O homem tinha estrela mesmo.

Era o início de 2007. Vendeu tudo. Logo depois, veio a crise. Além de ganhar, o homem não perdia

Um credor contou que tinha um encontro marcado com ele e estava tenso quando recebeu a notícia de que sua irmã havia falecido. Ficou tranquilo, pois imaginou que o encontro seria remarcado. Para agradá-lo, foi ao velório e ao enterro.

Terminado o enterro, dirigiu-se ao credor e, elegantemente, disse:

— Estou esperando você no escritório em 30 minutos.

O homem não acreditou que alguém que acabara de enterrar a querida irmã trataria de negócios naquele mesmo dia. Mas teve que ir.

Durante a conversa, depois de renovar o cheque, ouviu:

— Minha querida irmã descansou. Estava sofrendo muito.

Em seguida, colocou uma música clássica: a “Ave Maria”, de Gounod.

O ex-magnífico, semicomunista, ficou chocado ao ver como um tabaréu apreciava música clássica.

São tantas as histórias daquele homem que não caberiam em um único livro.

Com muito dinheiro na conta, agora restava esperar o resultado da proposta feita à família tradicional da capital baiana. Infelizmente, para sua momentânea tristeza, a matriarca chegou a fechar o negócio, mas desistiu.

Passado um ano, ele me ligou e disse:

— O pessoal esnobe da capital me procurou novamente. Agora irei sem expectativa. Só com o dinheiro.

Quando chegou lá, a velha e os filhos herdeiros estavam esperando por ele.

Como havia passado um ano, sua nova proposta era 30% menor e incluía a propriedade de porteira fechada. A casa-sede tinha obras de arte, móveis antigos e muita história.

Fechou a compra dos 140 alqueires por um preço melhor do que o anterior.

Essa é apenas uma das histórias daquele irmão mais novo que Alvinho chamava de Menino.

Na verdade, seu nome significa “próspero”, “aquele que floresce”, “florido”.

O garoto que aprendeu e aperfeiçoou tantas coisas com o irmão também deixou seus próprios ensinamentos:

— O acertado não é caro. Quem deve tem que pagar. E ser correto é um dever.

Acreditava que, agindo assim, o fluxo do universo devolveria tudo o que lhe haviam tirado.

Alvinho não viveu o bastante para acompanhar toda a trajetória do irmão caçula. Mas seu vaticínio se cumpriu:

— Menino tem estrela.

Aquele garoto de olhos cinzentos, que observava o caixa da loja, negociava caixas de querosene e sonhava ser mais próspero do que o irmão, floresceu.

E, mesmo seguindo caminhos diferentes, o irmão mais velho esteve sempre presente em cada conquista, em cada princípio e em cada decisão do caçula.

Porque há irmãos que se afastam na vida, mas nunca deixam de caminhar juntos dentro do coração.

 

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