
“Todo proprietário, possuidor ou parceiro de um pé de cacau é cacauicultor.
Distinguir é dividir, precisamos de união.
Somos todos do mesmo chão.”
Paulo Peixinho, produtor de cacau

A civilização do cacau no Sul da Bahia foi construída por homens e mulheres que chegaram a um território de floresta, grandes distâncias, comunicações precárias e limitada presença do Estado.
Antes da riqueza, do coronel, do comerciante, do exportador e da indústria, existiu o homem que entrou na mata. Muitos eram migrantes em busca de trabalho, terra e ascensão social. O cacau representava a possibilidade de transformar trabalho em propriedade e produção em dignidade.
Era uma sociedade de fronteira. A autonomia não era apenas virtude: era condição de sobrevivência. Estradas, saúde, crédito e segurança eram escassos. Família, vizinhos e relações pessoais substituíam muitas vezes as instituições.
Talvez esteja aí uma das explicações para as dificuldades posteriores de organização coletiva. Não porque o homem grapiúna fosse incapaz de cooperar, mas porque sua formação histórica privilegiava soluções individuais e familiares.
A floresta e a monocultura
A floresta não foi apenas cenário. Forneceu madeira, água, alimento, sombra, caminhos e proteção, mas também isolou propriedades e comunidades. Favorecia simultaneamente autonomia e distância.
Com o tempo, o cacau organizou terra, trabalho, comércio e infraestrutura. Surgia, entretanto, um paradoxo: embora alimento, o cacau era principalmente mercadoria de exportação. O produtor podia viver cercado de cacaueiros e ainda precisar vender sua produção para comprar o que comer.
A monocultura criou riqueza, mas também dependência.
O cacau tornou-se um dos grandes sustentáculos econômicos da Bahia. Gerou impostos, comércio, exportações e divisas para o Brasil. A amêndoa saía da fazenda, atravessava armazéns e portos e retornava ao país como moeda capaz de financiar máquinas, petróleo e tecnologia.
Mas permanecia uma pergunta: quanto dessa riqueza retornava ao território onde era produzida?
Produzir também não significava controlar. O preço era determinado principalmente fora da região; crédito, exportação, industrialização e acesso ao consumidor permaneciam concentrados em outros elos da cadeia.
Produzir riqueza não significava necessariamente controlar a riqueza.

Poder, conhecimento e literatura
Onde as instituições públicas eram frágeis, relações privadas ocupavam espaço. O grande proprietário podia ser simultaneamente empregador, credor, intermediário político e fonte de proteção. É nesse ambiente que o coronelismo deve ser compreendido: como uma rede de dependências econômicas, políticas e pessoais.
Também é preciso abandonar a ideia de que o homem iletrado era ignorante. Ele podia conhecer profundamente chuva, solo, árvores, fermentação, rios e animais. O que frequentemente lhe faltava era domínio dos instrumentos formais de poder: contratos, escrituras, crédito, leis e burocracia.
Um homem podia dominar a floresta e ser vulnerável diante de um documento.
A literatura registrou essas dimensões. Jorge Amado iluminou a estrutura social: terra, trabalhadores, coronéis, violência, riqueza e desigualdade. Adonias Filho mergulhou no indivíduo moldado por esse ambiente: solidão, culpa, família, vingança e destino.
Jorge Amado ajuda a compreender a estrutura. Adonias Filho, a alma.
1989 e a ruptura
Em 1989, a Vassoura-de-Bruxa começou a destruir a capacidade produtiva da lavoura baiana. No mesmo ano caiu o Muro de Berlim. Os fatos não tinham relação causal, mas simbolizavam uma mudança de época.
Enquanto a Bahia entrava numa grave crise agrícola, o mundo avançava para maior integração econômica. Costa do Marfim expandia sua produção, Gana se recuperava e a Indonésia surgia como grande origem.
A Bahia produzia menos justamente
quando o mundo aprendia a produzir mais.
O Plano Real, a partir de 1994, trouxe estabilidade monetária, mas modificou também a economia dos setores exportadores. O câmbio valorizado reduziu, em determinados momentos, a quantidade de reais recebida pelo produto cotado em dólar, enquanto os custos permaneciam domésticos.
O Plano Real não criou a crise do cacau, mas alterou o ambiente no qual ela precisava ser enfrentada.
Programas de recuperação financiados por crédito também apresentaram dificuldades técnicas e de execução. Muitos produtores se endividaram tentando recuperar propriedades cuja produtividade não retornava no ritmo esperado.
A Vassoura atingiu a planta. O mercado atingiu o preço. O câmbio atingiu a receita. Os juros atingiram a dívida.
O que ruiu não foi o cacau nem a cultura grapiúna, mas a ordem econômica e social construída sobre a hegemonia da monocultura.
A cultura permaneceu. O conhecimento permaneceu. A floresta permaneceu em muitas áreas. E o cacau permaneceu.
Reinvenção
O homem do cacau precisou se adaptar.
A parceria ganhou importância. Produtores começaram também a perceber que permanecer apenas na venda da amêndoa significava ocupar o elo mais vulnerável da cadeia.
Fermentação, secagem, torra, moagem, chocolate, embalagem, marca e venda passaram a fazer parte de uma nova visão. Surgiram cacau fino, chocolate de origem, Bean-to-Bar, turismo, rastreabilidade, agrofloresta e valorização da Cabruca.
Talvez esteja surgindo uma segunda civilização do cacau.
A primeira crescia ampliando terra e volume.
A segunda terá de crescer ampliando valor.
A lição dos preços
Entre 2023 e 2025, problemas climáticos e doenças na África Ocidental reduziram a produção e os estoques mundiais. Os preços chegaram perto de US$ 13 mil por tonelada.
Vieram euforia, investimentos e valorização das terras. Parecia que preços elevados resolveriam problemas acumulados durante décadas.
Mas preços excepcionais provocaram sua própria reação: redução da moagem, destruição de demanda e busca por alternativas pela indústria. Quando a oferta melhorou, as cotações recuaram.
A lição é simples: preço alto não é política de desenvolvimento.
Renda extraordinária não substitui produtividade, organização, crédito, transformação, mercado e gestão de risco.
O Brasil e o desafio de criar mercado
O Brasil possui uma condição especial: é produtor de cacau, processador, fabricante de chocolate e grande mercado consumidor.
Depois de décadas em que o principal desafio era recuperar a produção, surge uma questão diferente: se a oferta crescer mais rapidamente que moagem, consumo e exportações, os preços ao produtor poderão sofrer pressão.
Por isso, o desafio já não é apenas produzir.
É criar mercado.
Criar consumidores, produtos, marcas, derivados, chocolate, exportações e novos usos para o cacau.
Produzir mais não significa necessariamente ganhar mais.
Aprender a cooperar
Talvez este seja o ponto central desta história.
O homem do cacau aprendeu a sobreviver sozinho. Agora precisa aprender a prosperar coletivamente.
Associação. Cooperativismo. Confiança. Instituições. Inteligência coletiva.
Não para eliminar o empreendedor individual, mas para aumentar sua capacidade. Um produtor isolado tem pouco poder diante de grandes compradores. Organizados, produtores podem compartilhar armazenagem, laboratórios, exportação, comercialização e inteligência de mercado.
A próxima fronteira da cacauicultura talvez esteja menos dentro das fazendas e mais entre elas.
O Sul da Bahia já possui quase todos os ativos necessários: produção, processamento, chocolateiros, universidades, escolas técnicas, centros de pesquisa, conhecimento científico, técnicos, tradição, história, literatura, indicação geográfica, Cabruca, biodiversidade e potencial de serviços ambientais.
O problema não é ausência de ativos.
É fazê-los funcionar como sistema.
1926–2026: um novo vestibular
Em 1926, cem anos atrás, o cacau baiano atravessava um período de grande expansão, pouco antes de a crise de 1929 transformar a economia mundial.
Em 2026, a cacauicultura brasileira enfrenta outra transição. Este pode ser chamado simbolicamente de o ano do vestibular da cacauicultura.
Em um século aprendemos o que acontece quando dependemos excessivamente de uma monocultura, quando doenças encontram economias frágeis, quando falta crédito adequado, quando produtores ficam fora das etapas de maior valor e quando preços extraordinários produzem euforia.
O vestibular não pergunta apenas se conhecemos o passado.
Pergunta se aprendemos com ele.
História, floresta e renda
História, documentos, literatura e memória devem orientar o presente, não servir como instrumentos de revanche ou conveniência.
Direitos devem ser respeitados e injustiças demonstradas precisam ser reconhecidas. Mas conflitos fundiários exigem rigor documental, institucionalidade, direito, antropologia, negociação e segurança jurídica.
O Sul da Bahia não precisa retornar ao mundo em que disputas eram resolvidas pela força privada.
O futuro exige lei, diálogo e instituições.
Também não existe sustentabilidade ambiental sem sustentabilidade econômica.
A Cabruca continuará existindo enquanto fizer sentido para quem vive dela. A família precisa viver, o trabalhador precisa receber e a propriedade precisa gerar renda.
Se o cacau não remunerar adequadamente e a conservação não produzir valor, outras atividades disputarão a terra.
A floresta precisa valer em pé. O cacau precisa valer no pé. E o produtor precisa conseguir viver dos dois.
Carbono, biodiversidade, água, paisagem, indicação geográfica, turismo e chocolate de origem podem gerar novas fontes de renda, mas precisam chegar ao produtor.
Desenvolvimento territorial
O futuro exige mais que uma política para o cacau.
Exige uma política para o território do cacau.
Desenvolvimento significa conectar fazenda e universidade, campo e cidade, escola técnica e empresa, pesquisa e produtor, cacau e chocolate, turismo e cultura, floresta e renda, memória e inovação.
O objetivo não deve ser simplesmente recuperar toneladas produzidas, mas produzir prosperidade a partir do cacau.
Toneladas medem produção. Desenvolvimento mede quanto conhecimento, renda, emprego e oportunidade permanecem no território depois que o cacau é vendido.
A primeira civilização do cacau foi construída pelo produto.
A segunda terá de ser construída pelas instituições.
Instituições capazes de financiar, pesquisar, formar, transformar, comercializar, preservar, resolver conflitos, produzir informação e gerar confiança.
Talvez o ativo mais escasso já não seja terra, floresta ou cacau.
Talvez seja coordenação.
A prova final
Temos terra. Temos floresta. Temos cacau. Temos indústria. Temos chocolateiros. Temos consumidores. Temos universidades. Temos ciência, história, literatura e experiência.
O que precisamos construir é confiança.
Confiança entre produtores, instituições, pesquisa e campo, indústria e agricultura, poder público e sociedade.
O vestibular da cacauicultura brasileira não será apenas uma prova de agronomia.
Será uma prova de maturidade institucional.
Os preços subirão e cairão. Novas doenças poderão surgir. Tecnologias aparecerão. Governos mudarão. O mercado continuará se transformando.
Mas o chão permanecerá.
A decisão sobre o que existirá sobre ele será tomada diariamente por quem vive da terra. Se produzir cacau e conservar a floresta gerarem renda, segurança e futuro, haverá razões para continuar. Caso contrário, outras atividades ocuparão esse espaço.
Preservar o chão do cacau significa tornar economicamente racional, socialmente digno e ambientalmente valioso continuar produzindo cacau.
Não precisamos reconstruir a velha civilização nem viver de nostalgia.
Precisamos aprender com a história. Dialogar. Associar. Cooperar. Produzir. Transformar. Criar mercado. Preservar. Desenvolver o território.
A primeira civilização do cacau foi construída pela coragem de homens e mulheres que enfrentaram a floresta.
A segunda, se vier a existir, será construída pela capacidade de homens e mulheres sentarem à mesma mesa.
O chão existe. A floresta existe. O cacau existe. O conhecimento existe.






