Thomas Hartmann – memória do Cacau da Bahia
Por Paulo Peixinho

Thomas Hartmann era uma dessas pessoas que merecem ser lembradas. No último dia 10 de setembro, completaram-se três anos de seu falecimento.
Húngaro de nascimento, escolheu o Brasil — e especialmente a Bahia — como sua terra. Inteligente, direto, trabalhador e, às vezes, de uma sinceridade que não conhecia muitos atalhos, dedicou grande parte da vida ao cacau. Trabalhou até que um AVC o obrigasse a parar.
Veio para a Bahia para trabalhar na Chadler e, depois, passou pela Barreto de Araújo. Com o tempo, tornou-se também produtor de cacau em Ubaitaba. Não era apenas alguém que trabalhava com o produto. Gostava do cacau, interessava-se pela sua história, pelos seus números e, sobretudo, por seu mercado.
Talvez por isso tivéssemos tanto assunto em comum. Compartilhávamos a paixão pelo mercado de cacau e pelo próprio cacau, duas coisas que parecem iguais, mas não são.
Lembro-me de sentar no lugar dele na COMCAUBA. Naquela época, a reunião da indústria acontecia antes da reunião dos exportadores. Thomas observava aquela separação com uma perplexidade que nunca abandonou. Não conseguia compreender por que indústria e comércio, pertencendo à mesma cadeia e dependendo um do outro, insistiam em se comportar como mundos distintos.
No início dos anos 1980, certa vez me disse:
“Ou os bagueiros se unem, ou vão todos acabar.”
“Bagueiros”, no vocabulário dele, eram os exportadores.
Quarenta e tantos anos depois, a frase merece ser relida. Era exagero? Provocação? Ou apenas a percepção antecipada de um processo de concentração e transformação que mudaria profundamente o comércio de cacau na Bahia?
Talvez Thomas estivesse enxergando antes dos outros.
Mas sua contribuição não ficou apenas nas conversas ou nas previsões. Ele realizou um imenso trabalho de pesquisa, compilação e organização de informações sobre o cacau baiano. Em um mercado onde histórias, estimativas e interesses muitas vezes se misturavam aos números, Thomas ajudou a dar fidelidade às estatísticas do cacau da Bahia.
E isso não é pouca coisa.
Estatísticas são também memória. Quando uma geração desaparece e os documentos não foram preservados, ficamos sujeitos às lembranças — e lembranças, por melhores que sejam, às vezes alteram datas, volumes e acontecimentos. Thomas compreendia o valor do registro.
Por isso, lembrar Thomas Hartmann é também lembrar de uma geração que ajudou a construir o comércio moderno de cacau na Bahia: produtores, exportadores, industriais e comerciantes que discutiam apaixonadamente mercado, safra, qualidade, estoques, diferenciais e futuro.
Thomas fazia parte desse mundo.
Para mim, ficou ainda algo mais simples e mais importante:
um amigo.
Que sua memória permaneça entre aqueles que amam o cacau e a história do cacau da Bahia.






