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Antifrágil e o mercado internacional do cacau

Volatilidade, risco e a transformação do equilíbrio entre oferta e demanda

Por Paulo Peixinho, cacauicultor

A volatilidade que destrói uns e fortalece outros

Paulo Peixinho

O mercado internacional do cacau oferece um exemplo particularmente interessante da teoria da antifragilidade, desenvolvida por Nassim Nicholas Taleb em sua obra Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos.

Taleb distingue três condições fundamentais: o frágil, que sofre diante da desordem; o robusto, que resiste aos choques; e o antifrágil, que pode se beneficiar da volatilidade e da incerteza.

O mercado do cacau reúne essas três condições simultaneamente. Uma queda acentuada de preços pode comprometer a sobrevivência de um produtor endividado, melhorar as condições de compra de uma indústria e abrir oportunidades para um comerciante capitalizado. O mesmo acontecimento produz consequências diferentes conforme a estrutura econômica de cada participante.

A volatilidade não é necessariamente o maior problema do mercado do cacau. O problema é a fragilidade de quem precisa enfrentá-la.

Essa distinção torna-se especialmente importante diante das transformações recentes do equilíbrio mundial entre produção, consumo e estoques.

Do déficit ao superávit: a instabilidade do equilíbrio

O mercado internacional do cacau passou de uma situação de escassez extraordinária para uma perspectiva de recuperação dos estoques e ampliação dos excedentes.

Na safra 2023/24, o déficit mundial foi estimado em aproximadamente 494 mil toneladas. Para 2024/25, estimativas da Organização Internacional do Cacau (ICCO) passaram a indicar um superávit próximo de 37 mil toneladas.

Balanço mundial do cacau, em mil toneladas — 2023/24 e 2024/25.

A mudança não significa que os problemas estruturais da produção tenham desaparecido. Demonstra, sobretudo, que os preços elevados incentivam ajustes na oferta, enquanto a demanda industrial responde ao aumento dos custos.

As projeções para as três safras seguintes ampliam essa discussão.

Indicador 2025/26 2026/27 2027/28
Produção estatística (mil t) 5.384 4.815 5.400
Moagens (mil t) 4.638 4.633 4.800
Superávit de amêndoas (mil t) 709 151 645
Relação estoques/moagens 48% 52% 65%

Estimativas para as safras indicadas, conforme os números apresentados. Não representam resultados definitivos.

Produção, moagens, superávit e relação estoques/moagens nas três safras projetadas.

Em 2025/26, a produção estatística projetada alcança 5,384 milhões de toneladas, enquanto as moagens permanecem em 4,638 milhões. O superávit estimado chega a 709 mil toneladas.

Na safra seguinte, 2026/27, a produção diminui para 4,815 milhões de toneladas, mas as moagens praticamente não avançam, permanecendo em 4,633 milhões. O excedente diminui para 151 mil toneladas.

Em 2027/28, a produção volta a crescer, alcançando 5,4 milhões de toneladas, diante de moagens projetadas em 4,8 milhões. O superávit estimado retorna a um patamar elevado, de 645 mil toneladas.

Entretanto, o indicador mais relevante talvez não seja o superávit anual isoladamente. É a evolução da relação entre estoques e moagens.

A elevação projetada desse indicador, de 48% para 65%, representa uma mudança relevante na capacidade potencial de abastecimento mundial.

Em princípio, estoques maiores oferecem uma proteção contra interrupções de oferta. Reduzem a vulnerabilidade dos compradores a problemas climáticos e podem diminuir a intensidade dos movimentos de preços provocados pela escassez física.

Mas existe um paradoxo.

O mercado mundial pode se tornar mais robusto justamente quando os produtores se tornam economicamente mais frágeis.

A recuperação dos estoques beneficia a segurança do abastecimento, mas também pode reduzir o poder de negociação dos agricultores e prolongar períodos de preços deprimidos.

Esse é um dos pontos mais importantes da teoria de Taleb quando aplicada ao cacau: a resistência do sistema não significa, necessariamente, a sobrevivência de todos os seus participantes.

A fragilidade escondida na cadeia produtiva

O mercado do cacau não distribui seus riscos de maneira uniforme.

O produtor realiza investimentos muito antes de conhecer o preço final de sua produção. Enfrenta doenças, mudanças climáticas, custos de mão de obra e incertezas comerciais. Sua capacidade de resposta é limitada pelo ciclo biológico da lavoura.

A indústria, por outro lado, possui mecanismos adicionais de adaptação. Pode administrar estoques, programar compras, modificar formulações e utilizar instrumentos financeiros para reduzir sua exposição a determinadas oscilações.

O trader pode atuar tanto na compra quanto na venda, negociar diferenciais e aproveitar oportunidades criadas pelos movimentos de preços. Entretanto, a alavancagem e a falta de liquidez também podem transformar uma posição comercial aparentemente favorável em uma situação de risco extremo.

Nenhum desses agentes é antifrágil por definição. A diferença está na estrutura financeira, na capacidade de adaptação e nas alternativas disponíveis.

Taleb nos ensina que a exposição ao risco deve ser avaliada não apenas pela probabilidade de um acontecimento, mas também pela dimensão de suas consequências.

Uma perda temporária pode ser administrável para uma empresa capitalizada e irreversível para outra que depende de financiamento de curto prazo.

O produtor brasileiro diante dos diferenciais

No Brasil, especialmente na região cacaueira do Sul da Bahia, a questão ganha uma dimensão adicional.

O preço recebido pelo produtor não depende exclusivamente das cotações internacionais de Nova York. Também é influenciado pelo câmbio, pelos diferenciais comerciais, pela qualidade das amêndoas, pelos custos logísticos e pelas condições de compra estabelecidas pela indústria e pelos intermediários.

Assim, o mercado internacional pode apresentar valorização enquanto o produtor brasileiro enfrenta deságios expressivos.

A existência de poucos canais de comercialização, associada à necessidade imediata de recursos financeiros, pode obrigar o agricultor a vender em condições desfavoráveis.

É nesse ponto que a fragilidade deixa de ser apenas uma questão individual e passa a representar um problema de organização econômica.

Uma cadeia mais antifrágil exigiria produtores com maior acesso à informação, alternativas comerciais, liquidez, mecanismos de proteção e capacidade coletiva de negociação.

A volatilidade internacional continuará existindo. O objetivo deve ser reduzir a dependência de condições comerciais que possam comprometer a própria continuidade da produção.

O paradoxo dos estoques

A recuperação dos estoques mundiais merece uma reflexão particular.

Na economia tradicional, estoques representam mercadorias armazenadas, custos financeiros e capital imobilizado.

Na abordagem de Taleb, podem representar também uma forma de preservar alternativas diante da incerteza.

Um estoque administrado prudentemente pode permitir que uma empresa atravesse interrupções de abastecimento ou aproveite condições comerciais favoráveis.

Entretanto, o mesmo estoque, quando financiado com endividamento excessivo, pode produzir perdas significativas em uma queda de preços.

A diferença entre proteção e fragilidade está na capacidade financeira de sustentar a posição.

Essa lógica também se aplica ao produtor. Armazenar cacau pode oferecer maior liberdade para escolher o momento da venda, mas somente quando as condições de conservação, os custos e a necessidade de capital permitem essa estratégia.

O estoque não é antifrágil por natureza. A antifragilidade está na liberdade econômica que ele pode proporcionar.

A estratégia Barbell e a preservação do capital

Entre os conceitos desenvolvidos por Taleb está a estratégia Barbell, ou halteres.

Sua lógica consiste em combinar uma base de elevada segurança com uma exposição limitada a oportunidades de maior potencial, evitando situações nas quais uma perda inesperada possa comprometer todo o patrimônio.

No mercado do cacau, essa abordagem sugere preservar capital de giro, administrar compromissos comerciais, controlar o endividamento e manter capacidade financeira para enfrentar períodos prolongados de preços desfavoráveis.

A exposição às oportunidades deve ser proporcional à capacidade de suportar eventuais perdas.

Essa orientação não elimina o risco. Procura impedir que uma decisão equivocada se transforme em ruína.

Para produtores e exportadores, a lição é particularmente importante: sobreviver aos ciclos desfavoráveis representa uma condição para participar dos ciclos seguintes.

O futuro do cacau: três possibilidades

As projeções de superávit e recuperação dos estoques não eliminam a possibilidade de novas rupturas.

O mercado continuará exposto às condições climáticas da África Ocidental, à evolução da produção sul-americana, às doenças das lavouras, às decisões governamentais e ao comportamento do consumo industrial.

Três cenários merecem atenção:

Cenário Consequência possível
Excesso de oferta Pressão prolongada sobre os preços e margens dos produtores
Nova ruptura climática Redução da oferta disponível e valorização brusca dos contratos
Demanda industrial enfraquecida Menor absorção da produção e aumento dos estoques

O desafio não consiste em escolher uma dessas possibilidades como verdade definitiva. Consiste em construir uma estrutura econômica capaz de resistir às três.

Uma empresa que depende exclusivamente da alta dos preços é tão vulnerável quanto outra cuja sobrevivência exige quedas permanentes.

A antifragilidade começa quando a continuidade da atividade deixa de depender de uma única previsão.

Conclusão — O cacau não precisa de profetas

A história recente do mercado internacional do cacau demonstra a dificuldade de antecipar movimentos extremos.

O déficit de 2023/24 foi seguido por uma mudança importante nas perspectivas de abastecimento. Agora, as projeções indicam novos superávits e recuperação progressiva da relação entre estoques e moagens.

O mercado pode passar da escassez à abundância em um intervalo relativamente curto. Os preços respondem a essas mudanças, frequentemente com movimentos superiores à capacidade de adaptação dos produtores.

Taleb oferece uma interpretação valiosa desse processo. Não basta estudar os ciclos. É necessário compreender como cada participante está preparado para enfrentá-los.

O produtor precisa de autonomia comercial e capacidade financeira. O exportador necessita de liquidez e disciplina na gestão de riscos. A indústria precisa preservar a continuidade de seu abastecimento. O trader deve reconhecer que nenhuma oportunidade justifica uma exposição capaz de produzir perdas irreversíveis.

Entretanto, existe uma diferença essencial entre um mercado que sobrevive e uma cadeia produtiva verdadeiramente sustentável.

O comércio internacional pode continuar funcionando mesmo depois da falência de milhares de agricultores. A produção pode migrar entre regiões e países. A indústria pode modificar suas estratégias de abastecimento.

O sistema sobrevive, mas isso não significa que seus participantes tenham se fortalecido.

Por essa razão, a construção de uma economia cacaueira mais antifrágil precisa incluir a organização dos produtores, o acesso ao capital, a diversificação comercial e uma distribuição mais equilibrada dos riscos.

A verdadeira antifragilidade não pode ser medida apenas pelo volume dos estoques ou pela capacidade de absorção das indústrias. Precisa considerar também a sobrevivência econômica de quem cultiva o cacau.

O mercado internacional do cacau não precisa de profetas capazes de anunciar o próximo preço. Precisa de produtores, comerciantes e indústrias capazes de continuar criando valor mesmo quando as previsões estiverem erradas.

Afinal, o futuro pertence menos àqueles que acreditam controlar a incerteza e mais àqueles que aprendem a conviver com ela.

Se a hipótese acima se confirmar, como o cacauicultor pode ser antifrágil?

Análise econômica e interpretativa. Não constitui recomendação de investimento.

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