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Cacau Brasileiro: uma marca a ser construída (Parte II)

Por Paulo Peixinho, cacauicultor

paulo@cacaupeixinho.com

 

´Paulo Peixinho

O cacau brasileiro pode ser uma marca global?

 

Antes de traçar qualquer paralelo com o Café da Colômbia, é preciso responder a uma pergunta essencial: o cacau brasileiro está preparado para se tornar uma marca global?

 

Para refletir sobre isso, revisito um artigo que publiquei em 2001, no Diário do Sul (Diário Bahia), no qual defendia a necessidade da criação e do gerenciamento de uma marca para o Cacau da Bahia. Doze anos depois, em 2013, retornei ao tema no Diário Bahia, reafirmando a mesma urgência. Passadas mais de duas décadas, a pergunta continua atual — e incômoda.

 

O objetivo sempre foi claro: demonstrar que é possível diferenciar o cacau em amêndoas, agregar valor ao produto e estimular o desenvolvimento regional do Sul da Bahia. Muitos consideraram — e ainda consideram — essa ideia uma fantasia. Argumentam que o poder econômico das grandes indústrias chocolateiras, em um mercado oligopsônico, absorveria qualquer prêmio que pudesse chegar ao produtor.

 

Esse raciocínio ignora um fator central: quem demanda o mercado é o consumidor final. Se ele reconhece valor em uma origem, em uma história e em um conjunto de atributos, estará disposto a pagar por isso. O prêmio não nasce espontaneamente; ele é fruto do árduo trabalho de construção de marca.

Historicamente tratado como commodity, o Cacau da Bahia sempre apresentou vantagens competitivas relevantes: baixo risco político, sistema de comercialização livre, liquidez, tradição no cumprimento de contratos e padrões consistentes de produção. Mesmo após a devastação causada pela Vassoura-de-Bruxa, a partir de 1989, o Brasil manteve-se como um dos maiores mercados consumidores de chocolate do mundo — um ambiente fértil para a construção de nichos baseados em qualidade.

 

A diferenciação é possível — e necessária. O cacau baiano pode se destacar por suas características sensoriais, por ser uma cultura que preserva a floresta nativa, por fixar mão de obra no meio rural e por estar dissociada do uso de trabalho escravo ou infantil. Esses atributos têm valor real no mercado contemporâneo.

 

Transformar uma commodity em marca não é tarefa simples, mas é um caminho viável e estratégico. Entre 2001 e 2013, o mercado global de cacau e chocolate evoluiu, mas apenas iniciativas isoladas de poucos produtores deram visibilidade internacional ao Cacau da Bahia, como no Salão do Chocolate de Paris. O modelo econômico regional, contudo, permaneceu essencialmente o mesmo: dependência da commodity, preços voláteis e renda insuficiente ao produtor.

 

Nesse contexto, as Indicações Geográficas (IGs) — previstas na Lei nº 9.279/96 — surgem como instrumento essencial. Trata-se de um selo coletivo, que, quando bem estruturado e gerenciado, beneficia toda a cadeia produtiva. Exemplos não faltam: o Espírito Santo já possui a IG Cacau Linhares, além de casos consolidados como Vale dos Vinhedos, Café do Cerrado Mineiro e outros produtos brasileiros valorizados por sua origem.

 

Hoje, a IG Cacau Sul da Bahia existe e cumpre seu papel de distinção. Mas é preciso ir além. O sonho inicial do Cacau Bahia ampliou-se para algo maior: o Cacau Brasileiro. Inclusive, a marca “Cacau do Brasil” já está registrada pela Associação dos Produtores de Cacau, sediada em Ilhéus.

Insisto nesse tema porque ele aponta uma saída concreta. Investir em cacau especial — fino e de aroma —, voltado a pequenos chocolateiros nacionais e internacionais, permite agregar valor, reduzir a dependência do mercado externo e minimizar os impactos das bruscas oscilações típicas das commodities. Trata-se de sair da lógica do preço imposto para entrar na lógica da escolha do consumidor.

 

Algumas fazendas do Sul da Bahia já são reconhecidas internacionalmente pela excelência do cacau que produzem. Na trigésima edição do Salão do Chocolate, o Brasil foi o país homenageado, com produtores do Pará, Acre, Amazonas e Bahia ocupando espaço de destaque. Os sinais existem.

 

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, avanços foram feitos. Mas tornar o cacau brasileiro uma marca global exige investimento contínuo, coordenação institucional e visão estratégica. Temos qualidade, história, floresta, gente, cultura, território e narrativa. Falta transformar tudo isso em política de marca.

 

Sem esse trabalho, continuaremos a ser apenas mais uma commodity. Com ele, podemos construir uma história que o consumidor queira comprar — junto com o chocolate.

 

(continuamos na parte III)

 

O texto acima também é  baseado  em textos publicados pelo autor em 16/5/2001, na seção opinião do Diário do Sul nº 347, p.4  e 1/10/2013 na p.3 do DIÁRIOBAHIA, Itabuna- Bahia

 

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