
Eduardo Platon

Às autoridades do Governo Federal,
ao Governo do Estado da Bahia,
ao Congresso Nacional,
e à sociedade brasileira
O cacau da Bahia não é apenas uma commodity. Ele é trabalho, renda, floresta em pé e parte da história do Brasil. Há mais de cem anos, milhares de famílias vivem do cacau cultivado no sistema Cabruca, no Sul e no Baixo Sul da Bahia, um modelo que preserva a Mata Atlântica e gera desenvolvimento regional.
Hoje, esse patrimônio está ameaçado.
Falamos em nome de quem produz
Na Bahia, o cacau é vendido principalmente por arroba (@), equivalente a 15 quilos. Quatro arrobas formam uma saca de 60 quilos.
Em janeiro de 2026, o preço médio pago ao produtor está em torno de:
• R$ 305,00 por arroba,
• o que equivale a R$ 1.220,00 por saca de 60 kg.
Esse valor é muito inferior ao que o produtor recebeu recentemente. Em 2024, com a alta histórica dos preços internacionais, a saca chegou a ser vendida acima de R$ 4.000,00.
Hoje, o produtor perde cerca de:
• R$ 70,00 por arroba,
• R$ 280,00 por saca.

E os custos continuam subindo.
O tamanho do prejuízo para a Bahia
A Bahia voltou a ser o maior produtor de cacau do Brasil:
• Produz entre 130 e 140 mil toneladas por ano,
• cerca de 2,1 a 2,3 milhões de sacas,
• mais de 50% da produção nacional.
Essa queda de preço representa uma perda estimada de:
Mais de R$ 600 milhões por ano retirados da economia rural baiana.
Esse dinheiro deixa de circular:
• no comércio das cidades do interior,
• no pagamento de trabalhadores,
• na manutenção das lavouras e no combate a pragas.
Concorrência desleal e risco ao país
Enquanto o produtor brasileiro cumpre leis ambientais, trabalhistas e sanitárias rigorosas, o Brasil importa grandes volumes de cacau de países onde:
• há registros de trabalho infantil,
• ocorre desmatamento,
• os controles sanitários são frágeis.
Essa prática cria concorrência desleal, pressiona os preços para baixo e coloca o país em risco de novas pragas, como já aconteceu no passado com a Vassoura-de-Bruxa.
A falsa ideia do “déficit”
A indústria de chocolate instalada no Brasil consome mais cacau do que o país produz hoje. Isso tem sido usado como justificativa para aumentar importações.

Mas é preciso dizer com clareza:
Com políticas públicas adequadas, incentivo à produção, crédito, pesquisa e proteção sanitária, o produtor
baiano e brasileiro tem capacidade de suprir esse déficit em poucos anos, sem depender de cacau de origem ética e ambientalmente duvidosa.
O que pedimos
Não pedimos favores. Pedimos justiça e bom senso.
O Brasil precisa:
1. Reforçar o controle sanitário do cacau importado.
2. Exigir padrões ambientais e sociais equivalentes aos cobrados do produtor nacional.
3. Combater a concorrência desleal e o dumping social e ambiental.
4. Valorizar o cacau brasileiro, em especial o produzido no sistema Cabruca.
5. Proteger a Mata Atlântica, que só permanece em pé porque o cacau garante renda ao produtor.
Conclusão
Quando o produtor perde R$ 70 por arroba,
a Bahia perde mais de R$ 600 milhões por ano,
e o Brasil perde floresta, empregos e soberania produtiva.
Defender o cacau da Bahia é defender:
• o trabalho digno,
• o meio ambiente,
• a economia do interior,
• e um modelo de desenvolvimento justo.
Esperamos que esta carta seja ouvida com a urgência que o tema exige.
Cacau da Bahia não precisa de discurso.
Precisa de respeito, regra justa e ação concreta.
Atenciosamente,
Produtores, trabalhadores, técnicos e cidadãos comprometidos
com o futuro do cacau da Bahia e do Brasil.
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Eduardo Platon é um pensador e escritor brasileiro com experiência em inovação política, empresarial e espiritual.
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