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Entre a produção e o consumo: países produtores de cacau e os maiores consumidores de chocolate no mundo

Givaldo Ferreira Couto

Givaldo Ferreira Couto

Originário da Amazônia peruana, segundo evidências arqueológicas, o cacau foi introduzido na Província do Grão-Pará em 1679, mediante autorização por carta régia, durante o período colonial português. Na Bahia, as primeiras sementes foram plantadas em 1746, provavelmente em áreas situadas entre canaviais, ocorrência que teria contribuído para a denominação do município de Canavieiras.

A expansão das áreas cultivadas e o desenvolvimento das práticas executadas na cadeia produtiva do cacau ocorreram em pleno processo de colonização, período em que a força de trabalho dependia majoritariamente da mão de obra de africanos escravizados, episódio emblemático que marcou, negativamente, essa trajetória histórica.

Somente cerca de duzentos anos após sua introdução na Bahia a cacauicultura passou por um processo de modernização, impulsionado pela criação da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), em 1957. As metodologias de extensão rural, por meio de capacitações e treinamentos de trabalhadores, associadas ao uso de insumos agrícolas — como corretivos, fertilizantes e defensivos — foram fundamentais para a modernização da atividade, que durante dois séculos foi conduzida sem a adoção sistemática de conhecimentos e práticas agronômicas adequadas.

Nas unidades produtivas dispersas em territórios de identidade que se estendem do Recôncavo ao Extremo Sul, milhares de trabalhadores e produtores familiares desenvolvem atividades agrícolas em áreas historicamente associadas ao trabalho de  africanos escravizadas e de povos originários, cuja atuação foi decisiva para a formação econômica e social da região cacaueira.

Theobroma cacao, simbolicamente associado à expressão “alimento dos deuses”, tornou-se, no contexto agrário baiano, símbolo de poder político e econômico em um período no qual figurava entre os principais produtos da pauta de exportação do estado. Fonte de inspiração para diferentes manifestações artísticas — como a pintura, a literatura e a teledramaturgia —, a cacauicultura perdeu centralidade econômica ao longo do processo de industrialização e da crescente expansão do setor de serviços na economia regional.

Coincidentemente, as populações de países desenvolvidos, caracterizados por elevado Produto Interno Bruto (PIB per capita) e altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), estão entre as que mais consomem chocolate no mundo. Essa relação evidencia uma possível associação entre o consumo per capita do produto e indicadores socioeconômicos, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 – Países com maior consumo de chocolate, elevado PIB per capita e alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

Países         Consumo (kg/ano) PIB  per capita (USD)                   IDH
Estônia 9 37.195 0,905
Alemanha 8,1 63.600 0,959
Suíça 7,9 118.173 0,970
Suécia 7,3 66.124 0,959
Bulgária 7,2 22.896 0,845
Irlanda 7 135.247 0,949
Reino Unido 6,6 50.000 0,946
Áustria 6,2 60.011 0,930
Finlândia 6 59.750 0,948
Polônia 5,7 30.651 0,906

Fonte: Elaboração própria com base em dados de consumo da Forbes Brasil e indicadores socioeconômicos do UNDP (2024) e World Bank (2024).

            A produção mundial de cacau concentra-se, majoritariamente, em países de baixa renda e baixo desenvolvimento humano, muitos dos quais classificados como países menos desenvolvidos (PMD). Esses países apresentam, em geral, baixos indicadores socioeconômicos, como reduzida renda per capita, menor expectativa de vida e taxas de alfabetização limitadas, contrastando com os países desenvolvidos, que lideram o consumo de chocolate e concentram as etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva.

Os países de economia emergente e em desenvolvimento concentram a produção de cacau, matéria-prima essencial para a indústria do chocolate, conforme apresentado na Tabela 2. Essa produção sustenta o processamento industrial e o consumo, predominantemente realizados em países desenvolvidos, os quais,  como já destacado, apresentam elevado PIB per capita e altos níveis de desenvolvimento humano (IDH), segundo classificações do Banco Mundial e do PNUD.

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Tabela 2 – Países com maior produção mundial de cacau (2024) consumo, PIB per capita e IDH

Países Produção (toneladas) Consumo   (kg/ano) PIB per capta (USD) IDH
1 Costa do Marfim 1.890.442 n.d. (muito baixo)      3.294 0,585
2 Indonésia   632.702 n.d. (muito baixo)      4.925 0,728
3 Gana   530.000 n.d. (muito baixo) 2.390,8 0,602
4 Equador   403.698 n.d. (muito baixo) 6.874,7 0,765
5 Nigéria   350.000 n.d. (muito baixo)      1.084 0,565
6 Camarões   320.000 n.d. (muito baixo)      1.830 0,587
7 Brasil   297.509 3,9    10.310 0,786
8 Peru  157.252 n.d. (muito baixo)      8.452 0,794
9 Serra Leoa    93.749 n.d. (muito baixo) 806 0,458
10 Colômbia   67.678 n.d. (muito baixo)      7.913 0,758

Fonte: Elaboração própria com base em FAO (2024), Forbes Brasil (2024) e indicadores socioeconômicos do World Bank (2024) e UNDP (2024).

A expressão n.d. (não disponível) indica que, nos principais países produtores de cacau, o consumo per capita de chocolate não é sistematicamente mensurado. Ainda  assim, evidências indiretas permitem qualificar esse consumo como muito baixo. No caso do Peru — que apresenta níveis relativamente mais elevados de PIB per capita e IDH entre os produtores analisados — estimativas indicam consumo em torno de 500 a 600 g per capita ao ano, portanto inferior a 1 kg.

Esse parâmetro reforça a inferência de que países com indicadores socioeconômicos inferiores tendem a apresentar níveis de consumo igualmente reduzidos ou ainda menores. Tal padrão está associado às restrições de renda e à estrutura da cadeia produtiva global, na qual a produção se concentra em países em desenvolvimento, enquanto o consumo se dá majoritariamente em economias de maior renda.

Observa-se uma acentuada desigualdade entre   os países    produtores de   cacau — responsáveis pela oferta da matéria-prima — e aqueles onde se concentram o processamento e o consumo de produtos derivados de maior valor agregado. Essa assimetria é evidenciada pelos dados estatísticos apresentados nas Tabelas 1 e 2.

Nos países produtores, o consumo de chocolate é significativamente reduzido quando comparado ao dos países desenvolvidos. Tal padrão está associado, em grande medida, aos níveis mais baixos de renda e de desenvolvimento humano, que limitam o acesso a bens alimentares industrializados. Nessas economias, o consumo tende a se concentrar em produtos essenciais à subsistência, em detrimento de itens considerados não essenciais, como o chocolate.

 

REFERÊNCIAS

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). FAOSTAT: database. Roma, 2024. Disponível em: https://www.fao.org/faostat/.

WORLD BANK. World Development Indicators. Washington, DC, 2024. Disponível em: https://data.worldbank.org/. .

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP). Human Development Report 2023/2024. New York, 2024. Disponível em: https://hdr.undp.org/.

FORBES BRASIL. Dia mundial do chocolate: saiba quais são os países que mais consomem essa delícia. 2024. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2024/07/dia-mundial-do-chocolate-saiba-quais-sao-os-paises-que-mais-consomem-essa-delicia/.

RPP NOTICIAS. Día del Cacao y Chocolate Peruano: consumo per cápita en el Perú. Lima, [s.d.]. Disponível em: https://rpp.pe/economia/economia/dia-del-cacao-y-chocolate-peruano.

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