
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Para o cacauicultor que lida diariamente com as atividades práticas da lavoura, pode parecer complexo decifrar como se formam os preços nas bolsas internacionais.
Mas uma coisa não é difícil compreender: a cotação da bolsa também nasce de decisões humanas. Assim como no mercado físico, só existe negócio quando alguém compra e alguém vende. De um lado há uma aposta; do outro, uma posição contrária.
No recente boom do cacau, entre 2023 e 2025, a narrativa dominante era clara: faltava cacau na África. A quebra de safra, as doenças nos cacaueiros, o clima adverso e os estoques apertados criaram o combustível inicial da alta. Mas o fogo cresceu quando o capital especulativo entrou no mercado.
Muitos compradores financeiros, que talvez nunca tenham visto um fruto de cacau, nem saibam onde ele é produzido, passaram a comprar contratos futuros. O mercado subiu porque havia fundamentos, mas também subiu porque o próprio mercado passou a alimentar o mercado.
A alta saiu do padrão histórico.
Os chocolateiros acionaram suas estratégias de defesa.
Os cacauicultores viveram dias raros de bonança.
Na subida, como sempre acontece, muitos ganharam e muitos perderam. Porque não existe compra sem venda. Se alguém comprou esperando a alta, alguém vendeu acreditando que aquele preço já era suficiente ou excessivo.
Mas o mesmo espelho que reflete a euforia também reflete o medo.
Quando começou a se espalhar a notícia da destruição da demanda, consumidores comprando menos chocolate, indústrias reformulando produtos, estoques sendo administrados com cautela, muitos passaram a vender o mercado futuro. A narrativa mudou. E o mercado caiu.
Entre 2023 e 2026, o cacau ensaiou duas tentativas de decolagem. Em ambas, voltou ao chão. A pergunta agora é inevitável: haverá uma terceira tentativa?
Talvez sim. Talvez não.
Mas, para o cacauicultor, o aprendizado dos últimos anos deveria ser simples e prático: quando o mercado sobe acima do custo de produção e oferece margem satisfatória, a prudência recomenda vender parte da produção. Se subir mais, vende-se mais um pouco. Se continuar subindo, guarda-se caixa, organiza-se a fazenda e protege-se o resultado.
O produtor não precisa acertar o topo. Ele precisa sobreviver ao ciclo.
Afinal, o cacauicultor, por natureza, está sempre comprado: sua lavoura é sua posição. Seu risco já está no campo, na florada, na doença, na seca, no excesso de chuva, na mão de obra e no preço.
Por isso, não há vergonha nenhuma em vender quando o mercado oferece lucro. Vergonha é acreditar que toda alta será eterna.
É assim que funciona o mercado.
Não existe alta vitalícia.






